Texto de Maiakóvski, 'Mistério-bufo' ganha montagem inédita

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Uma troca de e-mails com poemas enviados de um lado para o outro, um encontro casual para um café, um grupo de estudos debruçado sobre livros, versos, roteiros de cinema, e, por fim, uma encenação experimental. Agora, passados dois anos desde o primeiro encontro entre os diretores Fábio Ferreira e Cláudio Baltar, 16 atores, bailarinos e acrobatas descem de rapel a fachada do Oi Futuro. É assim mesmo, ao ar livre, num ângulo de 90 graus com o chão, em meio ao movimento das ruas e sob os olhares atentos dos passantes que o elenco do espetáculo Mistério-bufo inicia sua evolução. Escrito em 1918 por Vladimir Maiakóvski (1893-1930), o texto, inédito no país, era descrito pelo próprio como um retrato heróico, épico e satírico da nossa época . Com estreia marcada para esta quinta-feira, nos espaços do Oi Futuro e do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), os diretores encaram o escrito como uma fábula sobre passado, presente e, sobretudo, como o sonho ou projeção de uma realidade mais poética.

Autor já previa mudanças

É uma fábula aberta à discussão sobre uma sociedade individualizada como a nossa e um futuro mais generoso sintetiza Ferreira. É um convite para pensarmos uma realidade diferente, que seja fruto da revolução do espírito sugerida por Maiakóvski, o seu desejo poético de um futuro melhor. Sentimos uma necessidade de pensar o futuro. Algo que foi abandonado por uma geração que estabeleceu a cultura do hoje. Esse texto é um grito do autor nesse outro sentido, e incluímos versos de sua obra que indicam esse olhar à frente, não apenas no presente.

O deslocamento histórico e espacial do texto cunhado por Maiakóvski para celebrar o primeiro aniversário da Revolução Russa não preocupou os diretores. Ao mesmo tempo em que o autor tinha consciência da temporalidade do contexto da peça, percebia também a atemporalidade de sua estrutura temática. Cientes de tais indicações, os diretores se valeram de mais outra deixa assinalada pelo dramaturgo russo: A todos aqueles que no futuro encenarem, apresentarem, lerem ou imprimirem Mistério-bufo, mudem, façam o seu conteúdo, o do seu próprio dia, do seu próprio momento , dizia o autor.

Atualizamos a peça com foco no futuro, que sempre está presente nos versos do autor explica Ferreira. Hoje, a expectativa não é a mesma daquela época, quando o novo regime comunista inspirava tempos melhores. Mas é justamente a visão e o entusiasmo de Maiakóvski que pode nos ajudar a fazer uma reflexão, num momento de previsões sombrias.

Na história, personagens divididos entre puros (burgueses) e impuros (proletariado) partem numa arca para recriar o futuro e o seu próprio papel no mundo sob a iminência de um dilúvio e do fim dos tempos. Apontada como a primeira peça inteiramente política da história do teatro russo, Mistério-bufo flerta com a linguagem circense, que ganha ênfase na montagem brasileira. Chama a atenção a cenografia idealizada pela dupla de diretores, com o auxílio do cenógrafo Sérgio Marimba: Uma grande arca, ponte, andaimes, cordas, estruturas metálicas, projeções em vídeo, efeitos com água, luz e som quadrifônico foram instalados para dar suporte à trama, conduzida por personagens como o esquimó, a operária, o especulador, o ministro e o poeta.

Maiakóvski e Meyerhold, que encenou a primeira montagem num circo, eram vanguardistas e romperam diversas estruturas cênicas e dramatúrgicas conta Ferreira. Esse texto é um divisor de águas na encenação moderna. E tanto pela experiência circense de Baltar à frente da Intrépida Trupe, como pela minha vocação performática encontramos uma possibilidade muito valiosa para tratar de uma fábula completamente antirealista como esta.

Baltar complementa:

Aqui, a magia do circo se mantém presente, seja na utilização de elementos acrobáticos como estafas, tecidos, cordas e hélices, ou de personagens clownescos e hiperbólicos.

Do início ao fim da peça, os atores descem de rapel pelas estruturas do Oi Futuro, seguem para as dependências do IAB e, ali, estendem seus passos pelo salão de exposição, no térreo, até o auditório, no andar superior. A encenação contínua por diversos espaços não é à toa. E simboliza o caráter libertário da obra do autor.

Para Maikóvski, teatro era efeito, no sentido de poder realizar a imaginação humana. Fora da caixa preta do modelo italiano, temos uma possibilidade mais livre de imaginação e fantasia diz Ferreira.

>> Em cartaz

Mistério-bufo

Oi Futuro, Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo (3131-3060). 4ª a dom., às 20h30. R$ 15 (Estudantes e idosos pagam meia). Estreia na quinta-feira.