Performance de Paula Parisot gera polêmica

Ieda Magri, Jornal do Brasil

RIO - No prefácio da mais recente edição do seu livro A arte da performance: do futurismo ao presente, RoseLee Goldberg, uma das mais importantes estudiosas desse gênero de arte, escreve que os artistas não usavam a performance simplesmente como um meio de atrair publicidade sobre si próprios . Refere-se aos futuristas italianos, cujas performances em seus primórdios, segundo a autora, era mais manifesto do que prática, mais propaganda do que produção efetiva.

A performance é um meio de se dirigir diretamente ao grande público e, para citar um pesquisador e teórico brasileiro, Renato Cohen, seu nascimento pode ser conjugado ao próprio ato do homem se fazer representar . O conceito é reivindicado tanto pelo teatro pois a performance é antes de tudo uma expressão cênica quanto pelas artes plásticas, principalmente pela exposição do artista em um museu ou galeria, já que, em síntese, a performance procura transformar o corpo do artista em um signo.

Recentemente, começaram a ser publicados estudos que investigam a relação entre performance e autoria no campo da literatura. A partir da década de 90, proliferam exemplos de um tipo de escrita que mistura propositalmente autor e personagem, propondo um jogo com o leitor. Mas, nos anos 2000, é que se fazem visíveis como traço de toda uma vertente da literatura contemporânea da qual são exemplos João Gilberto Noll, com Berkeley em Bellagio (2002) e Lord (2004), todos os livros de Marcelo Mirisola, Histórias malcontadas e O falso mentiroso (ambos de 2004), de Silviano Santiago, Nove noites (2002), de Bernardo Carvalho este inclusive pelo seu projeto editorial que traz uma foto do escritor fazendo a viagem descrita pelo narrador, de mãos dadas com um índio.

No entanto, os estudos que investigam o aparecimento de um sujeito performático a partir dos livros de autores que brincam com a autobiografia e a ficção, de onde resulta o termo autoficção, não têm se voltado nunca para uma performance fora do texto, apesar de sua incursão na persona do autor em suas declarações públicas como entrevistas, por exemplo.

Paula Parisot, com a performance nascida de Gonzos e parafusos recém-lançado pela editora Leya (172 páginas, R$ 24,90) força uma leitura de seu livro que leve em grande conta uma margem entre autor e personagem ainda mais borrada: a autora fez construir, na Livraria da Vila, em São Paulo, uma caixa de acrílico (cenário de Lola Tolentino), toda branca e transparente, com uma cama, uma escrivaninha e um espelho, que remetem à imagem do quarto da clínica de repouso onde sua personagem Isabela se interna, num dos capítulos finais do livro, e ali, por vontade própria, Paula escolheu permanecer durante sete dias e sete noites.

No livro, Isabela é vítima de uma obsessão pela baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, pintada por Klimt. A personagem explica porque se identifica com a baronesa: Elisabeth se vestia de branco, branco é a cor da pureza, e nunca perdi por completo a minha inocência. E Elisabeth era ainda baronesa e sempre, desde criancinha, quis ser uma aristocrata .

A história de Isabela é contada desde sua infância e se estende por uma análise familiar toda recheada de conceitos de Freud, justificados pelas leituras da profissão, pois esta mulher que a todo momento busca descobrir quem é olhando seu passado, é também psicanalista. Dedica-se o tempo todo a analisar homens e mulheres que pretendem resolver seus problemas de culpa, medo e solidão.

O livro foi pensado para parecer uma sessão de psicanálise. Isabela o tempo todo lembra ao leitor que está falando Voltarei a falar da Helga , Já não sei por que estou falando sobre isso embora a linguagem não seja de forma alguma a utilizada na comunicação oral, mas orientada por uma correção que às vezes endurece o texto: Mas eu seria uma boa mãe, visto que levantava no meio da noite para levar minhas bonecas para fazer xixi .

Ou como na cena em que Isabela sai da clínica, ainda vestida de baronesa, entra numa padaria para tomar café e encontra um sujeito magro de boné que molha o pão no café e come. Assim é descrito o encontro: Ele tinha uma pequena caderneta, uma espécie de bloquinho, na qual anotava algo. Não obstante estivesse concentrado, percebeu que me sentei ao seu lado .

Também os verbos no pretérito mais que perfeito impedem que o leitor acredite numa sessão de psicanálise, fazendo o livro pender para um misto de conversa e de desabafo escrito depois do surto de que é vítima Isabela.

As entradas O início que não é começo , Meio e O final que continua tentam dar ordem à história que vai sendo contada em flashback desde o dia que oferece indícios do surto, que culmina com a transformação de Isabela em baronesa até sua saída da clínica, o presente em que todo o percurso é rememorado.

A única aproximação entre Isabela, a personagem, e Paula, a autora, é a menção de uma estada em Nova Iorque. A orelha do livro informa que a autora cursou mestrado em belas-artes na New Scholl University e sua personagem conta que começou a trabalhar em um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro depois da viagem à Nova Iorque .

Não existe no livro, portanto, o jogo que mistura ficção e autobiografia, como nos autores que se caracterizam pela colocação em cena de um personagem que se aproxima da persona do autor e que poderiam ser considerados performáticos justamente por manipularem sua imagem pública de forma a se confundirem, em diversos graus, com os protagonistas de seus livros.

A performance de Paula Parisot se dá fora do livro e é baseada na incapacidade de sua personagem de se identificar consigo mesma, dando margem para a mistura de papéis. Aparentemente como estratégia publicitária, Paula Parisot investiu na vivência de um papel tal qual sua personagem. No livro Isabela encena o papel de baronesa; fora do livro Paula encena o papel de Baronesa a partir de Isabela.

Estratégia de marketing ou não, o fato é que conseguiu atrair publicidade para o lançamento de seu livro, mantendo um blog e toda uma estrutura para dar cobertura aos sete dias que antecedem a sessão de autógrafos. Talvez seu livro, sem a performance de Paula, levasse anos para ser comprado, lido e criticado, porém sua performance recebe críticas e elogios diários.

No entanto, parece saudável separar o livro da performance, já que esta vem depois do livro pronto e não influencia seu enredo, nem empresta complexidade à criação literária.

Em seu lugar de confinamento Paula Parisot é alimentada por pessoas previamente escolhidas e segue um roteiro muito bem definido também previamente. As regras publicadas no release de divulgação do livro, bem como no blog alimentado diariamente com fotos, vídeos, depoimentos e criações de dentro de sua caixa transparente, são claras: nos sete dias de confinamento no quarto de uma sobriedade espartana Paula não se comunicará com ninguém; não lerá; só poderá falar sozinha, escrever e desenhar. Para tanto terá um caderno para cada um dos dias .

O blog informa que o conteúdo desses diários está sendo pensado para ser um romance. Esse poderá ser mais interessante como ato performático, já que o confinamento obrigatoriamente terá forte relação com o que está sendo escrito.