Adilson Xavier conta a história de homem que atira para todos os lados

Luisa Bustamante, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Quanto mais ideia a gente bota para dentro, mais ideia aparece e uma coisa se liga na outra como se já tivesse combinado, igual quebra-cabeça . Este é um dos muitos insights de José Espínola, protagonista de O atirador de ideias, recém-lançado romance de Adilson Xavier. Espínola é um personagem em mil. Sai da Bahia para tentar uma vida melhor no Rio, arruma um emprego qualquer, acaba morando num sobradinho sem graça na Ladeira dos Tabajaras, e, aos tropeços, tenta começar uma vida nova na cidade grande. A história é até comum, mas é o personagem que tempera a narrativa do publicitário que estreia na ficção. O destino de Espínola muda quando arruma um emprego de garçom numa agência de publicidade onde pode pôr em prática seus pensamentos cheios de sustância , como gosta de dizer. O que o baiano não espera, porém, é que as ideias que lhe conseguiram o bico possam, também, ser perigosas.

O atirador de ideias é seu primeiro romance. Como ele surgiu?

Quando lancei meu primeiro livro, O deus da criação, uma jornalista me perguntou: como surgiu essa ideia? Mais ou menos do jeito que você fez agora. Já havia respondido o mesmo a respeito de minhas campanhas publicitárias, mas quando voltou a ser feita em relação ao livro, soou diferente, com volume aumentado e muito eco, deixando evidente o quanto as pessoas se interessam pelo tema. Naquele momento decidi que escreveria uma história que girasse em torno do surgimento de uma ideia, e que o protagonista dessa história seria uma pessoa comum, simples, quase imperceptível, de quem normalmente não se esperaria nenhum brilhantismo.

José Espínola é um personagem comum refluxo do êxodo rural no Brasil mas, no decorrer do romance, ele se revela profundo. Algo ou alguém em especial serviu de inspiração para a criação do personagem?

O personagem não foi inspirado em alguém especial, mas no conjunto de imigrantes que se lança nas metrópoles buscando realizar seus sonhos, sejam eles quais forem. A bagagem interior que essas pessoas carregam, nas poucas vezes em que é enxergada, costuma ser subdimensionada. Raríssimos casos conseguem vencer o bloqueio e ganham algum reconhecimento, mas todos os que deixam suas raízes para se atirar nessa arriscada busca são mais profundos do que parecem, são heróis, merecedores do nosso aplauso.

Diz um trecho do livro, quando José Espínola vai ao circo com o pai: O atirador de facas era um Guilherme Tell às avessas, seu sucesso consistia em fracassar constantemente . O sucesso de um atirador de idéias também consiste na expectativa do seu fracasso?

A visão do atirador como fracassado é apenas uma das possibilidades exploradas pelo livro. A partir da relação do personagem com o número circense de atirar facas, as situações e os pensamentos se desenvolvem de forma a mostrar quantos diferentes enfoques criativos podem surgir em torno daquela performance. Um atirador de ideias, para ser bem sucedido, tem que acreditar sempre no sucesso e nunca temer o fracasso, porque o medo é o principal inimigo da criatividade.

Você já disse que as ideias estão circulando por aí, à espera de que alguém as pesque. O que é preciso para enxergá-las?

Primeiro, é preciso querer enxergá-las, o que nos obriga a um estado de vigília permanente. Depois, é preciso treinar o olhar. Isso se adquire com o tempo, variando os ângulos de observação, refinando a percepção e temperando-a o tempo todo com imaginação.

Você levou vícios da linguagem publicitária para o texto de ficção?

Na hora de escrever o romance quem assume o teclado é o escritor. O publicitário fica de folga. Misturar os estilos seria um tolice, até porque uma das maiores vantagens de se escrever um livro é a fartura de oxigênio, a liberdade de viajar por territórios ilimitados.

Há diferença no processo de criação de um romance e o brainstorm para uma peça publicitária?

Diferença gigantesca. O trabalho publicitário é plural, feito por encomenda e com formatos delimitados. A gente fala em nome de um cliente aquilo que precisa ser dito para que o cliente atinja seus objetivos. A ideia é gerada no meio de um turbilhão de opiniões, revirada e muitas vezes estragada por pesquisas, avaliada por pessoas cujos critérios nem sempre são coincidentes com os nossos, e chega, ao final do bombardeio, geralmente mutilada ou despedaçada. O romance é o oposto: um trabalho 100% do autor. Desde a primeira linha até o ponto final, tudo está inteiramente sob nosso controle. Anúncios são limitados por centimetragem, comerciais de TV e rádio por segundagem. Livros só acabam quando a história acaba, não importa quantas páginas tenham que ser escritas, nem quanto tempo seja necessário para escrevê-las.

No livro, existe um personagem que trabalha com criação em uma grande agência publicitária. São experiências pessoais que você transportou para o romance?

Não há transposição de fatos. Tudo o que acontece no livro é ficcional. Mas, como ocorre com todos os autores, a matéria-prima do que escrevemos são nossas vivências, sejam elas diretamente experimentadas, lidas, assistidas ou conversadas.

No livro, você cita alguns escritores, como Graciliano Ramos e Gabriel García Márquez. São duas influências?

São dois autores importantíssimos, cujas obras me impactaram, quando as li. E é claro que, de alguma forma, me influenciaram, assim como vários outros autores que degustei pela vida afora e enriqueceram meu repertório de referências. Mas tenho de destacar, especialmente, dois autores: Machado de Assis e o português José Saramago.

Você pretende se dedicar a outros livros de ficção?

Já estou trabalhando no terceiro livro. A experiência tem sido muito gratificante. Só posso dizer que é um outro romance, e com outra estrutura narrativa.

O atirador de ideias

Adilson Xavier.

Best Seller.

256 páginas R$ 24,90