Christian Alvart faz sua estreia em Hollywood com 'Caso 39'

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Não fosse os imprevistos que atrasaram o cronograma de Caso 39, filmado em 2006 e só lançado em 2009 nos Estados Unidos, o filme de Christian Alvart, que chega nesta sexta-feira às salas brasileiras, talvez tivesse inaugurado o novo ciclo de thrillers envolvendo meninas endemoninhadas que tem assombrado o circuito recentemente, e que tem em A órfã (2009), da Warner Brothers, o exemplo mais visível. Mais curioso: a atriz Renée Zellwegger poderia ser considerada a madrinha do fenômeno.

Foi Renée, que estava ligada ao projeto desde o início, que indicou meu nome entre para a direção, entre três finalistas de uma grande grupo de candidatos para o trabalho explica o diretor alemão de 35 anos em entrevista ao Jornal do Brasil, de Los Angeles. Eu me reuni com ela por 20 minutos, ela me perguntou o que eu achava do seu personagem, como eu via a história, coisa e tal. Acho que a Renée gostou do que ouviu porque uma semana depois fui comunicado que havia sido o escolhido.

Cartão de visitas

Alvart deve o convite para fazer sua estreia no cinema americano ao próprio fascínio por histórias de suspense e/ou sobrenaturais. Antibodies (2005), seu segundo longa- metragem, sobre um serial killer que aterroriza as cercanias de Berlim, serviu como cartão de visitas em Hollywood, depois de uma acalorada recepção no Festival de Tribeca, em Nova York. A partir de então, o diretor passou a receber diversos roteiros para ler. Um deles foi Caso 39; um outro, Pandorum, claustrofóbico thriller sobre dois astronautas que acordam amnésicos do estado de animação suspensa, coestrelado por Dennis Quaid, também foi lançado para os americanos ano passado, e aqui em fevereiro.

Como espectador, sempre gostei de filmes de fantasia e thrillers, de histórias capazes de deixar a plateia na ponta da cadeira destaca Alvart. Não por acaso, Alfred Hitchcock é um dos meus cineastas favoritos, vi tudo dele que era possível. Todos os meus filmes trabalham com elementos de suspense e tensão.

Ironicamente, Alvart só entrou em um cinema pela primeira vez já aos 12 anos . Teve que fugir de casa para para ver De volta para o futuro (1985), de Robert Zemeckis.

A gente viajava muito quando eu era pequeno. Minha família tinha uma formação cristã muito ortodoxa. Eu sequer podia assistir à televisão. Meus pais viam o mundo do entretenimento como uma influência ruim, que era coisa do diabo lembra o diretor, rindo do próprio passado. Depois de De volta para o futuro, só pude entrar em um cinema de novo aos 15 anos, quando mudei para a casa da minha mãe, depois que meus pais se separaram.

Em Caso 39, Renée interpreta uma agente social soterrada por uma pilha de trabalho que, a contra-gosto, aceita um novo caso, o 39º, que envolve uma menina de 10 anos, porque acredita que os pais dela a maltratam sistematicamente. Depois que conseguem enviá-los a um sanatório, a agente chega a adotar a garota, até que descobre que a órfã não é tão inocente quanto parece.

Vejo a história dessa criança maligna como uma metáfora para a paternidade moderna. Os pais acreditam que querem o melhor para os seus filhos, não importa a que geração pertençam. Há 50 anos, os filhos que saiam da linha, muitas vezes, eram punidos com violência, até em público, e ninguém podia interferir. Hoje em dia, todos vigiam o comportamento dos pais em relação aos filhos, inclusive o Estado. O que pode ser uma coisa boa, contanto que não se cometa excessos. Há muitos livros sobre como criar um filho, as pessoas temem estar fazendo algo errado compara o diretor, que sente o problema na pele. Tenho três filhos, virei pai muito jovem, o primogênito já tem 10 anos, e me identifico muito com a questão.

Dentro desse contexto, a grande atração de Caso 39 é a pequena Jodelle Ferland, intérprete da menina do mal. A jovem atriz canadense já andou assustando gente grande em outros títulos do gênero, como Terror em Silent Hill (2006), e na séries de TV Kingdom hospital (2004) e Supernatural (2005). Hoje, aos 15 anos, acaba de ser contratada para interpretar um adolescente transformada numa vampira em Eclipse, o terceiro capítulo da saga iniciada com Crepúsculo. Jodelle tem jeito para a coisa:

Sabíamos que a escolha da atriz que contracenaria com Renée seria essencial para estabelecer o clima que queríamos imprimir ao filme. Se escolhêssemos a garota errada comprometeríamos todo o projeto comenta o diretor. Chegamos a Jodelle depois de testarmos 1.200 atrizes-mirins, em diferentes cidades. Com a ajuda de Renée, baixamos esse número para 10. Gostei muito da Jodelle, o estúdio preferia outra. Então ensaiamos as meninas com a Renée e o estúdio acabou gostando da Jodelle também.