Moacyr Luz destaca compositores esquecidos no CD 'Eternos guardiões'

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - O gingado afiado, a estirpe elegante, os versos cortados à moda antiga e o entoar clássico de menestrel. Requisitos dos mestres do samba, que ressoam sem esforço das vozes de David do Pandeiro, Dauro do Salgueiro, Jonas da Vila, Walter Peçanha e Zé Catimba. Frutos genuínos da ala de compositores das agremiações mais tradicionais da cidade Portela, Salgueiro, Vila Isabel, Mangueira e Imperatriz, respectivamente dedicaram a vida ao brasão das escolas. Ícones das velhas guardas, finalmente saem dos bastidores, a bordo do disco Eternos guardiões (Biscoito Fino). Idealizado por Moacyr Luz, o CD revela pérolas de autores desconhecidos do grande público, mas fundamentais mantenedores da tradição musical do Carnaval.

Sempre acreditei na ideia de jogar luz no que é antigo para poder compreender melhor o novo. Produzi dois discos do Guilherme de Brito, um do Casquinha e diversos outros envolvendo compositores da velha guarda enumera Moacyr Luz. Já cometi a loucura de disputar sambas-enredo na Mangueira e integrei a ala de compositores da Vila Isabel depois de um convite do Martinho. Sempre estive por perto, acompanhando o trabalho desses compositores. O convívio com eles me fez pensar: Será que esses caras não compõem nada pelo resto do ano? .

A razão do anonimato

Em busca da resposta, Luz traz à tona lamentos de tantos compositores desconhecidos. Tenho uma porção de canções, mas ninguém quer ouvir , confessou, certa vez, um desalentado Dauro do Salgueiro, dono da mais bela assinatura do balaio, Saideira. Dono de um timbre raro, o salgueirense é frequentador assíduo do Samba do Trabalhador, reunião pilotada por Luz às segundas no Clube Renascença, no Andaraí. Ao avistar o compositor, sempre aprumado com a camisa da escola e um impecável chapéu de aba curta, não titubeou: Um homem com esse andar deve ter samba guardado na cartola , imaginou.

Eles sempre estiveram enraizados com os acontecimentos diários das escolas e envolvidos na disputa de sambas enredo. Não se dedicaram aos sambas de meio de ano... Talvez por isso não tenham se tornado mais conhecidos teoriza Luz.

Além da falta de interesse, a timidez dos próprios compositores contribuiu para a quase ausência de seus versos em álbuns. E para quem pensa que a humildade se traveste em puro charme, Luz prova o contrário.

O projeto contava com outro compositor, mas ele desistiu em cima da hora. No dia em que chegou ao estúdio falou que não ia gravar, ficou assustado lembra o idealizador do álbum.

David do Pandeiro foi um dos que superou o estranhamento com o microfone. Acostumado a batucar seu instrumento de percussão na Velha Guarda da Portela, ele faz questão de se apresentar aos segundos finais de Tradicional balança, canção de sua lavra escolhida para abrir o trabalho: Meu nome é David do Pandeiro. Sou integrante da Velha Guarda show da Portela: 75 anos de idade, 60 anos de ritmo e arte , arremata, orgulhoso.

Há outros motivos, contudo, que impossibilitaram tais compositores de alçarem voos mais ambiciosos. Dedicados à disputa de sambas enredo, mesmo quando sagravam-se vencedores percebiam, meses depois, que os versos que levantavam as arquibancadas da Sapucaí não lhes garantiam maior assédio ou prestígio. Jonas da Vila é o exemplo a corroborar a tese alinhavada por Luz. Autor do clássico Kizomba, assinado em parceria com Luiz Carlos da Vila e Rodolfo, e considerado um dos mais belos sambas da história; o compositor nunca teve seu baú vasculhado por produtores ou artistas até então.

Samba enredo dá prestígio para a escola, não para os compositores frisa Luz. As pessoas não prestam muita atenção nos autores, mesmo nos ganhadores. Imagina então aqueles que não passam da seletiva na quadra. Muita gente boa fica no meio do caminho.

Mangueirense fiel, Walter Peçanha aproveita a oportunidade e canta como se o famoso Buraco Quente ainda fervilhasse. A voz bruta confere a seus registros uma pureza de outros tempos, mas que ganha refino sob a produção certeira de Paulão 7 Cordas.

Gravamos sem recursos de afinação. Não queríamos modificar as vozes recorda Luz. Respeitamos o instinto, a carga orgânica dos autores. São como os registros do Candeia. Tem uma poesia a mais.