O escritor David Shields lança manifesto contra o romance convencional

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O romance está morto. Aquilo que atualmente chamamos de ficção não seria mais do que o resquício passadista de um formato anacrônico, que já não conseguiria traduzir a complexidade do século 21. A tese ousada é defendida pelo escritor americano David Shields, em um manifesto que vem sacudindo as estruturas literárias. Recém lançado nos Estados Unidos (e sem previsão para chegar ao Brasil), Reality hunger: a manifesto, novo livro do ensaísta, é, nas palavras de seus editores, um apelo para repensar nossa noção de verdade, licença literária, citação e apropriação .

Em tom nervoso e exaltado como recomenda todo bom manifesto Shields, 52 anos, celebrado por best-sellers como The Thing about life is that one day You'll be dead, diz que os livros de seus colegas e os seus próprios estão o entediando. Sem paciência para a produção de enredos inventados e personagens inventados , conclama seus contemporâneos a saírem da acomodação para repensar uma nova forma de fazer literatura, que ele chama de antirromance .

Eu acredito que todas os truques do romance convencional, baseado em uma trama definida, não são mais congruentes com a realidade de 2010 avalia Shields, em entrevista ao Jornal do Brasil. Coerência com a narrativa implica que a vida faz sentido e Deus está no Céu. As medidas glaciais da maioria dos romances não têm nada a ver com as medidas da existência contemporânea. Ficam concluindo que o lugar em que vivemos ainda importa, quando, na verdade, importa cada vez menos. Evocar personagens e explorar as mesmas coisas de sempre é ignorar que tudo o que acontece com a gente é fruto do nosso DNA. Não interessa se a nossa mãe foi ou não maldosa conosco quando tínhamos nove anos.

Reality hunger faz uma colagem de aforismos e digressões de terceiros que, juntos, tentam derrubar os velhos modelos literários. Para Shields, é nas narrativas que trazem um pé firme na realidade, como o ensaio, a reportagem e os relatos memorialísticos, que o século 21 estaria melhor representado.

Samuel Johnson dizia que um livro deve nos permitir escapar da existência ou nos ensinar a suportá-la cita Shields. Eu dou mais valor ao que coloca à frente e ao centro a questão de como o escritor lidou com a existência. Estamos existencialmente sozinhos no planeta. Eu não posso saber o que você está pensando ou sentindo e você não pode saber o que eu estou pensando e sentido. O ensaio é uma ponte construída sobre o abismo da solidão humana.

Apesar do mercado da ficção continuar vendendo milhões de livros (tendo no topo da lista best-sellerss, de Harry Potter a Código da Vinci, extremamente formulaico), Shields reafirma que nossos laços com a realidade nunca foram tão estreitos. O público estaria, segundo ele, cada vez mais desejoso de uma mistura indefinida de ficção e verdade uma espécie de concretude . E a tal fome de realidade não se limitaria apenas à literatura, mas a toda uma cultura externa, como o fenômeno dos reality-shows, e todo o caldeirão de imagens reais disseminadas nos telejornais e no YouTube.

Queremos uma membrana fina, a mais fina possível, separando escritor e leitor, ficção e realidade sustenta o autor. Walter Benjamin disse que todas as grandes obras de literatura ou inventam um gênero ou o dissolve. E todas obras de literatura que amo fazem isso, de Moby Dick a W.G. Sebald. Elas são, na verdade, reality shows com cérebro.

Shields cita o exemplo do traumático sangue jorrado por John F. Kennedy em rede nacional: Nos últimos 50 anos, o que teria causado mais impacto do que as imagens em super-8 do assassinato de Kennedy? , indaga ao leitor. Se quisesse, o ensaísta poderia ir até mais longe: o que trouxe mais traumas ao imaginário ocidental do que as imagens do ossário de Auschwitz? E os vídeos amadores do 11 de setembro?

Copiando ele mesmo o material de terceiros, Shields faz uma apologia em favor do que ele chama arte da apropriação na literatura contemporânea. No livro, cita autores como Ralph Waldo Emerson, que dizia O gênio empresta com nobreza , para moldar as bases de uma literatura capaz de se autoengendrar. Mais ou menos como acontece com as bricolages de Jean-Luc Godard e Chris Marker, especialistas em montar novos filmes a partir de imagens de outros sem pedir permissão, assim como a cultura do remix e do mashup popularizada pelos DJs. Roubamos o beat de alguém e depois, apenas com o toca-discos e a boca, mixamos e bagunçamos tudo de acordo com o que sentimos no momento , escreve.

E qual seria o lugar dos direitos autorais no pensamento do autor? No momento em que a jovem alemã Helene Hegemann (ver página 6) causa polêmica ao ser premiada por um romance assumidamente plagiado, Shields afirma que as leis estão defasadas. Acredita que elas podem até proteger a propriedade criativa dos escritores , mas acaba obstruindo a evolução natural da criatividade humana .

A quem pertencem as palavras? , dispara Shields aos leitores. A quem pertencem a música e o resto da cultura? A nós todos nós embora nem todos nós o saibamos. A realidade não pode ter copyright .