O fotógrafo Sérgio Guerra registra em livro a cultura dos hereros

Pedro Schprejer , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Vivendo há 13 anos entre Salvador e Luanda, o fotógrafo Sérgio Guerra pretende mostrar imagens pouco conhecidas de Angola para o mundo e, sobretudo, para os próprios angolanos. Em seu novo livro, Guerra retrata o cotidiano e as tradições dos hereros, povo seminômade que habita o interior da região há centenas de anos.

A maioria absoluta da iconografia disponível sobre Angola retrata um país totalmente urbano. Quando falamos em imagens étnicas da África, geralmente pensamos logo nos massai do Quênia ou em povos de Botsuana compara Guerra.

Hereros Angola é uma compilação de fotos das diversas etnias que compõem o povo herero. O livro é fruto de uma expedição realizada por Guerra, acompanhado por uma equipe de 17 pessoas, entre junho e agosto do ano passado. Além das fotos, Guerra registrou cenas que serão usados em um documentário e numa série televisiva. Foram cerca de 60 dias na estrada, percorrendo as províncias de Namibe e Cunene, no sudoeste de Angola, quase na fronteira com a Namíbia. A caravana esteve com diversos subgrupos dos hereros, documentando os costumes e tradições de um povo que, apesar de numeroso, ainda é pouco valorizado e estudado no país africano.

O angolano comum não consegue distinguir os povos que vivem no próprio país. Eles não têm muita informação sobre isso ressalta Guerra. Há uma grande lacuna que este trabalho pode ajudar a preencher.

O primeiro contato do fotógrafo com os hereros foi em 1999. Na época, Guerra participava de uma série para a TV pública de Angola. Intitulado Nação coragem, o programa levava aos angolanos notícias colhidas diretamente nos fronts da guerra civil que arrasou o país, retratando também como os habitantes de diversas regiões viviam em dias tão sangrentos. Foi assim que Guerra tirou suas primeiras fotografias dos hereros do grupo Mukubai. No prefácio do livro, o contato com uma cultura tão distinta é descrito desta forma: foi como se uma porta da minha percepção tivesse sido aberta para algo que sabia existir, mas hesitava em acreditar .

Sete anos se passaram até que o fotógrafo decidisse retornar à mesma região com o objetivo de produzir material para uma exposição sobre as diversas etnias angolanas. A beleza e a intensidade do que viu acabaram estimulando a elaboração do livro. Em 2009, Guerra e sua equipe saíram de Luanda, desbravando estradas que, em certos pontos, pareciam ser verdadeiras escadas , deixando 20 pneus pelo caminho. No primeiro contato com as comunidades, o diálogo era a estratégia utilizada:

Sempre tivemos o cuidado de começar conversando e explicando a proposta para eles. Por isso não tivemos problemas nenhum conta Guerra Eles sabiam que também tinham a ganhar com esse trabalho, pois são populações com muitos problemas, como falta d'água e de medicamentos. E é bom para eles que os outros vejam isso.

Com carta branca das comunidades, Guerra pode observar de perto o dia a dia dos hereros. Certas fotos, que mostram práticas seculares como a circuncisão e, sobretudo, a extração dos quatro dentes incisivos permanentes das crianças, chegam a ser chocantes e mostram o quão próximo de seu objeto de pesquisa ele esteve. As imagens retratam ainda os belos rostos, olhos e sorrisos de um povo que vive ainda muito próximo à natureza, cultivando uma relação de adoração com o gado.

Guerra acredita que, passada a crise econômica mundial, Angola seguirá em seu processo de reconstrução. Para o fotógrafo, a melhoria das condições de vida no país é fruto de avanços políticos conquistados nos últimos anos. Quanto a ações destinadas às minorias étnicas, porém, ainda há muito o que fazer:

O país ainda não tem uma política clara e difundida sobre como lidar com esses povos. A grande dificuldade será conciliar o forte desenvolvimento com a preservação dessas culturas.

Serviço:

Hereros Angola

Sérgio Guerra, 260 páginas.

R$ 190. Lançamento: Livraria Da Conde Arte + Cultura, Rua Conde Bernadotte, 26, loja 125, Leblon (2540-8255), 4ª, às 19h.