Poesia de Manoel de Barros, identificação à linguagem das crianças

José Carlos Pinheiro Prioste, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Tanto no mais recente livro de poemas de Manoel de Barros, Menino do mato, como na Poesia completa, reencontramos os tontos, os passarinhos, o arrebol, Bernardo, as pedras, os gorjeios, o rio, o ermo, o silêncio, o avô, a solidão , como ressalta Pascoal Soto na quarta capa. O lançamento desses volumes possibilita uma retrospectiva da obra do poeta.

O projeto barrosiano no que diz respeito à linguagem se atém a uma expressão que busca, além da aproximação com a palavra pelo dado lúdico, uma identificação ao linguajar dos infantes, dos sem voz ainda, daquilo que não se manifesta sob o rigor da lógica racional.

A poesia de Manoel de Barros, embora pareça ingênua, utiliza tempos verbais não usuais como o pretérito mais-que-perfeito: Bernardo nem sabia que houvera recebido o privilegio do abandono . No entanto, este mesmo modo de expressão conjuga-se a uma enunciação que deixa transparecer uma atenção ao registro coloquial em que vigora o desrespeito à normatividade gramatical e ao vernáculo refinado, como no próprio título de O livro das ignorãças. Uma terceira margem parece ser a via aberta por essa espécie de antipoesia na qual vigora uma poética do avesso.

A inadequação aos princípios poéticos tradicionais moldados por uma depuração da expressão já é percebida no primeiro livro: Poemas concebidos sem pecado, de 1937, em que se encontram em estado embrionário, não apenas a temática posterior voltada para a infância, os dementes e andarilhos, mas um próprio modo de se expressar que trilhava uma vereda diversa da bifurcação modernista entre a atenção ao primitivismo e ao progresso modernizante. Face imóvel, de 1942, e Poesias, de 1947, evidenciam não só um compromisso social o poeta foi membro da Juventude Comunista como apresentam uma configuração tradicional do verso. O quarto livro, Compêndio para uso dos pássaros, de 1960, inaugura a trajetória que o identificou tardiamente tanto a uma poesia telúrica como a uma dicção fragmentária oriunda da oralidade.

A liberdade se configura na preocupação com a linguagem. Não à toa inúmeras obras se intitulam com referências à escrita: Gramática expositiva do chão (1966), Livro sobre nada (1996), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001). Menos que uma temática metalinguística, esta diretriz se determina pela virtualidade da imaginação distinta da narrativa histórica: Escrever o que não acontece é tarefa da poesia . O estro poético barrosiano transfigura a natureza não como os cronistas iniciais da história brasileira, mas pelo viés do paradoxo que põe em questão o princípio da identidade. A inversão da relação linguística convencional e arbitrária entre os nomes e as coisas pelo deslocamento e estranhamento que o poeta efetua ao designar que plumas são pedras, no dizer de Octavio Paz, ou seja, pela identidade dos contrários em que isto é aquilo, contraria os fundamentos do pensar ocidental. Na poesia de Manoel de Barros, a separação entre sujeito e objeto é desarticulada pela junção de um sujeito objetivado e de um objeto subjetivado.

O linguajar de Barros não postula uma nostálgica condição adâmica ou edênica, pois a materialidade sensória da linguagem de sua poética postula um retorno mais anterior: ao estado primevo, originário, fundador, inaugural. e não genesíaco no sentido bíblico. Daí um de seus livros receber o título de Poemas rupestres.

A materialidade da sua linguagem se funda menos por uma atenção ao aspecto melopéico do que por uma valorização da ideação imagética avessa à lógica do senso comum. A contida melopéia barrosiana se sustenta em recursos sonoros comedidos através de reiterações homofônicas, como nos versos que abrem o mais recente livro: Eu queria usar palavras de ave para escrever. / Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomeação. / Ali a gente brincava de brincar com palavras (...) . A primazia à vagueza da expressão entra em consonância com a poética de Verlaine por se constituir como fator decisivo contra a eloquência e o entendimento lógico: Pra meu gosto a palavra não precisa significar é só entoar .

A escrita do poeta de Retrato do artista quando coisa entoa uma temática referente aos loucos, vagabundos e crianças em um eterno retorno na qual se configura uma reiteração infinita de uma natureza que se repete seja no cantar dos pássaros, no correr dos rios, no florescer das árvores, no amanhecer e anoitecer de cada estação. O que distancia essa poesia de uma representação figurativista do mundo natural é a presentação através da concepção originária da linguagem, ou seja, poética reinventada pelo prisma ilógico, na contramão do senso comum.