Livro de Claudia Mesquita relembra a inauguração do MIS

Jornal do Brasil

RIO - Um museu para a Guanabara, de Cláudia Mesquita, é um livro afinado com o gosto e as preocupações atuais do carioca. Pois trata de recontar um momento histórico de transformação do Rio cujas marcas fazem-se sentir ainda hoje, 50 anos depois. Com a construção de Brasília e a mudança da capital, em 1960, o então Estado da Guanabara dava a impressão de uma cidade inacabada, efeito das obras do governo Carlos Lacerda. Estão fazendo o Rio há quase 400 anos, mas ainda não aprontaram , notou, com humor, Stanislaw Ponte Preta numa crônica da época.

Além da abertura de túneis, a construção de viadutos, parques, aterros, a substituição dos bondes por transportes rodoviários, a remoção de favelas e demais formas de intervenção no espaço urbano, houve a chance, em meio às comemorações do 4º Centenário da cidade, de implantar uma política cultural que legou a criação da Sala Cecília Meireles, o Parque Lage, o Museu do Primeiro Reinado e o Museu da Imagem e do Som, inaugurado em 3 de setembro de 1965.

Fruto de uma dissertação de mestrado, o livro da historiadora Cláudia Mesquita não pretende como ela faz questão de esclarecer contar a história do MIS, mas narrar seu momento inaugural. É bom ficar claro também que Cláudia não quer discutir a figura de Lacerda, das mais controvertidas, embora apresente aspectos pouco explorados da sua trajetória intelectual e política.

A autora destaca o caráter inédito do MIS, cujo projeto rompeu com o modelo dos museus etnológicos e nacionais de então, sendo o primeiro audiovisual do país, antecipando um novo conceito de patrimônio. A começar pelas coleções adquiridas para compor o acervo: o arquivo privado do fotógrafo Augusto Malta, que contém o registro tanto de personalidades brasileiras Machado de Assis, Washington Luís, Santos Dumont, Ruy Barbosa como de pessoas anônimas em cenas cotidianas do princípio do século 20 vendedores ambulantes, operários, imigrantes, batalha de foliões no corso.

E principalmente o arquivo do compositor e pesquisador Henrique Foréis, o Almirante, cuja compra envolveu diretamente a participação de Lacerda e se constitui, pelo valor documental, a base do MIS. São discos raríssimos, milhares de partituras, livros, recortes de jornais referentes à música brasileira, instrumentos, fotografias, objetos de uso pessoal de cantores e compositores e até um mesa do Café Nice, onde, nos anos 30, reunia-se a papa fina de nossa música.

Entre as partituras, está a do samba Pedreiro Valdemar, de Roberto Martins e Wilson Batista, utilizada por Lacerda como analogia para a transferência da capital para Brasília: O Rio é o próprio pedreiro Valdemar, que fez casa para os outros e não tem onde morar .

O livro relembra como foi difícil a busca de um espaço para sediar o museu. Foi preciso uma grande reforma para devolver o prédio construído como Pavilhão do Distrito Federal para a Exposição Internacional de 1922 à sua edificação original.

A importância do Conselho de Música Popular Brasileira formado, entre outros notáveis, por Marques Rebelo, Lúcio Rangel, Eneida não é esquecida, como também sua iniciativa de gravar os Depoimentos para a Posteridade, cuja relevância praticamente salvou o MIS da extinção, em 1966, num momento político delicado.

Um museu para a Guanabara será lançado na segunda, a partir das 18, na livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37.