Detenção de cineasta põe liberdade de expressão no centro de Cannes

Agência AFP

PARIS - A detenção do cineasta iraniano Jafar Panahi, de quem a França pediu a libertação nesta quarta-feira, colocou a liberdade de criação no centro do 63º Festival de Cannes já na sua abertura.

"Lutamos pela liberdade de criação todos os dias durante toda a nossa vida. Ele deve ser libertado logo", declarou o cineasta americano Tim Burton, presidente do júri 2010, ouvido pela AFP.

Panahi, de 49 anos, é conhecido pela corajosa crítica social de seus filmes, tais como "O Círculo", que lhe rendeu o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 2000 "Ouro Carmim" e "Fora do Jogo", ganhador, em 2006, do Urso de Prata do Festival de Berlim.

Em fevereiro passado, as autoridades proibiram Panahi de deixar o país para participar do Festival de Berlim.

Ele havia sido convidado para se somar ao júri de Cannes 2010; mas está preso em Teerã assim como um outro cineasta, Mohammad Ali Shirzadi.

O diretor de cinema premiado havia sido detido, em março, porque, segundo o ministério da Cultura e Orientação Islâmica, estava fazendo um filme contra o regime.

No entanto, a esposa de Panahi, Tahereh Saeedi negou, em entrevista à AFP, que seu marido estivesse participando de produção contrarrevolucionária sobre eventos pós-eleitorais, em referência às manifestações que se seguiram à reeleição contestada do presidente Ahmadinejad em junho de 2009.

"O filme estava sendo rodado dentro de casa e não tinha nada a ver com o regime", disse Saeedi na ocasião.

Simpatizante do movimento oposicionista, Panahi foi preso depois que forças de segurança fizeram uma incursão em sua casa, em Teerã, em 1º de março.

Cinquenta cineastas e artistas iranianos assinaram uma carta, em meados daquele mês, instando as autoridades a libertá-lo.

A França, através dos ministros Bernard Kouchner (Relações Exteriores) e Frédéric Mitterrand (Cultura), pediu nesta quarta-feira sua "libertação imediata", assim como havia feito a Anistia Internacional na véspera.

"Jafar Panahi contribuiu para a descoberta do cinema iraniano em Cannes. Os participantes do festival devem todos expressar indignação, mostrar sua foto", declarou à AFP um representante do cinema independente iraniano ouvido por telefone a partir de Cannes e que preferiu não ter o nome divulgado.

"Só as palavras não bastam. As autoridades francesas não devem expedir vistos a autoridades iranianas que deveriam ser boicotadas", acrescentou.

"Se quisermos fazer qualquer coisa por Jafar Panahi, é preciso falar de todos os outros presos políticos no Irã que são menos conhecidos", estimou um outro representante do cinema independente iraniano.

Jafar Panahi recebeu o apoio de cineastas francesas e de grandes figuras de Hollywood, entre elas, de Steven Spielberg e Martin Scorsese.

"Os diretores de cinema iranianos estão confrontados a uma pressão e a uma censura cada vez mais forte", destaca uma fonte independente iraniana, afirmando "viver constantemente em meio ao medo e à autocensura".

Outro realizador iraniano que escolheu o trabalho no exílio, Abbas Kiarostami, está em disputa esta ano com o filme "Copie conforme" pela Palma de Ouro. Ele viu vários de seus filmes proibidos no Irã, entre eles "Shirin", rodado em 2008.

O festival de Cannes mostrou, com frequência, compromisso com cineastas independentes da República islâmica. O filme de Bahman Ghobadi, (iraniano de origem curda) "Chats persans" ou 'Ninguém sabe dos gatos persas' recebeu o prêmio da sessão Um certo olhar de 2009, e em 2007, o prêmio do júri havia sido concedido a "Persépolis" de Marjane Satrapi.