A ilegalidade em dois tempos

Carlos Heli de Almeida, Jornal do Brasil

CANNES - Há brigas que vêm para fazer o bem. Biutiful, o primeiro longa-metragem de Alejandro Gonazález Iñárritu desde o rompimento com o roteirista Guillermo Arriaga, teve um efeito devastador na plateia da 63ª Festival de Cannes, pulando a dianteira na briga pela Palma de Ouro. Descolado das amarras da parceria com Arriaga, que rendera sucessos de estrutura rebuscada, como Amores brutos (2000) e Babel (2006), o diretor mexicano realiza um poderoso drama linear sobre um pai de uma família desfeita que recorre a atividades ilegais para tentar garantir a segurança dos dois filhos pequenos antes de perder a batalha para um câncer.

Ao contrário dos trabalhos anteriores do realizador, de narrativas e cenários múltiplos, Biutiful foca a atenção sobre um protagonista e um único cenário, a cidade de Barcelona. Não a Barcelona cartão-postal, que um preguiçoso Woody Allen mostrou em Vicky Cristina Barcelona (2008), mas a dos bairros populosos, onde o serviço de energia elétrica é irregular e a mão de obra barata vem de imigrantes ilegais chineses e africanos (embora o espanhol seja a língua principal, o filme tem também diálogos em mandarim e senegalês).

Figura intensa

É em endereços longes das esculturas de Gaudi que circula Uxbal (Javier Bardem), um intermediário no comércio de bolsas pirateadas.

Estava tão cansado de viajar pelo mundo por causa de Babel que prometi a mim mesmo que meu próximo projeto seria menos complicado. Dessa vez, quis mergulhar no rigor que uma trama linear exige de nós, contadores de histórias. Mas Biutiful acabou se tornando um filme tão difícil de fazer quanto os anteriores contou o diretor de 46 anos, ganhador do prêmio de direção no festival de 2006 por Babel, durante a coletiva de imprensa que se seguiu à sessão. É tudo o que eu não estava acostumado a fazer antes, mas fala sobre as obsessões que sempre me perseguiram, como a ideia da morte, a interseção de existências, vidas globalizadas...

Desde já sério candidato ao prêmio de melhor interpretação masculina, Bardem parece carregar nos ombros o peso do seu personagem, um sujeito que, apesar da condenação à morte, tenta ao mesmo tempo proteger os filhos da ex-mulher bipolar e defender os imigrantes que explora dos excessos de seus feitores. Órfão de pai e mãe desde muito cedo, Uxbal é um sensitivo: ganha um dinheirinho extra comunicando-se com mortos recentes.

Uxbal é uma figura intensa, um homem que guarda seus sentimentos para si mesmo explicou o ator. Meu trabalho foi mostrar que o personagem conhece as consequências do que faz, sabe que lida a exploração humana. Ele não quer perder seu lado amoroso, que é seu último sopro de sanidade. Mas a vida continua empurrado-o para o sentido oposto.

O furacão de emoções de Iñárritu nocauteou a presença do outro concorrente do dia, Outrage, de Takeshi Kitano. A produção marca o retorno do diretor japonês ao filão que o consagrou, o filme de mafiosos, cujo último exemplar é Brothers (2000). Desta vez, descreve uma guerra de poder dentro da yakuza, a máfia japonesa. Confuso, deliberadamente exagerado, violentíssimo e bem-humorado, o filme não acrescente nada ao gênero, ao universo e ao estilo do autor. Pelo menos ele parece divertir-se zombando de diferentes gerações de famílias do crime organizado japonês, que já o perseguiram no passado.

Não acho que a yakuza seja uma atividade do passado. De qualquer forma, ouvi dizer que eles ainda existem no Japão ironizou Kitano, arrancando gargalhadas da plateia de jornalistas. Os métodos deles mudaram, estão muito ativos dentro do mercado financeiro. Mas eu não sei muito sobre isso, então só posso falar sobre eles de forma genérica. Há uma forte hierarquia entre os membros mais velhos e os mais jovens, por exemplo. Uma novidade é que, para se tornar integrante de uma dessas famílias, você tem que cortar um dos dedos em honra deles.