Do sangue à água

André Duchiade, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A série mais recente de Adriana Varejão, Pratos, tem temáticas muito distintas em comparação com a produção da artista nos últimos anos.

Inspirada pelas louças do português Bordalo Pinheiro, morto em 1905, as obras, em sua maioria, mostram figuras lânguidas e retorcidas ao lado de animais e vegetais em cenários misteriosos como o fundo do mar. As pinturas, que serão expostas em Londres no segundo semestre, são realizadas sobre grandes telas circulares de fibra de vidro e resina, trabalhadas frente e verso, e não remetem num primeiro momento às obras dilaceradas e representando sangue que a consagraram:

Essa série tem a ver com meus trabalhos dos primeiros anos de arte. São menos baseados em paródias e mais em cima de narrativas que invento define Adriana.

Obras da série estão nas primeiras páginas do livro Adriana Varejão Entre carnes e mares, coletânea da artista plástica carioca que será lançada no Rio na próxima terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

Publicado pela editora Cobogó, o livro é o mais importante registro já lançado sobre a obra de Adriana, com mais de 170 reproduções de suas pinturas, fotografias e instalações e ensaios disponíveis em português e inglês de autores como Silviano Santiago, Lilia Moritz Schwarcz e Karl Erick Schøllhammer.

O livro abarca os mais de 20 anos de carreira da artista carioca nascida em 1964, que tem obras mas coleções dos museus Guggenheim, em Nova York, do Stelekijk, em Amsterdam, e da Fundação Cartier, em Paris. As imagens e os textos não são organizados numa simples linha do tempo, mas a partir de aproximações temáticas com o objetivo de construir uma narrativa entre si.

O título refere-se a duas imagens recorrentes na carreira de Varejão. Em comum entre elas, as raízes barrocas:

Há vários tipos de barroco na minha obra. Num primeiro momento, aproprio-me da iconografia religiosa. Depois, a exposição Terra incógnita cria ficção, e, em seguida, tem ideia de transbordamento do corpo, carnes surgem de maneira superlativa explica a artista.

Os mares se inscrevem nesta linha:

O barroco é um estilo que vem das navegações. Meu trabalho fala de uma história que se dá muito no mar, nas trocas comerciais, inspirado nessa época de desterritorialização elabora. Já no começo da minha carreira, pintava muito mares, fui premiada em 1986 com um quadro nessa linha.

As carnes surgem na carreira de Adriana Varejão com uma constância ainda maior. Quadros de 1992 presentes no livro como Filho bastardo e Filho bastardo II cujas formas ovais derivam dos painéis pintados por Leandro Joaquim para ornamentar o passeio público do Rio, num diálogo com a tradição que é uma das marcas de sua produção exibem esta tendência. No meio de representações de assuntos coloniais (escravidão, estupro) surgem grandes fendas vermelhas feitas à faca, como se as vísceras das obras fossem expostas.

Outras grandes fases da obra de Adriana também aparecem no livro com lugar privilegiado. É o caso dos azulejos, instalações com óleo sobre tela e alumínio cortados por representações de pedaços de carne dilacerada altamente detalhados. A aparente padronização destes dos azulejos e sua relação com a cultura portuguesa são postas em crise, como se por baixo da colonização pulsassem instintos viscerais. Suas Saunas também surgem de forma crítica, como lembranças de animalidade:

As saunas me interessam pela sua falsa assepsia analisa Adriana. Busco a ideia de uma presença do corpo, ali estão os vestígios, os fluidos e pelos das pessoas.

Sobre o que a motiva a tratar da carne, Adriana Varejão é direta:

Há muito tempo que se pinta a carne, era inspiração para nomes como Caravaggio e Goya. Além disso, o barroco é um estilo que expõe muito o visceral, o emblema do estilo é o sagrado. Sinto que sou dessa turma, sem querer me comparar, é claro.

Adriana Varejão Entre carnes e mares

Adriana Varejão e ensaios de Silviano Santiago, Lilia Schwarcz, Karl Erik Schøllhammer, Luiz Camillo Osorio e

Zalinda Cartaxo. Editora Cobogó. R$ 125.