Filão religioso faz sucesso também no universo das HQs

Pedro de Luna * especial para o Jornal do Brasil, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Meio de fácil assimilação e de comunicação imediata com o público, os quadrinhos tornaram-se, no decorrer dos anos, um poderoso aliado das religiões para a difusão doutrinária. Das 88 edições da Série Sagrada, publicada pela editora Ebal entre 1953 e 1960, ao sucesso da formiguinha Smilinguido, que completa 30 anos em 2010, o tema tornou-se recorrente também em publicações laicas , tanto as voltadas para o público infanto-juvenil como para o adulto. Para o professor do Observatório de HQs da USP, Waldomiro Vergueiro, os quadrinhos são um veículo interessante para a transmissão de mensagens religiosas.

Depende de cada autor utilizar o meio de maneira apropriada para atingir seus objetivos em termos religiosos. Mas é claro que as histórias em quadrinhos são uma forma narrativa que não se subordina à religião e por isso podem ser utilizadas de uma maneira que possa desagradar os seguidores de uma ou outra manifestação religiosa ressalta Vergueiro. Nem os quadrinhos são apenas diversão e tampouco a religião é somente reflexão. O diálogo entre ambos é perfeitamente factível.

Um dos maiores nomes do quadrinho nacional, Mauricio de Sousa costuma dizer que a Turma do Penadinho e a personagem Dona Morte ajudam a criança a desmitificar o medo por algo que todos enfrentaremos mais cedo ou mais tarde. Após publicar uma história na revista da Magali em que ela reencarnava muitos anos depois, o autor declarou que a ideia de reencarnação é recorrente nas mais diversas religiões do mundo, e que o desafio seria apresentá-la de forma leve e se possível com humor. André Diniz é outro entusiasta do tema. Em seu livro Sete vidas (Conrad Editora) ele conta em quadrinhos a sua experiência real com a terapia de regressão a vidas passadas.

Fiz questão de deixar o aspecto fé o mais distante possível. Apenas reporto como se deram as sessões e o que vi durante elas conta Diniz. Se tudo o que vi foram de fato existências passadas ou se foi fruto do meu inconsciente, não acho que isso faça muita diferença, e até convido o leitor a tirar suas próprias conclusões. Daí, quando essa postura é clara, não acho que isso afaste o leitor mais cético.

Ele acaba de lançar O quilombo Orum Aiê (Galera Record), desta vez sobre a saga de três escravos e um branco foragido que partem em busca de um quilombo utópico, após a revolta dos escravos malês de 1831.

As religiões são temas riquíssimos, independentemente de fé. Os santos foram gente de carne e osso e muitos com histórias de vida bem interessantes observa Diniz.

Recentemente o paulista Laudo Ferreira, em parceria com Omar Viñole, lançou Yeshua (Editora Devir), uma trilogia que procura trazer dentro de uma perspectiva mais próxima a questão do humano e do divino.

O Osho, mestre hindu, dizia que não acreditava que Jesus fosse aquela figura séria ou mesmo melancólica como foi retratado através dos séculos comenta Ferreira. Para ele, um ser iluminado e divino como foi Jesus era plenamente alegre. Também acredito nisso.

No primeiro volume, o artista focou no nascimento de Jesus e sua iniciação espiritual às margens do Jordão. No segundo, o início de sua pregação, a briga das ideias entre o que ele diz e a forma que as pessoas entendem, bem como a formação dos seus seguidores, Maria Madalena e a convivência com todos eles. O autor explica que não tem religião, mas fé na vida e nas coisas boas:

O amor tornou-se piegas para muitos com o passar dos tempos, mas ele é sempre o saldo de tudo quando por ele entendemos um caminho de vida.

Um pequeno personagem de grande sucesso é a formiguinha Smilinguido, criado em 1980 por Márcia D'Haese e Carlos Tadeu Grzybowski. A missão do personagem e sua turma (que manteve uma revista durante seis anos) é propagar mensagens universais como bondade, compreensão, respeito e amor ao próximo. Desde 1989 seus produtos editoriais são lançados pela Editora Luz e Vida. O diretor de parcerias e projetos, Carlos Eduardo Arent, não acredita que o sucesso comercial são cerca de 150 produtos com a marca Smilinguido, traduzidos para o espanhol e inglês e exportados para mais de 30 países entre em atrito com o lado religioso.

Em sua história, os quadrinhos têm a finalidade de passar uma mensagem. Relatar uma passagem histórica e religiosa através das HQs é comunicar aos grupos de interesse opina Arent.

Na opinião do superintendente da Editora Luz e Vida, Samuel Eberle dos Santos, o desafio é manter a coerência histórica e dar respostas oportunas a novas tendências comportamentais, novas tecnologias e linguagens:

O Smilinguido não se propõe a discutir doutrinas ou tratar temas polêmicos da teologia. Ele é a favor da bondade, da gentileza, do perdão, do amor.