Diretor diz que impulso humanitário de Lennon só se compara a Bono Vox

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Até hoje, canções como Give peace a chance e Imagine, compostas por John Lennon após a dissolução dos Beatles, em 1970, são usadas como hinos pacifistas. Mostram um músico preocupado com o mundo em que vivia. Dirigido por David Leaf e John Scheinfeld, o documentário Os EUA X John Lennon (2006), que chega sexta-feira aos cinemas cariocas com quase quatro anos de atraso, joga luz sobre a fase ativista do músico inglês, amparado por fotos e imagens de arquivo (muitas deles nunca exibidas em público antes) e depoimentos recentes.

O filme resgata o período em que o ex-Beatle usou a popularidade que tinha para defender a paz e denunciar os erros do então presidente Richard Nixon (1913-1994), como a manutenção da Guerra do Vietnã (1959-1975). Por causa disso, Lennon foi perseguido pelo governo americano, que tentou deportá-lo do país. Depois de vencer a longa batalha, já com o green card nas mãos, o artista morreu em 1980, ironicamente assassinado por um de seus fãs, sem ter traído, no entanto, a sua integridade artística e pessoal.

Panteras Brancas

O documentário é alimentado pelo testemunho de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com as causas pacifistas de Lennon, como o empresário musical John Sinclair, integrante do movimento Panteras Brancas. A prisão deste, em 1969, inspirou Lennon a criar John Sinclair , canção que pedia a libertação do ativista. Também participam o jornalista Carl Bernstein, coautor, com Bob Woodward, da série de reportagens que expôs o escândalo de Watergate; o ex-senador George McGovern, que concorreu à presidência e obteve o apoio de Lennon; Leon Wildes, advogado de imigração que o defendeu da tentativa de deportação e, claro, Yoko Ono.

Desejávamos contar esse episódio da vida de John Lennon há muito tempo. Para nós, que acabávamos de entrar em um mundo pós 11 de Setembro, pós invasão do Iraque, a perseguição a Lennon quase 40 anos antes, que envolvia censura e medidas contra liberdades de expressão, parecia estar se repetindo, sob uma roupagem nova comparou Leaf em entrevista ao Jornal do Brasil, durante o Festival de Veneza, onde o filme foi exibido na mostra Horizontes. O filme tem o propósito de reavivar a memória dos mais velhos e alertar as novas gerações para esse perigo.

Logo de início, Leaf e Scheinfeld fazem um levantamento das origens de Lennon, numa tentativa de entender a veia rebelde e contestadora do artista. Os diretores mostram que, desde a adolescência, o músico sempre se metera em confusões, e o fato de ter fundado a banda mais popular de todos os tempos não apaziguou-lhe os ânimos. Melhor do que isso, soube canalizar seu espírito contestador para causas mais nobres do que ganhar rios de dinheiro.

Hoje em dia, se há alguém que carrega a tocha levantada por Lennon no passado é Bono Vox, do U2. Adoro a sua música, e o que o Bono faz, em termos humanitários, é importante avalia Leaf. Se Lennon usou sua popularidade para fazer campanha pela paz, Bono usa a fama que tem para chamar a atenção do mundo para problemas do Terceiro Mundo, como a fome na África. É uma forma de dar utilidade à notoriedade que se tem, comportamento raro entre as celebridades pop.

A perseguição a John Lennon pelo governo americano teria inspirado aquela que é considerada a fase mais importante da carreira solo do músico. O CD da trilha original de Os EUA X John Lennon traz 21 faixas que se tornariam ícones da geração antiguerra. O álbum abre com a esperançosa Power to people, passando por Working class hero, I don't want to be a soldier, Mama I don't wanna die, e, claro, a imortal Imagine, que virou hino de esperança por um mundo melhor. Há pelo menos uma parceria do cantor com a mulher, Yoko Ono, The ballad of John & Yoko. O CD traz ainda uma versão instrumental de How do you sleep, além de duas faixas ao vivo: John Sinclair e Attica State. O trabalho de Lennon, na verdade, percorre todo o filme.

A participação de Yoko foi fundamental. Ela era a única pessoa capaz de falar sobre a vida em comum com Lennon na época, dentro e fora da intimidade da cama. E só ela poderia nos dar os direitos de uso das canções e autorizar a confecção de remixes de outras, que servem de fundo musical; você ouve músicas de Lennon durante todo o filme, mesmo que não as reconheça explica Leaf. Estranho mesmo foi ter que encontrá-la no edifício Dakota, onde o casal morava, voltar ao endereço onde ele foi assassinado.