Renato Russo volta ao disco em projeto que relembram o cantor

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O passar dos anos tornam evidente a força, a profundidade e o amplo lastro das composições deixadas por Renato Russo (1960-1996). Tributos em shows e discos, assim como álbuns recheados com canções inéditas mesmo em gravações caseiras de qualidade questionável foram postos na rua. Mas nenhum dos projetos foi o bastante para esgotar a fonte que envolve o espólio artístico deixado por Renato Manfredini Júnior, que faria 50 anos neste sábado. Fã do artista e pesquisador de sua obra, Marcelo Fróes junta a fome com a vontade de comer, com o disco Duetos, que, como o nome indica, apresenta o líder da Legião Urbana dividindo versos ao lado de 15 grandes nomes da canção popular em registros inéditos.

Aconteceram mais projetos envolvendo a Legião Urbana do que propriamente o Renato solo pontua Fróes. Em 2003 houve o Renato Russo presente, depois o lançamento das fitas, O Trovador Solitário, e agora esse novo disco. Por mais que os fãs sempre esperem algo, não tem mais muito material e nem tanta pressa em colocar na rua. Não funciona como lá fora, onde você tem um lançamento do Hendrix ou do Elvis quase todo ano.

A presença de Renato Russo 14 anos depois de sua morte não se manifesta apenas em lançamentos fonográficos. Acaba de ser lançado um livro que reúne 20 contos inspirados nas músicas da Legião Urbana. Organizado pelo poeta Henrique Rodrigues, Como se não houvesse amanhã transforma em literatura hits como Faroeste caboclo e Pais e filhos. Além disso, começa a ser rodado este ano o longa Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, focado na juventude do músico. Para o segundo semestre, os remanescentes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá participam de sete shows-tributo, e a discografia da banda, que continua a render bons números para a EMI, ganha nova forma, com o relançamento dos álbuns também em vinil.

Acho que toda essa reverência e procura vem da simplicidade, do pensamento e da capacidade de transmissão de sentimentos que ele e o grupo tinham. E talvez seja por isso que os trabalhos da Legião não envelheçam teoriza Fróes. Eram três caras sozinhos dentro de um estúdio, com a formação clássica de guitarra, baixo e bateria. São elementos clássicos, não abusaram nunca de efeitos da moda. Grande parte do repertório segue com esse frescor. A matéria-prima era muito forte.

No balaio de Duetos se espraiam alguns dos maiores hits da carreira da banda e da fase solo do cantor, versões para clássicos do cancioneiro popular brasileiro e internacional, gravadas em estúdio, participações de Russo em CDs de outros artistas, shows ao vivo ou em programas de TV, além de pérolas esquecidas pinçadas de sessões inéditas. Nomes como Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Marisa Monte, Cássia Eller e Adriana Calcanhotto são alguns dos que estabelecem as interpretações.

Minucioso, Fróes não apenas pesquisou para ter acesso às cobiçadas gravações. Também se esmerou para garantir a qualidade técnica dos registros do cantor, a edição e colagem adequada de seus registros com as gravações de seus acompanhantes, e a elaboração de novos arranjos com o produtor o produtor Clemente Magalhães.

Mesmo para as canções lançadas em álbuns anteriores tomamos o cuidado de escolher takes alternativos. Renato ia e voltava ao estúdio várias vezes, então são vozes gravadas com distância de meses. São bem diferentes do original, e 100 % inéditos, assim como as bases que foram feitas em estúdio no ano passado.

A seleção de artistas que integraram a coleção também foi rigorosa. Critério: intérpretes que tivessem admiração por Russo e vice-versa.

Renato admirava muito o Caetano, a quem conhecia de festas na casa de amigos em comum. A idéia de ter Caetano fazendo dueto com Renato foi relembrar o dueto de Frank Sinatra e Tom Jobim. São todos artistas que tinham a ver com a história do Renato, que conviveram com ele, e que ele admirava. O Pato Fu era uma das bandas que ele mais falava.

