Com o perdão de Azevedo

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Fazia algum tempo que ele mirava uma promoção na repartição pública na qual batia ponto. Maranhense radicado no Rio, olhava com admiração para o chefe. Mal sabia que este alimentava uma inveja ainda maior: escrever tão bem teatro como o subalterno. Colegas de trabalho, Artur Azevedo (o subalterno) e Machado de Assis (o chefe) circularam pelas mesmas esquinas, dentro do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, ou da Academia Brasileira de Letras instituição que ajudaram a criar. Mas era no teatro que a caneta de Azevedo construía as linhas capazes de fazer corar o maior escritor brasileiro.

O Artur era um empregado de dar inveja brinca o diretor Almir Telles, que remonta O mambembe a partir desta quinta. Machado o admirava. Ele escrevia muito para teatro, muito mesmo...

Precursor da comédia e dos musicais no país, O mambembe poderá ser revisto no Sesc Ginástico 96 anos após a montagem original e cinco décadas depois da célebre encenação capitaneada por Gianni Ratto com o Teatro dos Sete, em 1959. A direção de Almir Telles conduz uma viagem no tempo, e remonta os primórdios do teatro brasileiro do início do século 20.

O texto é um passeio pela precariedade do teatro da época, e é atravessado pelo sonho do Artur de criar um teatro que pudesse abrigar grandes espetáculos opina Telles. O que veio a ser o Municipal, onde a peça foi encenada em 1959.

Gravitando entre a aspirante a atriz Laudelina (Fernanda Thuran), o empresário da companhia Mambembe, Frazão (Marcos Breda); e o coronel mecenas Pantaleão (Xando Graça), que financia as despesas do grupo com o intuito de conquistar a jovem; o texto cunhado por Azevedo é umas das primeiras incursões do teatro para dentro de seu próprio núcleo: a criação teatral. E é essa uma das causas do permanente fascínio e da conexão imediata de jovens atores e artistas com a obra.

Em pleno século 19, ele era um homem do teatro brasileiro. Vivíamos impregnados pela cultura francesa, e ele, a partir de O mambembe, começou a dar uma cara nacional ao que era feito aqui explica Telles. A história é uma grande homenagem ao teatro, às pessoas que vivem de arte. E é por isso que os jovens atores se conectam imediatamente. Artur se dedicou inteiramente ao que fez, e isso sempre me fascinou. Acho que todos os atores e diretores da minha geração foram afetados por ele.

Para a nova montagem, Telles contou com um trunfo precioso: as partituras originais, que estavam perdidas e foram recuperadas com ajuda de Fernanda Montenegro. Com o material em mãos, ela presenteou o diretor com uma gravação da histórica montagem de 1959. Sob os cuidados do diretor musical Alexandre Elias, a fita serve para que as nuances tratadas por Azevedo e pelo compositor Assis Pacheco permaneçam intactas no palco do Sesc.

O mambembe mostra que temos um teatro musical brasileiro, e revela o quanto ele é rico. Nessas partituras, encontrei uma linguagem musical nossa, que precisa ser valorizada ressalta Elias.

Amparado por piano, clarone, clarinete e percussão, o diretor musical seguiu à risca os traços marcados por Pacheco em 1904; e ainda trabalhou em quatro novas faixas, cujas letras, assinadas por Telles, foram inspiradas no texto original da peça.

O que me impressiona é a teatralidade das partituras. São músicas criadas especialmente para o teatro. O compromisso e a intimidade do compositor com a linguagem são muito nítidos. É diferente de uma canção que é incorporada numa peça. Cada mudança de compasso e no tom acompanham o colorido das cenas.

Montenegro, Rossi e Britto

Ator da montagem de 1959, Ítalo Rossi não deixa de salientar a importância da nova encenação, destacando a autenticidade conferida pelas partituras.

São fundamentais. Sem elas (partituras) ficaria difícil destaca. Aquela noite (de 1959) é até hoje lembrada por todas as gerações, e não à toa. Eu, Fernanda (Montenegro) e Sergio (Britto) éramos atores que estavam se formando, assim como os personagens da peça, que representam os viajantes da arte desse país.

Rossi não deixa de destacar o trecho que mais o marca:

Num momento, Laudelina diz: 'O Brasil é lindo'. E Frazão responde: 'Só lhe falta um teatro'. Aquilo foi muito importante. Vínhamos do TBC e entramos num Municipal lotado, absolutamente aos gritos de alegria no fim da apresentação. É um dos maiores presentes da minha vida.

Telles não chegou a presenciar o assombro da montagem de Gianni Ratto, mas garante que o rastro de sua influência é o que impulsiona sua nova empreitada.

Aquilo deve ter sido uma festa invejável, sinto muito que eu tenha perdido lamenta. Agora, estamos amparados com o material colhido na fonte: uma riqueza. Só espero que o Artur me perdoe em ter que apresentar o texto em, no máximo, duas horas. São outros tempos.