Cantora Rox aposta em cruzamento de referências para se destacar

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Se nos últimos anos o cenário musical brasileiro parece ter sido inundado por uma enxurrada de novas vozes femininas, na Inglaterra um fenômeno parecido se instala, mas fincado na fusão do pop com a soul music. Faltava, porém, uma voz versátil o bastante para englobar todo o lastro de gêneros que a black music abarcou em seu pulsar nos últimos tempos. Com seu timbre cristalino e de extensão invejável, Roxanne Tania Tataei ou simplesmente Rox, seu nome artístico aposta na diversidade e acerta num caminho próprio.

Desde que Joss Stone e, depois, Amy Winehouse redesenharam as ondas sonoras de cores sessentistas, uma profusão de meninas se lançou em releituras para a sonoridade esculpida por selos como Stax e Motown décadas atrás. Nomes como Adele, Duffy, VV Brown e até a novata discípula de Miss Winehouse, Dionne Bromfield, seguiram o fluxo esquemático do rastro deixado por grupos vocais femininos da época, como Martha and the Vandellas e The Supremes, assim como a receita quente de Sharon Jones and The Dap-Kings. Afastada de qualquer nostalgia, Rox, é claro, não quer saber de comparações.

Para ser sincera, eu tento realmente ignorar comparações do tipo. É claro que eu fico feliz, mas eu planejo estar na estrada por muitos anos e quero ter a certeza de que possa sobreviver a qualquer hype que cruze o meu caminho esclarece a cantora, a bordo do Eurostar que a leva de volta a Londres depois de uma apresentação em Paris, para um programa de TV.

Influência do musical 'Chicago'

Rox rescende às divas do soul e ao tratamento classudo e renovado que nomes como Sade e Lauryn Hill emprestaram ao rhythm and blues. De traços delicados e corpo escultural, também por isso chamou a atenção das principais publicações inglesas e, antes mesmo de lançar seu álbum de estreia, Memoirs, previsto para o meio do ano, marcou presença no concorrido palco de Jools Holland. Atravessada por referências musicais aparentemente desconexas, cita o musical Chicago como uma delas, assim como deposita em seu balaio de influências nomes como Frida Kahlo, Portishead, D'Angelo e Elton John. Autora de métricas sinuosas, em que sua articulação é exigida e mostra elasticidade, Rox embala desde levadas reggae como Rocksteady a canções mais diretas, guiadas pelos cânones do pop e do rock.

Amo praticamente todos os estilos musicais, mas os trabalhos de Eva Cassidy, Mahalia Jackson, Elton John, Joni Mitchell e Common me inspiram bastante.

Nascida em Londres há 21 anos, Rox solta a voz desde a primeira infância. Filha de uma cantora jamaicana e de um artista iraniano, dos cinco aos 10 anos dedicava suas manhãs e tardes de sábado, das 9h às 17h, aos ensaios com um grupo vocal da igreja de Norbury. E foi ali, em meio a encontros religiosos e churrascos de famílias jamaicanas, assim como em peças de teatro e excursões com o grupo Youth Musical Theatre durante a adolescência, que descobriu a sua potência vocal e a energia e desenvoltura que hoje emprega sobre o palco.

Tudo começou muito cedo, mas eu sempre soube que deveria cantar. Acho que sou realmente sortuda em poder escrever minhas próprias canções e fazer com que elas possam afetar as pessoas.

A ousadia em pisar terrenos distintos chamou a atenção de um selo majoritariamente dominado por nomes da cena alternativa inglesa. Casa de artistas como The Strokes, The Libertines, Belle and Sebastian, Antony and the Johnsons e Little Joy, a Rough Trade Records não tardou em oferecer uma proposta, vencer uma batalha entre executivos de A&R e ampliar o seu quadro com uma artista de irrefutável apelo comercial.

Eu não tenho mais nada a pedir, ou tenho? brinca. Senti que teria liberdade com eles. Daqui em diante o que eu quero é viajar e tocar muito para as pessoas que curtem as minhas músicas.

As primeiras canções começaram a ser buriladas há cerca de dois anos. Assim que teve em mãos um conjunto coeso o suficiente arrumou as malas para trabalhar com o produtor Commissioner Gordon (Lauryn Hill e Damian Marley), em Nova York. De volta a Londres após algumas sessões, juntou-se ao talentoso Al Shux, responsável pelo hit Empire state of mind, lançado pelo rapper Jay-Z.

Commissioner me ajudou a construir um feeling, dar um rosto ao trabalho. Mas foram as sessões com Al Shux que sedimentaram a minha visão. Ele foi fundamental e me ajudou a acertar os detalhes finais para o disco conta ela. Gravar esse disco foi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida. Apesar de confiar num repertório que havia sido testado em dezenas de shows em Londres, na Holanda e em Paris.

Odisseia romântica

A bordo de hits instantâneos como o single My baby left me e baladas de tirar o fôlego como Sad eyes, faz de Memoirs um álbum conceitualmente clássico, que espelha uma odisseia de contornos românticos. Entre a euforia da paixão e o vazio de uma decepção amorosa, Rox marca seu espaço como uma das mais promissoras cantoras deste início de década.

Construí canções sobre as diferentes fases do amor, e acho que o disco te carrega por uma montanha-russa de emoções observa. Espero que daqui a 20 anos ele possa sustentar o significado do que estou cantando. E que eu consiga chegar até lá e me conectar com as pessoas, com as suas histórias.

No enredo que conecta e dá sentido à ordem do disco, Rox parte de uma relação amorosa estável. Algumas faixas depois, rompimento, desesperança e frustração guiam versos sobre a perda de alguém que não lhe fez bem, até que, finalmente, ela se deixa levar por um novo amor. Tudo muito óbvio,

não fosse o seu inquestionável apuro melódico.

Acredito que a música ainda continua a funcionar como a trilha sonora da vida de cada de um de nós. E de uma maneira muito poderosa. Só de imaginar que uma música minha possa significar tanto a ponto de ser escolhida para um casamento me faz sorrir. Não tem jeito, sou uma romântica irrecuperável.

E, além disso, uma cantora de sonhos.