Milonga eletrônica

Bernardo Costa, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Visto por muitos como uma expressão musical ligada à tradição musical argentina, o tango tem ganhado sopro novo com músicos e bandas que propõem uma revisão do estilo a partir da incorporação de elementos contemporâneos, como a música eletrônica. É o caso do grupo Narcotango, que apresenta nesta sexta-feira, no Canecão o show de lançamento de seu terceiro disco de estúdio, Limanueva.

Vamos estrear o show no Rio, antes da Argentina, pois sentimos uma conexão forte com o Brasil. Sempre ouvi Caetano, Gil, Egberto Gismonti, e percebo que há semelhanças entre a música brasileira e a argentina sublinha o bandoneonista Carlos Libedinsky, fundador do grupo. A bossa nova, por exemplo, se assemelha ao tango, na pegada rítmica forte, mesclada com um tom de melancolia.

No repertório do show, canções dos discos anteriores da banda, Narcotango (2003) e Narcotango 2 (2006) cuja versão gravada ao vivo, no ano passado, rendeu ao grupo o Grammy Latino como Melhor Álbum de Tango acrescidas de temas de Limanueva, disco em que, segundo Carlos, o grupo está mais integrado musicalmente.

Começamos a trabalhar juntos neste álbum, em termos de composição, arranjos e orquestração. Passamos a improvisar muito e desenvolvemos uma relação muito forte, potencializando a energia criativa de cada um. Agora é o momento de entregar a música ao público comenta Libedinsky, que, ao lado de Mariano Castro (piano), Marcelo Toth (guitarra) e Fernando Del Castillo (percussão), se apresenta pela terceira vez no Rio. Vamos apresentar arranjos novos para canções nossas conhecidas, como Otra Luna, Um paso mas alla e Gente que si, com temas novos, como o que dá nome ao disco. Limanueva é uma canção que tem uma mistura com a música brasileira, com referências do samba-reggae da Bahia

Carlos Libedinsky conta que a ideia de acrescentar música eletrônica ao tango tradicional surgiu enquanto participava de um festival de tango em Portugal, cuja programação contava com aulas de dança. Após participar de uma delas, o músico se deu conta de que o tango que se dançava remetia a décadas anteriores à de 50.

Foi quando senti necessidade de compor tango para dançar, mas com uma roupagem contemporânea, incorporando influências que temos hoje. Na mesma época surgiram grupos na Argentina com a mesma proposta, como o Bajofundo e o Tanghetto. É importante percebermos que essa mistura é uma tendência mundial. Ocorre com o tango, o flamenco, a bossa nova....

A primeira experimentação de Carlos ocorreu em seu disco solo Aldea global. Lançado em 2001, continha tangos tradicionais e composições próprias, com instrumentação conservadora.

Em duas músicas eu coloquei samplers e gostei do resultado. Vi isso como algo natural, pois todos vivemos hoje imersos em um mundo tecnológico, embora os puristas ainda não tenham se dado conta disso alfineta Libedinsky. Claro que existem resistências ao nosso trabalho, pois o tango é conservador por natureza, por isso encaramos as críticas de forma natural. Nossa proposta é fazer com que as novas gerações se interessem pelo tango, e o vejam como algo do presente e não do tempo de seus avós.

Interferências eletrônicas à parte, Carlos diz haver, na atual cena musical argentina, um retorno à música tradicional por parte de jovens músicos com sólida formação acadêmica.

Tenho visto grupos produzindo músicas de muita qualidade, com apurado senso técnico, propondo um regresso às raízes da música argentina, como o tango e ritmos folclóricos. Um exemplo desse movimento é a banda Aca Seca, voltada para ritmos como a murga, tipo de música carnavalesca da região do Rio da Prata. Apesar da instrumentação tradicional, esse pessoal tem uma dose de contemporaneidade nas letras, harmonias e arranjos. Outra banda que representa esse impulso é a Tata Dios, que mistura tango, folclore e música moderna.

Porém, para Carlos, o que predomina entre os jovens argentinos de hoje ainda são os ritmos estrangeiros.

Percebo isto na minha escola de música (Tademus). A maioria dos que chegam por lá quer tocar rock, blues e heavy metal. Apenas 10% se interessam por tango. Por isso, nossa ideologia na escola é ampliar ao máximo o horizonte do aluno, mostrando-lhe que há outros ritmos além daqueles ditados pelos meios de comunicação de massa.

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