Secretário do Audiovisual se compromete a levar suas experiências

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Ele tomou posse oficialmente do cargo de secretário do Audiovisual no último dia 7 discursando em favor de todos os meios de comunicação. Nosso desafio agora é atuar simultaneamente em todas as mídias, atingir a todos os públicos, ocupar o mercado sem preconceitos, além de entender e amar a complexidade do povo brasileiro , anunciou o paulistano Newton Cannito que, aos 36 anos, é o mais jovem ocupante da pasta, em substituição ao cineasta Silvio Da-Rin.

Nesse contexto, a secretaria promete virar uma extensão da múltipla vida profissional de Cannito. Autor de séries de TV arrojadas, como 9mm: São Paulo, da Fox, e Cidade dos homens, produzida pela Rede Globo e a O2 de Fernando Meirelles, e roteirista de filmes provocadores, como Quanto vale ou é por quilo?, de Sérgio Bianchi, Cannito também é um pensador do audiovisual: lançou em abril o livro A televisão da era digital Interatividade, convergência e novos modelos de negócio e, até receber o convite do Ministério da Cultura, dirigia o Instituto de Estudos de Televisão e a Fábrica de Ideias Cinemáticas.

Ao conjugar prática e pensamento, Cannito, que é dono de um blog e tem centenas de seguidores no Twitter, é promessa de renovação na área.

Minha vantagem é que sei onde estão os maiores obstáculos. Sei bem o que é ter a própria força criativa represada pelos labirintos burocráticos diz o secretário, em entrevista por e-mail ao Caderno B.

Você é o mais jovem secretário do Audiovisual. A idade pode ser uma vantagem à frente de políticas públicas?

Não penso muito nessa questão. A idade não é tão determinante para o sujeito estar na ponta da cultura ou ter ideias ultrapassadas. Acredito que experiência é fundamental e, quando se consegue manter o ímpeto pela inovação, aí temos uma combinação que serve muito bem à sociedade. Independentemente da minha idade, me considero um profissional com experiência, constantemente preocupado em não me acomodar a ela e buscar contato com a diversidade e com o novo. O importante é se reinventar sempre. Agora, por exemplo, vou me reinventar como gestor público.

Você escreveu roteiros de filmes modernos, é autor de livros, tem blogs, seguidores no Twitter, enfim, está ligado às diversas mídias. Como se vê na administração pública, uma área tida como lenta e burocrática?

Minha vantagem é que sei onde estão os maiores obstáculos. Sei bem o que é ter a própria força criativa represada pelos labirintos burocráticos. Por outro lado, é claro que o Estado deve ter instrumentos de controle do investimento público. Ou seja, burocracia é uma característica importante do Estado republicano. Mas ela precisa ser também criativa. A máquina é burocrática, mas o combustível dela é o homem e suas ideias. A máquina se moderniza com as ideias criativas. Do ponto de vista pessoal, está sendo um grande desafio.

Em seu Twitter, você costuma postar afirmações como: Na era digital, o sucesso estará nas mãos dos que entendem de conteúdo e podem criar universos complexos para todas as mídias ao mesmo tempo . Pretende aplicar seus conhecimentos no gerenciamento do setor audiovisual?

Antes de mais nada, estou a serviço de um ministério que revolucionou a visão que o Estado tem de produção cultural, com toda sua diversidade de agentes, suportes, formatos e linguagens. É uma gestão moderna, e minhas ideias podem contribuir para que continuemos avançando nesse sentido. Pretendo aplicar todos os conhecimentos possíveis os meus e os dos que chegarem para colaborar. Convergência de ambientes é um fenômeno contemporâneo evidente, é fato. Antes de ser convergência de mídias, o que acontece hoje é a convergência de criadores, e multiplicação de suas capacidades e alcances. Temos que estar à altura dessa dinâmica contemporânea.

Até mesmo em função das circunstâncias envolvendo sua indicação para a pasta, quais seriam os principais desafios a serem enfrentados na secretaria neste primeiro momento?

Os desafios continuam os mesmos que vêm sendo enfrentados pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira. Desde o seu primeiro e revolucionário momento. Na SAv, Orlando Senna e Sílvio Da-Rin democratizaram e ampliaram a ação da secretaria como nunca antes. Recebo o bastão para dar continuidade ao trabalho deles, sem deixar de abrir espaço a novas ideias e visões, contribuindo com minha bagareunir todas as pontas em um programa de intercâmbio e integração de relacionamento SAv-TV, com a promoção de ações conjuntas. A TV pode beneficiar e ser beneficiada pelo cinema e pela internet. Cada mídia tem suas especificidades, e trabalhar a combinação entre diferentes especificidades técnicas, artísticas e culturais está na essência do audiovisual.

Em alguns de seus textos, você defende uma TV mais democrática. Como seria possível fazer isso no Brasil?

A TV, que se mantém ainda hoje como principal mídia contemporânea, é espelho da sociedade. Democracia é a bandeira do processo. Há muito o que fazer, ainda mais no contexto da convergência. Repito, a convergência é, sobretudo, de pessoas criativas. A TV, o cinema, as mídias digitais etc, são feitas por profissionais da criação, tanto artistas quanto gestores. É preciso criar formas de relacionamento entre esses setores. Democracia é entendimento, diálogo.

A saída de Da-Rin está ligada a uma disputa entre o secretário e a Ancine, relacionada a medidas que prejudicavam as intenções de a TV Brasil de produzir seu próprio conteúdo. Como vê a questão?

Acredito que Silvio Da-Rin fez um bom trabalho à frente da Secretaria e me sinto honrado em substituí-lo. Seria precipitado se eu me manifestasse sobre essa questão neste momento. Já não se trata de eu ter uma opinião pessoal. A SAv terá sua posição, a seu tempo.

Como ficam os projetos com os quais você estava envolvido antes de sua indicação para a pasta?

O momento é de dedicação à causa pública. Meus projetos e roteiros ficam em espera, por enquanto. Ao final do trabalho na SAv, espero poder retomá-los. Mas esta é a hora de pensar nos projetos dos meus colegas. Estou focado na dedicação à Secretaria do Audiovisual e ao Ministério da Cultura, isto é, à cultura brasileira de forma mais abrangente, à sociedade. Se o setor audiovisual melhorar, meus projetos futuros também melhorarão.