Pesadelos e monstros portugueses

André Duchiade, Jornal do Brasil

RIO - A reação mais comum de quem é apresentado a Adolfo Luxúria Canibal é a de surpresa. Educado, culto e inteligente, o interlocutor não parece demonstrar traços da voracidade primitiva associada a seu nome.

As pessoas sempre se surpreendem diz rindo durante entrevista ao Jornal do Brasil por telefone, o vocalista e líder da banda de rock portuguesa Mão Morta, cujo prenome verdadeiro é Macedo.

O grupo, que completou 25 anos de formação no final de 2009, acaba de lançar Pesadelo em peluche, seu 11º álbum de inéditas. Quase desconhecido no Brasil, o grupo é uma instituição pop em Portugal, onde é tido como símbolo de autonomia e criatividade artística.

GNR, Xutos e Pontapés e Mão Morta são as três bandas de referência de Portugal - indica Canibal. Dentro desse panorama, sempre fomos vistos como uma banda alternativa. Quem não quer entrar no mainstream tem a nós como referência.

O vocalista diz desconhecer as razões da pouca ou nenhuma penetração do pop português no Brasil:

Já nos disseram que é por causa da língua, mas não tenho certeza. Temos alguns fãs no Brasil. Há uns anos, uma jornalista chamada Katia Abreu fez um livro sobre o rock português e tentou nos levar para o Brasil. O (escritor e jornalista) Alex Antunes também é um grande fã. Mas não temos planos imediatos de tocar aí, o que é uma pena.

Pós-punk no coração da Igreja

Antunes tem uma teoria:

Acho que a cultura pop portuguesa é nula no Brasil porque pop e português vão em direções opostas na cabeça brasileira. Portugal é o atavismo que queremos abandonar, pop é o mundo que queremos acessar. Com isso, perdemos muita coisa boa, porque a cultura portuguesa, quando quer ser radical, é radical mesmo.

A trajetória da banda começa em Braga, no Norte do país. Reduto tradicional da Igreja Católica, a cidade vivia nos anos 1980 uma intensa movimentação musical. O rock português tivera seu boom na virada da década anterior, com bandas como Xutos e Pontapés e Corpo Diplomático. O salazarismo ficava para trás e o punk e pós-punk mostravam que não era preciso grande técnica para fazer rock.

Em 1984, Joaquim Pinto, um dos criadores do grupo, foi a Berlim, onde assiste aos nova-iorquinos Swans, de som opressivo e soturno. O baixo do grupo americano, Harry Crosby, disse a Joaquim que ele também tinha cara de baixista, incentivando o português a montar o próprio grupo.

O Joaquim convidou a mim e ao Miguel Pedro, que na época era guitarrista. Pensávamos em nos apresentar apenas em Berlim. Fizemos alguns ensaios e os contatos na Alemanha desapareceram. Como até hoje não fomos lá para tocar, a banda continua diverte-se Canibal.

No ano seguinte, já com o nome de Mão Morta, o trio ganha a companhia do guitarrista Zé dos Eclipses, e Miguel Pedro vai para a bateria. As performances de Adolfo logo rendem elogios da crítica e, em 1986, a banda recebe o prêmio de originalidade do III Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vouz, importante espaço de divulgação do rock em Lisboa.

Em 1988 sai o álbum de estreia, intitulado simplesmente Mão Morta, de som pesado, nas palavras de Canibal uma grande massa opressora . Traz alguns dos maiores sucessos do grupo, como Oub'á, E se depois e Sitiados. Os temas das canções são aqueles que permanecem por toda a carreira: a desorientação da vida na cidade, a violência e, principalmente, o sexo:

Acho o sexo essencial ao ser humano. O homem é um ser cultural, mas na sua gênese é uma espécie animal explica o vocalista. O sexo sempre foi o grande pesadelo das sociedades, nomeadamente das religiões. Mas o sexo com prazer é o que transforma o homem em alguém capaz de se libertar das convenções e evoluir.

Nos três anos seguintes, a banda ganha diversos prêmios, muda de formação e lança mais dois álbuns. O sucesso comercial chega em 1992 com o álbum Mutantes S.21, com sonoridade próxima ao hard rock, que inclui o maior sucesso da banda, Budapeste.

Em 1997, uma guinada importante: a banda lança Müller no Hotel Hessischer Hof, espetáculo inspirado pelo poeta e teatrólogo alemão Heiner Muller, que resultaria num elogiado disco Spoken word. A despeito da proximidade temática entre as obras da banda e a de Müller (há versos como Eu sou o anjo do desespero/Das minhas mãos distribuo a embriagues, a estupefação, o esquecimento, gozo e tormento dos corpos), a obra serve para aproximar a banda de segmentos tidos como próximos da alta cultura.

Fontes diferentes

Essa aproximação é ironizada em 1998 com o disco Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, inspirado no movimento político Internacional Situacionista. A faixa de abertura afirma que o grupo Mão Morta abandonou o nicho alternativo que ocupava no mercado do entretenimento .

Os álbuns seguintes têm fontes e motivações distintas. Em 2001, já com a formação atual, com seis integrantes, o grupo lança Primavera de destroços, que tem tintas eletrônicas. Nus, de 2004, se alinha ao som progressivo e foi inspirado em Uivo, do poeta Allen Ginsberg. Maldoror, de 2008, é resultante do espetáculo teatral homônimo, baseado na obra do poeta maldito Lautréamont. Pesadelo em peluche, o novo disco, bebe de outra fonte: o livro The atrocity exhibition, de J. G. Ballard. Tem uma sonoridade similar à do rock tradicional, com canções curtas e refrões.

Como foi muito exaustivo transpor a linguagem de Maldoror para o palco, começamos a procurar um antídoto. Queríamos canções curtas, com pouco texto, enérgicas e cheias de garra. Encontramos isso em Ballard diz Canibal.

Temáticas sombrias continuam a ser tratadas de uma perspectiva inconformista.

Os livros de Ballard são sempre sobre a classe média. É ela quem, tendo um conforto cotidiano, sofre as maiores interferências da tecnologia e da cultura de massas. É lá que poderão nascer monstros internos. Pesadelo em Peluche é esse monstro que nasce subrepticamente diz.