Igor Cotrim e o diretor Marcelo Laffitte falam de 'Elvis e Madonna'

Franz Valla* especial para o Jornal do Brasil, Jornal do Brasil

NOVA YORK - Inusitada historia de amor entre um travesti e uma lésbica, Elvis e Madona comédia romântica do diretor Marcelo Laffitte, grande vencedor no Festival de Natal e sucesso na Mostra de Tiradentes estreou quinta-feira no Tribeca Film Festival. O programador-chefe do festival, David Kwok, maior admirador do filme, não poupa elogios à obra de Laffitte.

É um filme único, muito cinemático diz empolgado sobre sua seleção pessoal. Aborda um tema universal com muita originalidade. A trama se passa no Rio mas poderia ocorrer em qualquer parte do mundo, até mesmo aqui em Nova York.

A entrada do filme na lista final ocorreu em fevereiro, quando a seleção já estava quase completa. A noticia surpreendeu Laffitte, que se viu frustrado ao tentar inscrever o filme nos festivais de Sundance, Berlim e Guadalajara sem resultado. O longa chegou a Kwok através de um amigo em comum com Laffitte, na última hora, e o programador não teve dúvidas.

Convites agora não param

Decidi de imediato que precisava ter o filme no festival. Elvis e Madona foi inclusive um dos oito longas selecionados para o Tribeca Virtual diz, em referencia ao novo canal de distribuição pela internet inaugurado pelo festival.

Kwok, que chega a ver entre 400 a 500 filmes por ano, queria ter o Brasil na mostra e conta que chegou ate a ir ao Festival do Rio no ano passado em busca de novos trabalhos.

Acompanho atentamente a produção brasileira e não vejo a hora de ver o que o (José) Padilha, (Fernando) Meirelles e outros vão aprontar em 2011.

Laffitte agora se vê com várias propostas de participações em outros festivais. Na semana que vem segue para a California, onde ocorre o Los Angeles Brazilian Film Festival. Para atender a tantos compromissos, o diretor veio a Nova York acompanhado de seu astro, o ator Igor Cotrim, que interpreta o travesti Madona.

Marcelo me deu uma oportunidade única na carreira de qualquer ator. Sou muito grato conta Cotrim entusiasmado. Não tenho como expressar o quanto estou orgulhoso do meu papel.

Elvis e Madona é o primeiro longa de Laffitte. Seu primeiro flerte com o cinema foi como assistente de produção em Bete Balanço (1984). Logo a seguir foi assistente de direção de Rei do Rio, em 1985, mas foi só em 1997, após construir uma carreira de sucesso no ramo da informática, que decidiu retornar à industria e se dedicar em tempo integral. O primeiro curta produzido por ele mesmo Vox populi, rendeu o prêmio de Melhor Atriz a Maitê Proença no Festival Internacional da Bahia daquele ano.

Quando, em 2001, concebeu o roteiro de Elvis e Madona, a natureza da história não ajudou muito a interessar patrocinadores. Só em 2006, após vários concursos e tentativas frustradas de patrocínio e incentivos fiscais, conseguiu levantar cerca de R$ 1,5 milhão para fazer o filme. Mas outro fato inesperado atrasou o início das filmagens.

Queria um travesti de verdade para fazer a Madona. Pensei que iria ser fácil arranjar um, já que, por definição, o travesti é alguém que interpreta um personagem explica sua lógica. Mas estava enganado. Cheguei a encontrar um que levava jeito, mas antes das filmagens começarem ele desapareceu sem dar noticias. Depois fiquei sabendo que conheceu um italiano e foi para o Nordeste com ele...

Levou mais um ano para que o papel caísse nas mãos de Cotrim. Curioso é que Laffitte havia encarregado a então namorada do ator (hoje mulher), uma produtora, de conseguir alguém para o papel e nem ela foi capaz. Cotrim ficou sabendo da vaga de travesti mas hesitou a princípio, por achar que não levaria jeito para o papel. Mudou de ideia quando se caracterizou como o personagem.

O processo de depilação foi sacrificado. Mas logo decidi que seria o melhor travesti do mundo disse o ator.

As filmagens seguiram a passos largos até que, apenas a alguns dias de terminar, Laffitte percebeu que não havia mais dinheiro. O diretor paralisou os trabalhos e foi à luta para conseguir mais recursos e terminar o filme. Foram oito meses de ansiedade em que Cotrim lutou para manter sua caracterização intacta.

O período que ficamos parados foi desanimador recorda o diretor. Cheguei a pensar que não conseguiria terminar. Foi muito estressante.

Sob os holofotes

Laffitte agora só pensa em fazer longas. Animado com a repercussão de sua entrada no Tribeca, ele já tem três projetos. O que mais se destaca é a ideia de adaptar a tragédia grega de Medeia, ambientada em Miami. Outro projeto trata de uma famosa atriz pornô que após vários anos retorna à cidade natal (de onde foi expulsa pelo rigoroso pai) para fazer um filme.

Enquanto isso, ele e Cotrim aproveitam cada minuto dos holofotes internacionais, algo impensável há apenas dois meses. No dia que chegaram a Nova York, foram recebidos com um almoço promovido pelo consulado geral do Brasil em um elegante restaurante francês. Apesar do cansaço visível dos dois, dali foram a um coquetel e em seguida emendaram com a estreia do filme. Laffitte reitera:

Não viemos a passeio. Temos a obrigação de conquistar a maior exposição possivel para que todos que trabalharam conosco possam sentir o mesmo orgulho que sinto agora.