Artista Katie Scherpenberg intervém na paisagem para fazer imagens

André Duchiade, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Para o curador Paulo Herkenhoff, a exposição que a artista brasileira Katie van Scherpenberg inaugura nesta sexta-feira, no Paço Imperial, bem que poderia chamar-se Pinturas. Intitulada Distante Far away, a mostra reúne 14 séries de fotografias de intervenções da artista realizadas em espaços como lagos da Patagônia, dunas do Piauí e rios na Amazônia, complementadas por vídeos e algumas pinturas das séries Via sacra e A queda de Ícaro. Apesar dos suportes pouco convencionais como grama, areia e água, Katie declara que suas motivações são pictóricas:

As fotografias não têm nada a ver com land art, meu interesse é a pintura esclarece Katie, citando a vertente artística que faz da paisagem a própria obra. Os problemas com que lido são ligados a esta arte, e não à arte efêmera ou a intervenções na natureza. São imagens que eu formo e registro, e que têm muito a ver com minhas obras mais conhecidas. Conforme uso pigmentos como cera, sal e terra, aumenta minha percepção do que acontece na matéria

As fotografias revelam trabalhos da artista realizados entre 1986 e 2009. De acordo com Katie, a motivação das intervenções era estudar temas ligados à pintura, como cores, sombras e texturas. A pesquisa não buscava provocar reflexões no público, mas sim ajudar a percepção da artista. Daí o nome que tinha para ela: ensaios visuais.

Quando comecei estas obras, nunca pensei em mostrá-las admite. Eram ensaios que eu realizava para mim, jamais pensei que as pessoas iriam se interessar. Quando fazia intervenções na paisagem, formava imagens desconhecidas, era uma maneira de me surpreender. Depois, como pensei que minhas pinturas tinham a ver com esses estudos, quis fazer essa exposição.

A própria natureza das intervenções desfavorecia o acesso do público. Do primeiro estudo realizado por Katie Jardim vermelho, de 1986, quando ela, acompanhada por alunos de artes plásticas do Parque Lage, pintou folhas do jardim de vermelho para analisar a relação dessa cor com o verde ao mais recente Utopia, de 2009, realizado na Patagônia o efêmero das obras foi uma marca constante.

Os registros fotográficos foram desenvolvidos com o propósito de guardar os resultados dos estudos. Para reter as cores e poder analisar posteriormente as intervenções que tinha criado, Katie tirou mais de três mil fotos analógicas. Só uma parcela disso foi para a exposição, reunida em 14 séries que variam de três a 36 retratos espalhadas em cinco salas do Paço. Nas palavras da artista, as fotos são um registro fiel de seus ensaios visuais:

Surpreendentemente, pouca coisa se perde na mudança para a fotografia, é extraordinário como as imagens são bonitas, e como revelam uma beleza instantânea.

Um dos destaques é a série Esperando papai. No trabalho, de 2004, uma sucessão de imagens analógicas capta o momento em que a luz do pôr do sol é substituída pelo lume de uma lamparina, enquanto Katie, com a água do Rio Negro à cintura, ainda espera. Já em Síntese, a água do rio aproxima-se de uma base de sal sobre uma praia de areia negra, até fazer a substância desaparecer.

Olhar estrangeiro

A exposição é atravessada por uma sensação de desenraizamento. Filha de pai diplomata holandês nascida no Brasil, a pintora passou grande parte de sua vida na Amazônia, depois morou na Alemanha, até se estabelecer no Rio em 1973. O sentimento de exílio nunca a abandonaria:

A distância sempre fez parte da minha vida confessa. Lembro-me que, quando era muito pequena, as pessoas me diziam que Brasil era far away . Quem vem de outro lugar quer pertencer aonde está no momento, e uma das maneiras de pertencer é fazer esforço enorme para estar naquele lugar. Gosto de um trabalho de Ana Mendiata onde a artista se cobre de terra. Muitas obras minhas têm a ver com isso.