Lançamentos revelam nova safra de escritores no sul do país

Ieda Magri e Fabio Silvestre Cardoso, Jornal do Brasil

RIO - Um é de Santa Catarina. O outro é do Paraná. Ambos são contistas e se destacam como representantes da atual safra de escritores do sul do país. Carlos Henrique Schroeder está lançando As certezas e as palavras, narrativas curtas, para serem lidas de um só fôlego, como atesta a resenhista Ieda Magri, e repletas de citações: Beckett, Piglia, Coetzee, Virgínia Wolff, Faulkner, Barthes, Borges, Paul Auster, Leminski, Baudelaire. Mais variáveis no tamanho, os relatos reunidos por Luis Henrique Pellanda em O macaco ornamental mostram um autor que escreve para ser lido, na avaliação de Fabio Silvestre Cardoso, mas que, nem por isso, é de fazer concessões. Com a diversidade, quem ganha é a literatura brasileira.

Carlos Henrique Schroeder

"Parece muy rebuscado, pero es muy simple: queremos que el cuento siga, y en ese instante el cuento se confunde con nuestro deseo, y eso basta para que siga eternamente, y no importa que se termine en la pagina seguiente. Embora a citação de César Aira continue, este pequeno trecho não poderia ser melhor escolhido para abrir As certezas e as palavras, de Carlos Henrique Schroeder.

O livro se estende sobre cinco palavras ser, apologia, travessão, suspiro e amém que funcionam como blocos montáveis reunindo contos e instantâneos, fulgurações, pensamentos ou o que quer se chamem as frases ou fragmentos como o título deste texto, o que no livro está mais próximo das precárias certezas transformadas em jogos de palavras. Vejo o túnel no fim da luz é um bom exemplo desse jogo que começa quando alguém perde. Se equilibrando entre uma afirmação e uma desconfiança do que dizem as palavras nuas, do que lhes atribuímos como significados esses instantâneos pouco ou nada têm a ver com os contos que enfeixam.

O muito rebuscado e o bem simples se superpõem o tempo todo nos 19 contos curtos, para serem lidos de um fôlego só. Entre citações de Beckett, Piglia, Coetzee, Virgínia Wolff, Faulkner, Barthes, Borges, Paul Auster, Leminski, Baudelaire... fica bem um e aí, mano? , um velho! , as gírias todas das conversas de malandros ou o tema banal e brega da dor de corno . Poucas vezes essa mistura dá certo, principalmente se tratando de autores tão diferentes entre si, o que faz ressaltar um gesto delicado e ao mesmo tempo ousado de costurar pensamentos, criar uma linha de montagem no conto que passa pelo corpo, por um modo de vida, antes de ser uma amostra de erudição. Schroeder faz com que suas personagens vivam o que ele lê e é pouca a distância entre elas e o autor pelo menos em um dos contos: O Aleph . Uma boa síntese para As certezas e as palavras: A vida é uma estante de livros .

Nenhum dos contos leva mais de cinco minutos para ser lido e cada um abrange o tempo de um flash, um corte, um vislumbre de tema, como que uma cena que ocupa um palco provisório e não precisa de desdobramentos no passado ou no futuro. Não há uma história pregressa e, em última instância, nada a ser contado. Só um fiapo de acontecimento que começa e termina num piscar de olhos. Um dos melhores contos do livro, Os recepcionistas , e um dos maiores em extensão, começa com uma chamada telefônica de um quarto a uma recepção de hotel. Embora esboce ao leitor o que é o calendário turístico de uma cidade que bem poderia ser Balneário Camboriú ou Florianópolis, mas que não está nomeada, Os recepcionistas quer dar conta apenas de um serviço que o atendente faz a um senhor de idade indefinível : o mundo miúdo dos pequenos favores cabe no trajeto de Ariel da recepção até o quarto do hotel.

O conto que nomeia o livro é, sem dúvida, o que tem um enredo mais elaborado. Embora seu mote sejam duas certezas de Cássio e sua fixação pela palavra opróbrio , um conto dentro do conto abre uma trama que dá conta também de duas certezas do narrador que devem, a todo custo, permanecer pensamento, sem virar palavra. O pequeno segredo abre espaço para o infinito e está inscrito de forma enigmática na história que Cássio arma:

Há na palavra opróbrio algo de indecente, até mesmo pornográfico, talvez seja a exposição indecorosa das letras o, sugerindo um casal e o filho assassinado com uma facada nas costas, ou ainda um casal e o filho punk. Não consigo vislumbrar nada em prol desta palavra, tampouco brio em duas sílabas espremidas entre vogais, sufocadas, reticentes, impróprias. Dentre as palavras com oito letras, ela é, sem sombra de dúvida, a mais perigosa. Esconde em suas letras a simbologia do assassinato: o P matou o R com a ajuda do O e uma faca aguda, e ainda com a ajuda de B jogaram o corpo no rio. Reparem que este é um momento revelador da língua portuguesa, talvez até o Hollanda e o Houaiss possam se levantar de seus túmulos; afinal, não é sempre que descobrimos que um substantivo masculino é, na verdade, um substantivo maldito, e que esconde um caso de amor entre duas palavras do mesmo sexo, e vizinhas: P e R .

Não é à toa que Formas breves, do argentino Ricardo Piglia, é lido por um dos personagens de Schroeder. Ele sabe que o conto precisa ir direto ao assunto e que sua essência está no esmero técnico. Como também o disse Cortázar, o conto se faz menos de o que diz e mais do como diz . O uso de elipses, do diálogo sem maiores caracterizações de espaço e tempo, o encadeamento de cenas que lembra o texto para teatro sem rubricas, a linguagem debochada e o ritmo vertiginoso são algumas das qualidades desse As certezas e as palavras.

