O cinema da capital federal, ainda busca uma identidade

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Diante de um deserto de terra vermelha e placas que indicam futuras edificações, a câmera do jovem Cacá Diegues parece indagar no curta-metragem Brasília, lançado em 1960: Daqui surgirá uma cidade? . Hoje realizador renomado, Diegues tinha apenas 18 anos quando, motivado pelos simbolismos ligados ao projeto de Oscar Niemeyer, se aventurou pelo serrado. O diretor alagoano, portanto, estreou em Brasília.

Era um filme muito amador, que fiz com uma câmera que o Davi Neves (1938-1934) tinha me emprestado. A ideia era um dia da construção de Brasília. Pena que esse curta se perdeu na volta de um festival em Gênova, em 1965 lembra Diegues.

O testemunho deixa claro que o cinema chegou à capital antes mesmo de sua inauguração oficial, exatos 50 anos atrás. A dúvida que ainda permanece é se a cidade, que já entrou na meia-idade, tem uma filmografia à altura dessas transformações.

O documentário foi pródigo em registrar a construção da identidade de Brasília. Estão ai os filmes do Vladimir (Carvalho), como Conterrâneos velhos de guerra (1992), e o Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), do Joaquim Pedro de Andrade. Em termos de ficção, no entanto, os exemplos ainda são poucos vaticina Diegues, que voltou ao Planalto Central para filmar parte de Os herdeiros (1968) e Bye bye, Brasil (1979).

Primeira geração nata

Pioneiro do documentário brasiliense, o paraibano Vladimir Carvalho lembra vagamente de sequências inteiras de A idade da Terra (1980), de Glauber Rocha, rodadas próximos a monumentos do Plano Piloto. Mas reconhece que o cinema de ficção local ainda não gerou títulos com a mesma representatividade para a identidade de Brasília como foi Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, em relação ao Nordeste rural.

Da produção mais recente, gosto muito de Subterrâneos (2003), e A concepção (2005), do José Eduardo Belmonte. Embora polêmicos, têm tudo a ver com a cidade, mostra um pouco do mal estar de Brasília, são filmes que falam sobre angústias e inquietações dessa geração que nasceu durante a ditadura militar abre um parênteses Carvalho, que virá ao Rio para a exibição do curta Brasília segundo Feldman (1979), sobre o designer americano Eugene Feldman, que documentou a construção do Distrito Federal, durante a exposição As construções de Brasília, em cartaz no Instituto Moreira Salles, a partir do dia 29.

Nascido em 1970 e radicado em São Paulo, Belmonte é integrante da primeira geração de cineastas brasilienses natos. Fez um barulho danado quando retratou sua geração como um bando de porras-loucas em A concepção. As únicas saídas de Brasília são o hospício, o aeroporto e o serviço público, ficar em baixo do bloco, fazer porra nenhuma, estudar pra concurso, ter uma banda de merda, querer ser o Renato Russo , dizia um dos personagens.

A concepção pinta um retrato mais radical do que a tirada pelo carioca Sérgio Rezende mais de 20 anos antes, em O sonho não acabou (1982). Centrado em um grupo de um grupo de amigos que estudam para o primeiro vestibular, o filme se pretendia um flagrante da primeira geração nascida em Brasília. Belmonte aponta outros título marcante.

Existe um curta muito emblemático para mim, feito no meados dos anos 80, que mostra muito bem uma geração em conflito com a cidade que, mesmo assim, resolveu assumi-la da forma mais pop e anárquica possível, que é Conversas paralelas, do Pedro Anísio. Outro curta recente, Dias de greve, do Adirley Queiroz, também mostra uma outra Brasilia, a da periferia, muito longe da de Niemayer aponta Belmonte.

Irônico, o diretor prefere apontar uma produção independente recente que acabou roubando a festa de aniversário:

O filme digital feito pelo Durval Barbosa, que tem sido muito visto na internet, sobre os intestinos do governo de Brasília, que acabou se tornando a grande obra dos 50 anos.

Carvalho lembra que a associação de Brasília a seu lado podre ainda é um estigma a ser vencido, até porque a população é trabalhadora . Nas últimas décadas, muitos diretores miraram suas câmeras para a corrupção política e econômica que graça no Planalto Central, como O dia da caça (1999), de Alberto Graça, e Brasília 18%, de Nelson Pereira dos Santos.

O cinema feito em Brasília dialoga com esse horizonte reto e infunde no cineasta um compromisso no inconsciente o que vai na alma dessa população. O fato de estarmos num lugar que é considerado o terraço do Brasil, fornece aos filmes daqui uma pegada distinga filosofa o veterano realizador.

Para outro veterano, Roberto Farias, autor de O candango da Belacap (1966), canchanda sobre um operário que trabalhou na construção de Brasília que vem procurar emprego na ex-capital federal, os bastidores da vida política da cidade é fonte inesgotável para a ficção:

Tem assessor parlamentar que matou a mulher, denúncias de corrupção de derrubam governadores, prostitutas com caderno contendo o nome de vários políticos. Isso é material para ser explorado em bons roteiros ironiza.