Silvio Tendler reflete sobre rumos do mundo pós-guerra em documentário

Bernardo Costa, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Ter 18 anos em 1968 . É a frase que o documentarista Silvio Tendler utiliza para definir sua mais recente empreitada cinematográfica. Utopia e barbárie, que estreia nesta sexta-feira no circuito nacional, é uma reflexão pessoal do cineasta sobre sua geração e as paixões e influências que a forjaram. Reconstituindo aspectos históricos por meio de imagens, Tendler, hoje com 60 anos, procura investigar os erros e acertos dos jovens que queriam mudar o mundo nas décadas de 60 e 70.

Eu parti de um questionamento muito pessoal. Em 1989 cai o muro de Berlim e o Collor é eleito presidente do Brasil. Ao mesmo tempo em que acabou toda a esperança de um socialismo puro e libertário, nós elegemos o pior candidato dentre uma gama enorme de opções, que incluia Lula, Ulisses Guimarães, Mario Covas, entre outros compara Tendler. Votei para presidente pela primeira vez aos 39 anos. Costumo dizer que a eleição de Collor foi a maior brochada da história. Com o fim da utopia socialista entramos na barbárie da globalização, calcada no universo financeiro e não na integração dos povos de forma libertária.

Viagem por 15 países

Com a reunificação alemã, alguns pensadores, como Francis Fukuyama, chegaram a proclamar o fim da história.

Foi aí que eu pensei em fazer um filme que refletisse sobre tudo aquilo que minha geração tinha vivido recorda. Inicialmente eu iria colocar um ponto final no documentário em 2000. Mas, no ano seguinte, ocorre o ataque terrorista às Torres Gêmeas, que mostrou ao mundo os primeiros indícios da ineficácia do capitalismo, concretizada com a crise econômica de 2008, quando a maior seguradora dos EUA foi estatizada.

Em 1992, depois de passar dois anos na França, Tendler voltou ao Brasil para trabalhar como assistente de direção e consultor de história na minissérie Anos rebeldes, que foi ao ar pela TV Globo no mesmo ano. Após o projeto, o documentarista começou uma viagem por cerca de 15 países, garimpando imagens e recolhendo relatos de personagens-chave da história que queria contar em Utopia e barbárie, dentre os quais o general Giap, estrategista do exército vietnamita responsável pela resistência às investidas da França e dos EUA.

Foram três momentos importantes que formaram a geração que tomou as ruas em 1968: a revolução comunista na China, em 1949, a cubana, em 1959, e a vietnamita, nos anos 60. Lembro que fui ao Itamaraty recolher algumas imagens para o filme e conheci a funcionária Vera Cinthia Alvarez. Ela se entusiasmou com o projeto e me colocou em contato com o Alcides Prates, então embaixador do Brasil no Vietnã. Ele fez uma solicitação formal que permitiu que eu entrevistasse o general Giap, que ganhou o nome de guerra Camarada Van , após aceitar o convite de Ho Chi Minh para organizar a guerrilha. Ele nunca havia pegado em armas. Mas, por ser professor de história, tinha estudado as guerras ocorridas no mundo, e, por isso, foi convocado para organizar a resistência vietnamita.

Utopia e barbárie começa pelo fim da Segunda Guerra, com a imagem da seguinte declaração do então presidente americano Henry Truman a respeito das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki: Gastamos dois bilhões de dólares na maior aposta científica da história. E vencemos! .

Acho que o fim dessa guerra foi um divisor de águas. Após sairmos da barbárie, houve a utopia por um mundo melhor, mas, ao mesmo tempo, fadada a uma nova barbárie, pois o mundo ganhou um senhor chamado Estados Unidos. Inicialmente, pensei em chamar o filme de Utopia ou barbárie, mas a partir dessas reflexões percebi que as duas coisas andam juntas, indissociáveis.

Revisão sobre a luta armada

Ao abordar as ditaduras militares que proliferaram pela América Latina nos anos 70, Silvio Tendler procura fazer uma revisão sobre a luta armada a qual muitos se engajaram.

Não foi uma ideia tresloucada. Ela tinha um precedente. Por isso, faço uma citação ao filme Roma cidade aberta, de Roberto Rossellini (1945), que sinaliza que, em certas ocasiões, pegar em armas é necessário. Nós tínhamos o exemplo da Argélia, de Cuba... Não quero dizer que sou contra ou a favor, mas a luta armada tinha uma base.

Sobre esse assunto, Tendler colhe depoimento do militar Apolônio de Carvalho, morto em 2005, e a quem o cineasta dedica o filme:

Ele pegou em armas em 1935, lutou contra o nazifascismo na Guerra Civil Espanhola, integrou a resistência francesa ao lado de De Gaulle, e retornou ao Brasil para lutar contra a ditadura de 1964. É nosso herói da democracia.