Felipe Hirsch assume referências teatrais de 1º filme, 'Insolação'

Daniel Schenker *, Jornal do Brasil

CURITIBA - Há muito cinema no teatro de Felipe Hirsch. E vice-versa. O diretor que, na próxima sexta-feira, estreará a montagem de Cinema, no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, e lançará em circuito o longa-metragem Insolação investe em jogos de espelhos. No espetáculo, incluído sob a forma de processo na programação do Festival de Curitiba, colocou atores e espectadores dispostos em plateias separadas, uma de frente para a outra.

Os atores não possuem consciência da presença do público durante a maior parte do tempo. Há uma fronteira invisível que separa os artistas dos espectadores, como se fosse uma quarta parede, uma tela simbólica de cinema explica Hirsch.

Já em Insolação, o diretor aponta para a possibilidade de todos os personagens circunstanciais serem a mesma pessoa, em diferentes fases da vida.

Will Eno (roteirista, juntamente com Sam Lipsyte) tem grande influência de Edward Albee. É interessante como o casal mais velho de Quem tem medo de Virginia Woolf?, por exemplo, acaba se refletindo nos mais jovens. Já os personagens de Insolação parecem conviver em planos diversos, mas, por outro lado, podem ser a mesma pessoa em estágios distintos assinala Felipe Hirsch, que montou dois textos de Eno: Temporada de gripe e Thom Pain-Lady Grey.

Para o diretor, não há sentido em manter-se fiel a características pré-determinadas de cada manifestação artística.

As fronteiras estão borradas. Ainda existem, porém, cobranças no que se refere a uma fidelidade aos elementos específicos de cada arte. Em Não sobre o amor, acho que atingi uma plenitude ao fundir teatro, artes plásticas, cinema e literatura avalia, acerca da bem-sucedida encenação baseada em Zoo ou Letters not about love, de Viktor Shklovsky. E quanto mais invisto em cortes de tempo e espaço nas minhas montagens, mais me aproximo da estrutura do roteiro de cinema.

Marcando uma renovação nos quadros da Sutil Companhia de Teatro fundada por Hirsch e pelo ator Guilherme Weber em 1993, com Baal babilônia, adaptação teatral dos diários de juventude de Fernando Arrabal Cinema traz um grupo de 15 jovens atores selecionados entre 1.350 concorrentes após intensos workshops pautados por jogos de improvisação. É um trabalho norteado pela inquietação.

Venho observando o ato de ver com angústia. Acho que fomos perdendo a capacidade de ver de forma instintiva, racional e emocional e passamos a emitir opiniões. Comecei a cobrar mais qualidade na maneira de ver, pensar e sentir, tanto por parte de quem consome quanto de quem faz arte observa o diretor de Por um novo incêndio romântico, inspirado em A perfect Ganesh, de Terrence McNally; Como eu aprendi a dirigir um carro, de Paula Vogel, e Educação sentimental do vampiro, resultado da reunião de textos de Dalton Trevisan.

Porta-voz de um teatro de raiz memorialista, que propõe ao espectador uma relação sensorial a partir do contato com texturas diversas (como em A memória da água, de Shelagh Stephenson) e uma mescla entre passado e presente através de imagens sugestivas (como as de um quadro negro repleto de letras quase apagadas, em Thom Payne-Lady Grey), Felipe Hirsch pratica a arte como antídoto contra o desamparo.

Arthur Miller disse que assistir a algo é um ato de escolha. Queremos nos identificar para que consigamos nos sentir pertencentes a um grupo e, consequentemente, menos sozinhos. É como uma reação à impressão de estarmos sozinhos no mundo evoca, mencionando o autor de A morte de um caixeiro viajante, texto que encenou com elenco capitaneado por Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha.

A desolação atravessa as imagens de Insolação, exibido nos festivais de Veneza e do Rio e na Mostra de São Paulo.

A cidade de Brasília é fundamental no filme. Queríamos trazer à tona a utopia de uma época que, no Brasil, gerou uma cidade concreta. Não me refiro só à utopia socialista da década de 60. A partir do momento em que o projeto de Brasília falhou, como toda utopia, surgiu um cinturão em volta do eixo monumental, tomado por construções paradas. Esse lugar é reaproveitado pelos personagens de maneira nova. É lá que um menino descobre a paixão.

Hirsch buscou inspiração em contos e peças russas de autores como Anton Tchecov.

Há clara citação do conto O beijo, de Tchecov, centrado num personagem que se transforma com um beijo assume o diretor, que cita, em determinado momento, Liuba, a matriarca de O jardim das cerejeiras.

Cinema e Insolação, concretizados por Felipe Hirsch e sua parceira habitual Daniela Thomas, lançam a série de projetos do diretor para esse ano. Em setembro, apresentará, no Rio, Pterodáctilos, uma das duas peças (a outra, Homens gordos de saia, ambas de Nicky Silver) integrantes da montagem de Os solitários, com Marco Nanini. Em novembro mostrará, no Teatro Municipal, a ópera O castelo do Barba-Azul, de Bela Bartók. Também no segundo semestre, Não sobre o amor deverá voltar à cidade e viajará para Buenos Aires e Viver sem tempos mortos, monólogo com Fernanda Montenegro, ganhará nova temporada em São Paulo. Existe a possibilidade de A vida é cheia de som e fúria, maior sucesso da companhia, gerado a partir de uma apropriação de Alta fidelidade, de Nick Hornby, desembarcar novamente no Rio e em São Paulo. E há mais: o monumental Avenida Dropsie, de Will Eisner, irá para Bogotá e Thom Payne-Lady Grey percorrerá festivais.

* Daniel Schenker viajou a convite da organização do festival