Cardápio econômico

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

FRANÇA - A lista de filmes em competição no 63ª Festival de Cannes, que começa nesta quarta-feira, com a projeção de Robin Hood, a releitura de Ridley Scott sobre o lendário justiceiro britânico, está mais enxuta, mas não necessariamente menos promissora. O festival está repleto de rostos familiares ao universo do cinema de autor, como Mike Leigh (Another year), Abbas Kiarostami (Copie conforme), Alejandro Gonzalez Iñárritu (Biutiful) e Takeshi Kitano (Outrage). O motivo da redução do número de concorrentes à Palma de Ouro, que caiu de uma média de 21 títulos, não é estético, e sim econômico:

A crise global, que provocou uma ligeira queda na produção de filmes, só nos afetou agora esclarece Thierry Frémaux, diretor artístico da mostra francesa, ao anunciar os 19 concorrentes deste ano. Este é o primeiro ano em que o número de títulos inscritos não foi superior ao ano anterior. Recebemos 1.665 longas-metragens para avaliação este ano, cinco a menos do que em 2009.

A qualidade pode não ter sido afetada, mas a seleção oficial revela-se menos pop do que a do ano passado, que contou com os trabalhos mais recentes de Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar e Lars Von Trier. A presença americana na competição, que garante apelo extra à disputa, restringe-se ao thriller Fair game, de Doug Liman ( autor de blockbusters como Jumper e Sr. e Sra. Smith) protagonizado por Naomi Watts e Sean Penn. O ator, aliás, retorna à mostra depois de ter servido como presidente do júri no ano passado.

Brasil fora do páreo principal

Grande parte do brilho hollywoodiano está restrito à grade de atrações hors concourss. Robin Hood, que abre os trabalhos deste ano, é estrelado por Russell Crowe e Cate Blanchett, da Unversal, e chega aos cinemas do mundo dois dias depois. Em Wall Street: o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone, Michael Douglas reprisa o vilanesco executivo Gordon Gekko do filme original, ícone yuppie dos anos 80, agora dividindo a tela com Shia LaBeouf e Josh Brolin. A Fox chegou a adiar o lançamento do longa para setembro e assim garantir um lugar de destaque em Cannes. O festival também servirá de plataforma para You will meet a tall dark stranger, o novo de Woody Allen, com Naomi Watts e Antonio Banderas.

Também não será um ano muito generoso para o cinema latino-americano. Embora dirigido por um mexicano, Biutiful é uma coprodução com a Espanha, ambientada em Barcelona e protagonizada por Javier Bardem. A Argentina, que tinha vaga cativa nas últimas edições, conseguiu cravar dois lugares na mostra Um Certo Olhar: Carancho, de Pablo Trapero, que concorreu à Palma em 2008 com Leonera, e Los labios, de Santiago Loza e Ivan Fund. A seção acolhe ainda o peruano Octubre, de Diego e Daniel Vega.

O Brasil, que concorreu pela última vez com Linha de passe (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas, está fora do páreo principal, mas fará festa em várias frentes da maratona. Projeto de estimação de Cacá Digues, 5 X favela Agora por nós mesmos, longa dirigido por Luciana Bezerra, Cacau Amaral, Rodrigo Felha, Wavá Novais, Manaíra Carneiro, Cadu Barcellos e Luciano Vidigal, integra o pacote de sessões especiais do festival. Composto por cinco histórias, dirigidas por jovens de favelas cariocas, o filme retoma o conceito do original, de 1962, codirigido por Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Leon Hirszman e o próprio Diegues.

O convite coroa o trabalho e o esforço desses meninos, escolhidos a partir de oficinas que fizemos nestas comunidades comemora Diegues, convidado como membro do júri da competição de curtas do evento.

A comitiva brasileira em Cannes será reforçada pela equipe do longa A alegria, uma produção independente dirigida por Felipe Bragança e Marina Meliande, a ser exibido na seção paralela Quinzena dos Realizadores, e dos curtas A distração de Ivan , de Cavi Borges e Gustavo Melo, na programação da Semana da Crítica, Estação, de Márcia Faria, no páreo oficial, e Os minutos, as horas, de Janaína Marques Ribeiro, na mostra de filmes estundantis, a Cinefondation.

Também há um quê de Brasil na seção Cannes Classics, dedicada a filmes recuperados ou restaurados. Entre as atrações programadas para este ano está a projeção de uma cópia nova de O beijo da mulher aranha, dirigido pelo argentino (naturalizado brasileiro) Hector Babenco e estrelado pela brasileira Sônia Braga, o americano William Hurt e o porto-riquenho Raul Julia (1940-1994). Babenco e Sônia são presenças confirmadas na exibição, que marca os 25 anos em que o filme deu a Hurt o Oscar de Melhor Ator.