Carlos Henrique Schroeder é autor de mais oito livros, entre eles os romances A rosa verde (Edufsc) e Ensaio do vazio (7Letras). É editor da Design Editora e vive em Santa Catarina.

Luis Henrique Pellanda

No conto que dá título ao livro O macaco ornamental, de Luis Henrique Pellanda, o narrador apresenta o homem contemporâneo como um bibelô, a ponto de se tornar mais uma peça nas muitas engrenagens da integração social. Um adorno desnecessário , conforme está escrito. Em certa medida, o texto vai de encontro ao que se imagina como conto ideal no presente momento literário. Qual seria esse momento? Momento de narrativas que estabelecem jogos com os leitores, algo como as piscadelas de um lado e de outro. Do lado de lá, escritores esbanjam erudição e repertório, mesmo quando se trata de apresentar uma literatura mais realista ou visceral. Do lado de cá, leitores se esforçam para ler como escritor e buscam desvendar essas piscadelas, num jogo que parece excluir os autores e público que não desejam ser confundidos, ou seja: os que escrevem para ser lidos; e os que não necessitam entender os meandros da criação literária para apreciar boa literatura. Nos 14 contos de O macaco ornamental, ambos os campos estão bem delimitados e não há qualquer mistura desnecessária.

O que não significa que Pellanda ofereça de bandeja seus textos para os leitores. Muito ao contrário. Há mesmo um toque de sutileza em suas narrativas, algo que torna as histórias menos previsíveis e mais reflexivas, estendendo a fruição e o prazer literário a médio e longo prazo. Nesse sentido, nota-se que no formato dos contos a obra de Pellanda já se faz singular. Isso porque em vez de estabelecer uma espécie de métrica ou número de caracteres uniforme para cada história, os textos variam conforme a densidade e a necessidade de cada narrativa e, por conseguinte, de cada personagem. Assim, enquanto Caldônia Beach é um texto que, pela extensão, se aproxima de uma novela, tendo em vista seu tamanho, há mesmo contos como Amigo vivo, amigo morto que se perpetuam na memória dos leitores pela sua brevidade e eficácia: de uma só vez, cortantes e objetivos.

Exemplo dessa última modalidade é Ingratidão . No conto, lê-se uma espécie de depoimento de um narrador anônimo acerca de seu envolvimento mais estável. Em síntese, é como se justificasse uma escolha brusca: Apesar de todos os cuidados e de seu afeto, te troquei por outra . Não é o caso de buscar aqui um eco do conterrâneo de Pellanda, o escritor Dalton Trevisan, até porque, mesmo no texto curto, Pellanda não é telegráfico. O que se lê e se consolida como estilo é a capacidade do autor de subverter panoramas até então definitivos: um relacionamento que deveria ser marcado pela cumplicidade e pelo sentimento de troca justa é retribuído pela superficialidade de uma impressão: Mas bastou um sorriso teu, só um, pra eu desejar que ela estivesse morta .

A propósito, nas narrativas de Pellanda, observa-se um elemento que está presente em todos os contos, a saber: a tentativa de ruptura com as expectativas do leitor. Em outras palavras, é como se o escritor utilizasse como técnica a proposta de suspender as certezas dos leitores das próximas cenas ou das reações seguintes das personagens envolvidas nos contos. Com isso, os contos ganham uma unidade que, de outra forma, talvez não tivesse tamanho êxito. Essa estratégia narrativa lida com a possibilidade de fazer o leitor não ser capaz de premeditar o que acontecerá no decorrer da história. É por essa razão que um final previsível fica distante: no limite, o autor trai as esperanças para um final feliz em suas histórias.

A chamada poética do bem inexiste em O macaco ornamental. Em vez de retratar de forma redentora os dilemas existenciais de sua geração, Pellanda prefere abordar certa inadequação de suas personagens com o tempo presente. Talvez por isso seja recorrente o tom testemunhal em seus textos, como se os protagonistas apresentassem sua respectiva versão para o fracasso e para a perda. É o caso de Duas cartas , em que a polidez epistolar dá lugar a declarações que revelam a visão de mundo dos envolvidos na narrativa.

Já em Chaleira , embora o tom memorialístico assuma proposta mais cômica, existe uma espécie de experiência transformadora, que, num primeiro momento, aventa com a possibilidade de desfrutar prazeres até então desconhecidos. No conto, o narrador-protagonista vê sua chance de se dar bem com uma garota naufragar quando encontra três irmãos gêmeos no caminho. Aqui, suavizado pelo tom cômico das cenas grotescas e quase fantásticas, o leitor está novamente diante da idéia de ruptura, que se consolidaria, ainda, em Ursa . No texto, em um misterioso hotel, abaixo de qualquer suspeita, o narrador vê sua trajetória alterada quando ganha de presente um inocente filhote de cachorro do dono do hotel. A partir daí, ao menos para o protagonista, a jornada torna-se incômoda e desagradável, já que até mesmo seu sono é alterado pela decisão de aceitar o brinde especial. Neste caso, o desfecho encontrado pelo autor chama a atenção porque se dá de forma mais sombria e explícita.

Enquanto muitos escritores badalados buscam a fama e o reconhecimento fundando-se em conceitos pouco sólidos como a ideia de geração, Luis Henrique Pellanda se destaca pelo estilo consistente e pela voz original, elementos que fazem de O macaco ornamental uma relevante e prazerosa experiência de leitura.