Depois de ser esticada, 'Bela, A Feia' finalmente chega ao fim

Portal Terra

RIO - Bela, A Feia parecia ter os ingredientes necessários para se destacar entre os folhetins apresentados pela Record em sua busca pela liderança. A trama central era leve, o elenco foi escolhido a dedo - com nomes conhecidos e vários deles elogiados - e o projeto contou até com uma espécie de cidade cenográfica, montada no parque de diversões Terra Encantada, no Rio de Janeiro.

Mas, depois de quase nove meses no ar, o que se viu ao longo dos mais de 200 capítulos escritos por Gisele Joras foi um amontoado de clichês defendidos por personagens caricatos demais e um texto quase adolescente. Se a ideia da autora era fugir de uma cópia do original colombiano de Fernando Gaitán, Yo Soy Betty, La Fea, o objetivo foi alcançado. O que não significa um resultado positivo em diversos aspectos, mesmo com a boa média de 13 pontos de audiência que vem conseguindo em sua reta final.

É fácil atribuir o crescimento dessa audiência - que já chegou a amargar cinco pontos, deixando a emissora em terceiro lugar - apenas a mudanças na trama. Mas há que se considerar que, na verdade, Bela, A Feia não aumentou os números da faixa das 22 horas da Record. Horário esse que a trama passou a ocupar pouco antes da reviravolta em torno de sua personagem-título, que passou de secretária feia e desengonçada a executiva promissora e cobiçada por todos os homens da novela. Chegou, inclusive, a fugir de bandidos pilotando um helicóptero.

Exageros complicados para serem explicados e, talvez, justificados na determinação de esticar o projeto. A estratégia costuma prejudicar até os folhetins com sucesso ao longo de toda sua exibição, que dirá quando esta é uma estratégia da emissora para camuflar o esvaziamento de seu setor de teledramaturgia.

Mesmo assim, é preciso reconhecer que algumas surpresas boas surgiram na novela. O núcleo do salão Montezuma, por exemplo, foi responsável por alguns dos melhores momentos. Tanto que foi o único que não fugiu de sua função original: a de fazer rir. Mesmo quando toda a trama perdeu comicidade, em busca de um tom mais tenso e dramático. Personagens como Haroldo, Ícaro, Elvira e Magdalena, de João Camargo, Rafael Primot, Bárbara Borges e Laila Zayd, respectivamente, deram tão certo que poderiam ser deslocados para um sitcom. Aliás, foi essa a impressão ao longo de toda a novela: o salão Montezuma parecia um projeto à parte na trama.

Além dele, Simone Spoladore conseguiu se impor como uma atriz de comédia na televisão. Na pele da vilã afetada Verônica, deixou para trás o marasmo de seus últimos papéis na tevê, como a alma penada Luci de O Profeta e a apática Heloísa, de América, ainda na Globo. Prestigiada no cinema, Simone parecia degustar cada gota de maldade que a ambiciosa personagem recebia, todas visivelmente inspiradas em personagens de quadrinhos. Essa, definitivamente, não fez nada de feio na novela.