'Kick-Ass' traz de volta a pancadaria com senso de humor

Carol Almeida, Portal Terra

DA REDAÇÃO - Atire a primeira pedra - ou tire do armário a primeira máscara - quem nunca teve a certeza absoluta de ser um poderoso super-herói muito bem disfarçado de pessoa comum? Não? Nunca? Ok, você passou no teste dos seres humanos que nasceram com o pé no chão e a cabeça numa tabela de Excel. Mas saibam que vocês, seres humanos resignados ou super-heróis disfarçados, que todo mundo, todo mundo mesmo, já quis ou quer, um dia, fazer a diferença. E no fim das contas, toda e qualquer história de super-heróis é uma história sobre como é importante ser especial. Kick-Ass - Quebrando Tudo é o filme que, em todos esses anos de adaptações dos quadrinhos para o cinema, soube melhor traduzir aquela experiência para fora do corpo que temos toda vez que nos projetamos como o herói que se faz especial quebrando a cara (e quebrando com gosto) do vilão da história.

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Portanto, antes de sair correndo para a bilheteria do cinema, eis alguns fatos básicos que você precisa saber: 1) Kick-Ass - Quebrando Tudo é uma parábola de uma adolescência que, às vezes, perdura pela nossa vida adulta, 2) O filme não é uma super-produção hollywoodiana com terabytes de efeitos especiais para encher os olhos, 3) Ainda assim ele é a mais explosiva experiência que você pode ter dentro de uma sala de cinema. Por último, mas certamente não menos importante: 4) Não leve crianças para a sessão. Porque não, este não é um filme em que o Bem vence o Mal e espanta o temporal. Isso pode até acontecer, mas até lá muito sangue será derramado e várias cabeças irão rolar. E, acreditem, este filme não faz uso de figuras de linguagem para mostrar como se corta um pescoço com estilo.

Baseado na história em quadrinhos homônima escrita pelo genial Mark Millar e desenhada pelo não menos brilhante John Romita Jr., o filme que chega esta sexta-feira (18) aos cinemas brasileiros (nos Estados Unidos ele estreou em abril nos Estados Unidos com uma bilheteria gorda) consegue captar o sumo de todas as referências pops que a HQ carrega e que o cinema permite.O argumento parte de uma pergunta tão óbvia quanto original: por que, diante de tantas centenas de milhares de fãs de super-heróis, ninguém nunca teve a ideia de tentar ser um? Ou, na sábia constatação de Dave, protagonista desta história, "por que todo mundo quer ser Paris Hilton e ninguém quer ser Peter Parker?"

Dave, esse adolescente cujo único superpoder é ser invisível às garotas (e convenhamos, a maior parte dos colegiais desfrutam desse atributo), é a imagem da pessoa comum, do cara que nem senta na primeira fila, nem faz parte da turma do fundão. Ele está ali, na coluna do meio e, nessa situação, seu melhor passatempo é imaginar que a realidade é somente um papel de parede para mundos imaginados bem mais excitantes, e excitantes na perspectiva de um adolescente em euforia hormonal.

Ao lado de dois amigos tão ou mais nerds do que ele, Dave gasta suas horas livres lendo gibis ou se masturbando diante de sites pornôs. Não necessariamente nessa ordem. Sua condição de entediante normalidade o encoraja então a fazer aquilo que, misteriosamente, ninguém havia tentado antes. E em lugar de tirar a melhor nota da escola, entrar para Harvard e terminar como presidente dos EUA, ele decide virar um super-herói.

Alguns cliques no e-Bay mais tarde, ele está vestido e armado para o embate corporal. Não é preciso ser um gênio da medicina para saber que esse rapaz vai levar porrada e que, inevitavelmente, ele vai terminar numa maca de hospital. Mas a maca será apenas o começo. Porque sua obsessão pela Justiça dos seres invisíveis é (quase) infinita.

Dirigido por Matthew Vaughn, já conhecido dos fãs de quadrinhos por ter adaptado para o cinema Stardust, livro ilustrado do quadrinista Neil Gaiman, o filme faz uso dos recursos mais simples de edição para causar o impacto que, em grandes produções, é gerado por vários aplicativos de computação gráfica. Há um certo elemento artesanal nas imagens de ação deste filme que, no entanto, não se impõe como uma camada extra que vai te distrair da cena em si. O filme de Vaughn tem estilo sem precisar ser estiloso. E é preciso reconhecer que muito desse estilo nasce não apenas do roteiro e da montagem, mas da incrível conjunção astral de bons atores que o filme revela.

Aaron Johnson, o Dave/Kick-Ass, tem aquele rosto com sensação de primeira fornada, fresquinho, quente e pronto para ser disputado a tapas por quem acordou cedo para ir à padaria. Não à toa o rapaz está sendo sondado para substituir Tobey Maguire na franquia Homem Aranha. Johnson, que fez um convincente John Lennon no filme independente Nowhere Boy, tem a ingenuidade necessária ao personagem e sabe convencer na sua completa inaptidão, porém genuína vontade, para o heroísmo. Seus dois amigos nerds, Marty (Clark Duke) e Todd (Evan Peters) se encaixam perfeitamente naquele grupinho Big Bang Theory de meninos ocupados demais em tirar a realidade por menos.

Mas mesmo com todo esse divertido núcleo colegial, quem ganha volume de gigante neste filme é a pequena Chloe Moretz, que interpreta a personagem de Mindy/Hit Girl, a criança com peruca roxa que sabe mais sobre armas do que o serviço de inteligência dos Estados Unidos e as manuseia com mais habilidade que Rambo. Hit Girl não está para brincadeiras, como ela faz questão de frisar. Aliás, fica aqui a sugestão: já que, em determinado momento, Vaughn faz seu tributo ao cinema de Quentin Tarantino, seria interessante ver um spin-off com Hit Girl e a Beatrix Kiddo de Kill Bill. Sangue garantido ou o seu dinheiro de volta.

Quem também não está para brincadeiras é a própria Chloe Moretz, jovem atriz que está ficando bem treinada em fazer papéis mais maduros do que seu tamanho supõe. A lembrar que é ela quem interpreta a irmã esperta e prudente do carinha apaixonado e emocionalmente infantil de 500 Dias com Ela.

Hit Girl, para quem está se perguntando, é a filha de Big Daddy, um cara que se veste como Batman (nos quadrinhos de Millar a semelhança não é tão evidente quanto no filme) e tem como meta de vida destruir um poderoso traficante de drogas. Há explicações sobre o motivo desse verve vingativa, mas para bem da surpresa de quem vai degustar as inúmeras referências a quadrinhos da trama, melhor deixar os motivos em suspenso.

Ainda que não seja, como não devem ser essas adaptações, uma versão ipsis-litteris dos quadrinhos (o protagonista, para o bem da fórmula hollywoodiana, termina conquistando algumas coisas que ele não consegue no roteiro de Millar), Kick-Ass, o filme, é uma transposição muito bem orquestrada de todas as ansiedades e satisfações compartilhadas por quem, no fundo, queria sair por aí com uma máscara e ser respeitado por isso. O segundo filme, baseado no capítulo 2 dos quadrinhos, chega aos cinemas em 2012. E tudo que podemos esperar é que a pancadaria seja tão divertida e inteligente quanto são os super-heróis com noção do ridículo.