...E a Nouvelle Vague rachou

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um dos momentos centrais da Nouvelle Vague ocorre em maio de 1968, durante a edição do Festival de Cannes. Em solidariedade aos estudantes e operários que tomavam as ruas de Paris para protestar, os (então) amigos François Truffaut e Jean-Luc Godard, figuras-chaves do movimento, decidem encerrar o evento em meio a uma reunião acalorada com os demais cineastas e técnicos presentes. Embora as imagens de arquivo mostrem uma aparente sintonia, pequenas rachaduras podem ser vislumbradas nos gestos opostos dos dois diretores. Visivelmente alterado, Godard assume uma postura teatral, grita que não é momento de falar sobre cinema, mas sim de política ( Eu estou falando sobre solidariedade aos estudantes e operários e vocês me vêm com essa conversa de travelling e planos gerais! ), enquanto, no mesmo instante, um Truffaut muito mais contido parece responder ao colega com um sorriso discreto, vagamente irônico.

As imagens foram resgatadas pelo documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, de Emmanuel Laurent, que estreia nesta sexta-feira no Rio, buscando as origens do racha súbito entre os parceiros, que nos primeiros anos de movimento tinham se apoiado mutuamente na carreira, com amizade e admiração. A partir dos eventos de maio 68, porém, ambos seguiram caminhos opostos: Godard deu uma guinada radical rumo à politização extrema de seus filmes, acusando Truffaut ( morto em 1984) de ter se vendido ao establishment e traído estética e filosoficamente o espírito do movimento.

Seres de cinema

Truffaut, que teve uma infância e adolescência pobre, nunca entendeu a transformação súbita de Godard, que até então era um homem de direita, vindo de uma família burguesa explica Emmanuel Laurent, em entrevista ao Caderno B. Godard virou maoísta da noite para o dia, o que na época se chamava de mao-spontex. Por sua origem, Truffaut não fantasiava com as classes operárias, e via certa falsidade nas atitudes de Godard.

Apoiado numa pesquisa de Antoine de Baecque, ex-crítico da revista Cahiers du cinéma , Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (versão esdrúxula do título original Deux de la vague, literalmente Dois da onda ), desvia com cuidado dos aspectos mais sensacionalistas da disputa, preferindo usar as rixas entre os diretores para contextualizar os ideais da nouvelle vague, além de fazer um belo retrato de uma certa juventude cinéfila da época, que vivia a sétima arte com paixão intensa, transformando-se em seres de cinema .

Laurent e Baecque mostram como os cineastas novatos do movimento foram educados pelas sessões da Cinemathèque de Paris, onde viam e reviam, sem auxílio de legendas, clássicos estrangeiros. A prática levou ao que Henri Langlois (ex-diretor da Cinemathèque) definia como a educação do olhar : tentando entender os filmes através das imagens, deram mais valor à mise-en-scène do que ao roteiro e aos diálogos, indo na contramão ao cinema de qualidade que se produzia na França. Daí a defesa apaixonada que a Nouvelle Vague fazia do cinema como uma arte visual.

Além de Godard e Truffaut, toda a efervescência artística dos anos 60 e 70 ganha vida no documentário. Neste ponto, o ator Jean-Pierre Léaud, descoberto ainda adolescente por Truffaut no primeiro longa do cineasta, surge como o verdadeiro protagonista de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague. Léaud, que começou a carreira no papel de Antoine Doinel, uma espécie de alter ego de Truffaut, acabará dividido entre este último e Godard. Os dois diretores disputarão seus serviços como se brigassem por um herdeiro do movimento.

Léaud é o filho e a cara da Nouvelle Vague sustenta Laurent. Com Truffaut ele foi quase sempre o Doinel, ou seja, uma criança adulta. Mas com Godard ele pode crescer, fazer outras coisas. É engraçado que quando Godard o escolhe para protagonizar Masculin féminin ele o filma como Antoine Doinel. Talvez isso mostre um pouco como Godard sempre esteve indo na continuação de Truffaut, retomando coisas que ele fazia. Acossado foi feito a partir de um argumento de Truffaut e Uma mulher é uma mulher realizado logo depois de Jules e Jim, que também é sobre um triângulo amoroso... Isso não é um demérito para Godard, não o diminui artisticamente. Mas é um fato que aumenta ainda mais o interesse dramático na relação entre os dois.

O documentário foi, junto com uma recente biografia de Godard escrita pelo roteirista Antoine De Baecque, o primeiro a revelar a vida privada do cineasta franco-suíço. Fornecidas por sua família, fotos de sua infância mostram o futuro maoísta num ambiente burguês. Em uma entrevista para a revista Les inrockuptibles, o diretor manifestou seu descontentamento com o longa e com a biografia que DeBaecaque: Incomoda-me que membros da minha família forneçam documentos. Isso não se faz .

Ele falou isso para a Les inrocks? Eu não sabia. Você pode me passar o link da entrevista depois? surpreende-se Laurent. Godard é um homem fechado, que ocultou todo o seu passado. É uma pessoa nervosa, que cria atritos com as pessoas e muda de ideia como se muda de camisa. De qualquer maneira, não esperávamos uma reação positiva dele. Admiro o cinema de Godard tanto quanto o de Truffaut. Ele me ensinou muitas coisas em termos de montagem, mas não costumo levar a sério as suas declarações.