Não existe originalidade, só autenticidade, diz escritora alemã

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Depois de estrear de forma arrasadora com Axolotl roadkill, relato sobre sexo casual e uso de entorpecentes nas casas noturnas de Berlim, a jovem Helene Hegemann se viu no centro de uma polêmica. O elogiado livro foi acusado de plágio por uma blogueira chamada Airen, que reconheceu em Axolotl roadkill passagens inteiras publicadas anteriormente em seu site. Mesmo assim, continuou no topo da lista dos mais vendidos em seu país e ainda se classificou como um dos finalistas da Feira do Livro de Leipzig. A organização do evento justificou a escolha, dizendo que o plágio era legítimo e que fazia parte do conceito do livro . Já Helene, de apenas 17 anos, defendeu-se afirmando que sua narrativa encaixa-se dentro da proposta contemporânea da remixagem e da reapropriação. E disparou: Não existe originalidade, apenas autenticidade .

O caso é mais um exemplo da confusão crescente em relação aos conceitos de originalidade e cópia. Não por acaso, David Shields dedicou-lhes um ensaio. O ensaísta defende Helene relembrando Shakespeare, que teria chupado de outros pelo menos dois terços de Henrique V sem, obviamente, citar as fontes.

Ela e outros escritores de mente aberta estão inundados na apropriação consciente, autoconsciente e conspícua porque querem retomar a liberdade concedida aos escritores de Montaigne a Burroughs.

Para o autor e professor da UERJ Flávio Carneiro, a questão da autoria está longe de ser um tema novo.

O primeiro romance moderno, o Quixote, de Cervantes, já colocava em cena a questão da autoria lembra Carneiro Todo escritor é antes de tudo um leitor e carrega suas leituras para aquilo que escreve. A noção de autoria vem sendo redefinida desde que foi criada... Quer dizer, é uma questão que atravessa os séculos, como a própria questão do que é ou não literatura. E a minha posição quanto a isso é a de que há uma diferença clara entre a reescrita criativa e o plágio.

Carneiro acredita que o plágio deve ser uma confissão de incompetência do escritor. Nada tem a ver com originalidade e tampouco com autenticidade.

A reescrita criativa, inventiva, pelo contrário, deixa claro que o escritor soube não apenas escrever bem sua história mas, antes disso, soube ler bem o original afirma. Aí sim, nesse caso, pode-se falar em originalidade.