Iniciado em 2005, enquanto preparava um tributo para a televisão, a arqueologia musical de Fróes revelou surpresas e situações inusitadas. Uma das histórias mais curiosas acompanha o dueto de Russo e Marisa Monte para a faixa Celeste. Gravada numa fita DAT, em dezembro de 1993, a demo serviu à pré-produção do disco Verde anil amarelo cor de rosa e carvão.

Composta em parceira, a canção esteve perdida desde então, e para ser incluída teve de passar por um delicado processo de recuperação, já que a fita original estava arrebentada. A faixa é, na verdade, uma versão embrionária de Soul Parsifal, clássica parceria de Renato e Marisa gravada no CD A tempestade (1996), da Legião Urbana.

Quando convidei a Marisa para um tributo ela me falou sobre uma composição que eles haviam gravado. Os anos se passaram e quando comecei a pesquisar entrei em contato com ela através da EMI. Nem a família do Renato ou a gravadora tinham esse registro, só ela... Mas a fita estava arrebentada. Mandamos para São Paulo, e ficamos rezando para que ela fosse remendada corretamente e voltasse a tocar.

Voltou. E além dela 14 outras passaram por caminhos diversos até que pudessem tocar novamente. Com o apoio da EMI, Fróes celebra o fato de ter conseguido desanuviar os impasses burocráticos para que todas elas estivessem legalmente disponíveis para o trabalho.

É preciso empenho para contornar as burocracias que envolvem um projeto desse tipo. Ainda bem que não fizemos nenhum corte. O disco está na íntegra e chega para os fãs na melhor hora possível.

Entrevista | Fernanda Takai

A faixa de abertura de Duetos, a inédita Like a lover (O Cantador) ganha delicadeza com o acréscimo dos vocais de Fernanda Takai, registrados 15 anos depois da primeira gravação em estúdio feita por Renato Russo, em 1995. Escrita por Dori Caymmi e Nelson Motta, a faixa recebeu uma versão em inglês de Allan Bergman e Marilyn Bergman nos anos 60. E é esta que está registrada em Duetos. A escolha por Takai não foi em vão. E nem a missão de abrir o disco. Pouco antes de sua morte, o grupo Pato Fu era um dos prediletos de Russo.

Foi uma escolha sua gravar essa versão?

Essa gravação é inédita, ninguém sabia da existência dela. O Marcelo Fróes fez contato comigo no ano passado contando a descoberta e me fez o convite. De certa forma a canção me escolheu, assim como a produção do disco. E parece que a família do Renato deu o aval. Fiquei muito feliz.

Como foi a experiência de gravar o dueto?

Assim que comecei a cantar pra ver como seria o tom vi poderia fazer um desenho bonito de segunda voz pra ele, e ainda cantar a parte principal de um jeito confortável. Foi sorte, porque não daria pra mexer nessa questão. Quis passar um verdadeiro encontro, quente e feliz. Gostaria que as pessoas escutassem e abrissem um sorriso no fim, ao terem o Renato um pouquinho de volta.

No encarte do disco o Renato está com uma camisa do Pato Fu. Como era a relação entre vocês?

Sabe que eu não vi o disco? Nem sabia dessa foto no encarte... Ele sempre se referiu ao Pato Fu de uma forma muito carinhosa e isso repercutiu, claro.

Qual a importância do trabalho, do carisma e da criatividade do Renato?

Além de ter sido um grande compositor, ele tinha uma voz especial. Isso marca muito tudo que ele fez e deixou.

Quais sãos as sua principais lembranças com ele?

Não convivemos tanto, mas nas poucas vezes que nos falamos me chamou a atenção o jeito espirituoso que ele tinha de contar casos, gostava muito de conversar. Eu achava que estava tomando o tempo dele, e o Renato lá, sem pressa alguma.