Com o lançamento de IRM, Charlotte Gainsbourg comprova ousadia

Nelson Gobbi, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No ano passado, o público e os críticos de cinema surpreenderam-se ao ver o docinho Charlotte Gainsbourg desnudando-se (literalmente) de qualquer pudor artístico para protagonizar o perturbador Anticristo, de Lars von Trier trabalho pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Atriz do último Festival de Cannes.

Com o lançamento de seu terceiro álbum, IRM, a atriz e cantora francesa comprova que tal ousadia não foi um movimento isolado em sua carreira. A concepção do disco veio antes mesmo do convite do diretor dinamarquês: em 2008, ela procurou o cantor e compositor americano Beck para que a ajudasse a gravar o turbilhão de ideias surgidas depois de sofrer uma hemorragia cerebral, causada por um acidente de esqui aquático no ano anterior, que poderia ter lhe tirado a vida (o nome do CD foi tirado da sigla para ressonância magnética em francês). A mão do produtor e a vontade de Charlotte reinventar-se são nitidamente perceptíveis em relação ao seu CD anterior, o bom 5:55 (2006). Ainda que não renegue o vocal doce e sussurrado maior herança de seu pai, Serge Gainsbourg, um dos ícones da chanson francesa ela avança muito na direção de um pop globalizado, cuja essência independe do idioma em que é cantado. Em temas escritos e arranjados por Beck, a exemplo da faixa-título, Master's hands e Heaven can wait, a cantora passeia por múltiplas camadas sonoras, entre o experimental e o pop, com o desprendimento de uma Björk. Beck e Charlotte contrapõem a eventual aridez com canções construídas sobre arranjos de cordas, como In the end, Dandelion e Me and Jane Doe - nada que anestesie demais o impacto de Le chat du Café Des Artistes, do cantor canadense Jean-Pierre Ferland.