Espetáculo 'A cidade' mostra a atualidade da comédia grega

Claudio Castro Filho, Jornal do Brasil

RIO - "Habitamos uma cidade sem luz direta o teatro , escreveu Oswald de Andrade em sua peça teatral A morta. A metáfora do vanguardista brasileiro soa curiosamente próxima da comicidade de Aristófanes (448 380 a.C.), e lá já se vão dois milênios e meio desde que o maior poeta da comédia grega fez do palco ateniense habitat risível das mazelas de sua pátria e tempo. É da aproximação isto é, de espelhamentos e tensões entre realidades históricas tão distantes no tempo que nos fala o espetáculo A cidade, que o Teatro da Cornucópia grupo dirigido por Luis Miguel Cintra, referência incontornável no teatro português contemporâneo levou ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa.

Trechos de oito peças de Aristófanes, das 11 preservadas, aparecem costurados por Cintra em A cidade, que constitui assim uma dramaturgia fragmentada em 15 episódios distintos, embora submetidos a um mesmo fio condutor.

Como explicita o título do espetáculo, o fio narrativo diz respeito à representação paródica da cidade, da polis, na cena cômica grega. O mote aristofânico serve hoje, então, para nos fazer rir da irônica semelhança entre a vida pública ateniense no século 4 a.C. e a própria realidade política que caracteriza, e caricaturiza, nossas modernas democracias.

Segundo Maria de Fátima Souza e Silva, parceira de Cintra na seleção dramatúrgica, ao criar a democracia, a Grécia detectou-lhe de imediato os defeitos, aqueles mesmos que se tornam, no quotidiano, flagrantes . Não faltam em cena, como na vida, as falhas do sistema jurídico, a corrupção alçada ao estatuto de regra na política, as desigualdades entre gêneros e classes, a xenofobia a acentuar conflitos e fronteiras. O velho mundo de Aristófanes não é assim tão velho.

Na encenação de Cintra, a atualidade da obra do comediógrafo é ressaltada justamente no paralelo entre a cidade grega e a tipicamente portuguesa vida em aldeia. A cenografia de Cristina Reis, ao instalar um imenso portal que separa o espaço ao fundo do palco (onde vemos uma cidade em perspectiva) do proscênio (onde decorrem as cenas), remete tanto aos edifícios do teatro clássico quanto aos acessos das cidades muralhadas que ainda hoje compõem a paisagem europeia.

Em cena de As mulheres na assembleia, assistimos a um típico bate-boca entre viúvas aldeãs, que convidam à gargalhada ao caricaturarem o próprio fado, cantado com grande comicidade pelas atrizes Luíza Cruz e Sofia Marques. Nesta altura, a discussão entre a primeira (velha) e a segunda (jovem) gira em torno de uma lei recentemente decretada, desde que as mulheres passaram a gerir o governo de Atenas, ordenando que os rapazes só poderão desvirginar as raparigas mais belas se passarem antes pelas camas das feias e velhas, tirando-lhes o atraso.

A cena concentra, pois, o aspecto que predomina no espetáculo de Cintra, ou seja, a proposta de uma cidade utópica onde o exercício do poder muda de um governo falocêntrico para uma espécie de feminocracia , regime em que as mulheres passam a gerir o Estado, decidindo por todos.

A desbragada comicidade de Aristófanes, só possível num mundo ainda alheio à culpa cristã, caracteriza o desconchavo da vida sexual como plataforma do governo feminino, num misto de entusiasmo carnavalesco e proposital falta de bom senso. Sobretudo duas das peças aristofânicas mais diretamente ligadas ao tema da mulher na política sustentam a síntese do Teatro da Cornucópia: Lisístrata e a já referida As mulheres na assembleia.

Desta última, aliás, é grande o destaque que se dá ao julgamento de outro autor teatral, Eurípides, acusado por Aristófanes de representar as mulheres de modo um tanto quanto misógino. O tema permanece um desafio aos estudiosos que veem na comédia aristofânica um retrato sociológico da Grécia antiga, uma vez que as tragédias de Eurípides que conhecemos dão conta não de misoginia, mas, pelo contrário, de figuras femininas de caráter hirto, como não nos deixa mentir Medeia, sua mais emblemática heroína.

A questão feminina, como metáfora de toda diferença, renova aqui sua atualidade graças também à coloquialidade com que as traduções de Maria de Fátima Souza e Silva e Custódio Magueijo deixam fluidos os diálogos aristofânicos. Removida a poeira arqueológica, dá-se a ver e ouvir uma obra cômica vigorosa.

Em louvável coincidência, a Imprensa Nacional Casa da Moeda vêm editando, uma a uma, as comédias de Aristófanes que virou figurinha fácil nas livrarias portuguesas. Considerando, porém, que o repertório selecionado pelo Teatro da Cornucópia para A cidade abrange a quase totalidade do legado de Aristófanes, é possível nos ressentirmos da exclusão de As vespas (já publicada pela Universidade de Coimbra nas edições do Festival Internacional de Teatro Clássico, anualmente realizado em Portugal). Trata-se, afinal de contas, de uma comédia ambientada num tribunal, centro nervoso e tragicômico das democracias de ontem e de hoje.

De todo modo, fazendo rir da cidade real, Aristófanes poetizou a utopia de uma nova cidade, entregue ao amor e à liberdade, governada pelo feminino e pelo prazer. Resta-nos a torcida para que a crescente preocupação portuguesa em reverenciar a obra do magistral poeta cômico continue a inspirar, também, os palcos e as casas editoriais de além-mar, onde já não são poucas as edições e encenações de sua obra.