Ficção de Dau Bastos, tem como cenário o tráfico em Santa Teresa

André de Leones, Jornal do Brasil

RIO - Está escrito na orelha do romance Reima, de Dau Bastos, que a palavra-título significa doença e violência em potencial . Inspirado por acontecimentos reais ocorridos em fins da década de 90, o livro se articula a partir de uma série de personagens que vivem no meio de um conflito entre traficantes rivais. Melhor dizendo: personagens que, pelo menos até certo ponto, vivem apesar do conflito entre traficantes rivais, no esforço sobre-humano de quem leva uma vida subumana .

A topografia do romance não poderia ser mais carioca: temos dois morros (ou comunidades , como prefere o vocabulário politicamente correto), Cerro Corá e Prazeres, cujos traficantes ensaiam uma guerra que acabará se concretizando; entre um morro e outro, no meio do caminho e, portanto, do confronto, está um condomínio de classe média, o Equitativa, seus moradores e funcionários (destes, obviamente, muitos vivem morro acima).

A promiscuidade, literal e figurativa, corre solta. Favelados e condôminos, trabalhadores e bichos-soltos, policiais e bandidos, todos estão presos a uma ciranda brasileiríssima onde interesses particulares e coletivos se confundem e eventualmente se anulam. O futuro não parece muito diferente do presente e do passado, por mais que, ao final, renove-se a crença na normalidade seja lá o que isso significar. Logo, o sorriso que fecha o penúltimo parágrafo do livro não é exatamente feliz.

Para usar uma expressão presente em Reima, o painel composto acaba sendo o de uma (quase) sinfonia wagneriana: muito embora não sensibilize como talvez fosse a intenção, ela se espalha com ou por meio de seus personagens, os quais, de tanto se alimentar de paradoxos, acabam se tornando, eles próprios, paradoxos ambulantes. Temos a francesa Nicole, que vem ao Brasil à procura de Boiô, músico brasileiro que a deixou. Chegando ao Rio, não demora muito para conhecer e se envolver com Camarão, amigo de infância de Boiô e chefe do tráfico no Morro dos Prazeres. Entre pensamentos vagos e frases feitas envolvendo clichês tais como a revolução dos desvalidos e algumas barbeiragens rousseaunianas, Nicole se deixa alagar e por fim afogar na vida carioca, de tal forma que seu destino, embora previsível, ou talvez exatamente por isso, não poderia ser diverso, melhor ou pior.

É de Nicole a constatação: a noção de que o Rio, talvez mais do que qualquer outro lugar, é só superfície. Por essa superfície, trafegam sem rumo vários outros personagens, por assim dizer, arquetípicos, eventualmente caricaturais, mas nunca pobres (literariamente falando) ou desarticulados. Há, por exemplo, o porteiro Juca, líder comunitário no Morro dos Prazeres e também amigo de infância de Boiô e Camarão; Clara, a síndica do Equitativa, que busca inutilmente apoio do poder público diante do confronto que lançará o condomínio no olho do furacão; o preparador de originais Rodapé, ex-amante de Clara, um dom juan que entra em parafuso ante a possibilidade de ter contraído o vírus HIV; a jovem Manuela e seu pai, Gabriel, ela apaixonada por Rodapé e ele, outro ex-amante de Clara, sempre pronto para dar vazão aos seus instintos homicidas a fim de proteger a filha do conquistador e ex-rival.

Os personagens de Reima tateiam no escuro do purgatório em que vivem, procuram por uma qualquer normalidade, por um dia que seja sem a ameaça do pior, por algo como um intervalo silencioso entre o horror de ontem e o horror de amanhã. Quando não se perde em um certo maniqueísmo, Dau Bastos consegue sublinhar o hedonismo e a promiscuidade inerentes a um estado de coisas precário, sempre a um passo de ruir.