Tempo Festival recoloca a cidade no roteiro internacional de peças

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O Tempo Festival das Artes, que se encerra neste domingo, repõe o Rio no circuito dos festivais de teatro, e ameniza a exclusão da cidade do roteiro internacional. Em mais de três dezenas de manifestações de montagens a performances, de vídeos a ocupações, de processos a instalações o evento procura captar, em estágios contrastados de criação, a complexidade e a efemeridade, a impermanência e a volatilidade da cena contemporânea, relacionando momentos e linguagens.

O programa ressalta o teatro chileno, com o autor e diretor Guillermo Calderón apresentando Neva, sobre a função da arte na Rússia do início do século 20. Com uma atmosfera de peça de Tchecov, trata, metaforicamente, da serventia da arte num mundo socialmente injusto. O trio de atores ressoa os distúrbios do mundo exterior. Aguçando conflitos e dúvidas, contracenam com tensões e a ausência de perspectivas próximas às que assaltam as criaturas tchecovianas. Em camadas dramáticas, em que a apreensão da chave autoral vai se delineando ao longo da narrativa, se desvendam semelhanças, quebram-se convenções naturalistas e manipula-se o inesperado. O derramamento dos sentimentos e a imobilidade que paralisam os desejos dos personagens de Tchecov se reproduzem nos três atores, engessados pela falta de força para afirmar suas vontades. O humor, em alternância com o drama; e a mentira do teatro, em contraste com a verdade humana, se misturam. E assim revisam a desalentada visão do autor russo, que emerge no palco com o vigor refrescante do riso e a crueza das emoções, num ajuste de contas cênico com a arte e a vida.

Também do Chile, Comida alemã é uma contundente peça curta do austríaco Thomas Bernhard. Falada em alemão, quebra com virulência a gestação/manutenção do ovo da serpente nazista. Num porão asfixiante, um coral de jovens ensaia repertório de música romântica, de Schubert, em recitais para visitas ilustres , leia-se oficialidade nazista. Na refeição entre os ensaios é servida sopa com doses de anestesiantes, engrossada com massa feita com os mesmos ingredientes da tensão que se forma, dentro e fora do restrito cômodo. O entorpecimento que a alimentação, individual e política, provoca nos jovens, gera crescentes reações, que desencadeiam rejeições físicas e atos transgressores. Com niilismo e iconoclastia, Bernhard usa a comida, tratada como impulso de devorar a realidade e de eliminar a indigestão; e a música, como evocação de poemas de Goethe e amores contrariados, em irônico paralelismo.

Entre os espetáculos brasileiros, Arrufos, do grupo XIX (SP), percorre manifestações amorosas. Em arquitetura cenográfica, que procura integração entre palco e platéia, Arrufos reúne histórias de amor do século 19 até os dias atuais. Utilizando técnicas de envolvimento, o grupo se despe e veste com os tecidos que até então compunham o cenário, pede ao público que invente histórias e se misture na atuação. Habilidosa e maneirista, a montagem tem alguns bons momentos, em especial na capacidade do elenco em se desdobrar nos improvisos e na sustentação dos oscilantes climas cênicos. Mas os efeitos se transformam, pelo abuso e excesso, em truques seriados, e ainda que possam divertir, aqui e ali, acabam por se esgotar no perceptível encantamento do diretor Luiz Fernando Marques e do elenco com o processo de criação do espetáculo.

Também de São Paulo, a Companhia Club Noir, dirigida pelo carioca Roberto Alvim, traz Comunicação a uma academia, texto de Franz Kafka, que pode ser visto hoje no Espaço Cutural Sérgio Porto. Juliana Galdino desenvolve com presença forte, modulação vocal poderosa e inteligência interpretativa, a figura de um símio que se torna racional para demonstrar a animalidade humana. A comunicação que faz a plenário de inteligências expõe o processo a que foi submetido, desde a sua caça na selva até a domesticação. Fenômeno de feira, tangencia o caráter humano da animalidade, e as prerrogativas da irracionalidade animal. A interpretação de Juliana Galdino, em que pese o depuramento técnico, se desconstrói pela composição excessiva. A atriz deixa escapar a contundência do texto em favor da superficialidade da imagem. Como a direção cria blackouts desnecessários, trilha sonora densa e atmosfera sombria, em oposição ao ambiente protocolar do auditório de uma academia (a plateia), as ênfases e a caracterização parecem ainda mais postiças, esmaecendo a força do texto.