'Honey' é o vencedor e Polanski leva prêmio por melhor direção

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

BERLIM - A simplicidade narrativa de uma história cativante saiu vitoriosa da 60ª edição do Festival de Berlim, encerrada na noite de sábado depois de nove dias de competição. A produção turca Honey (Mel), de Semih Kaplanoglu, sobre a relação entre um apicultor de uma comunidade da zona rural e seu filho de 6 anos, cravou o Urso de Ouro de melhor filme da maratona, que este ano esteve repleta de dramas familiares. Foi a maior das pequenas surpresas reveladas pelo júri oficial, presidido pelo cineasta alemão Werner Herzog, que deu o Urso de Prata de melhor direção a Roman Polanski, autor do thriller O escritor fantasma (The ghost writer, no original). É um prêmio de conotações políticas, já que o diretor franco-polonês cumpre prisão domiciliar na Suíça, enquanto aguarda uma possível extradição para os Estados Unidos, onde é acusado de estupro de uma menor de idade, mais de 30 anos atrás.

Lamentos pelo telefone

Alain Sarde, produtor de O escritor fantasma, recebeu a estatueta em nome de Polanski e reproduziu um comunicado do diretor, que foi preso ao desembarcar na Suíça em setembro do ano passado, quando foi receber um prêmio especial no Festival de Cinema de Zurique. Estrelado por Ewan McGregor e Pierce Brosnan, o filme será

distribuído no Brasil pela Paris Filmes com estreia em 1º de maio.

Polanski disse: Lamento não poder ir a Berlim. Mesmo se eu pudesse, não iria, porque da última vez que compareci a um festival acabei na cadeia disse Sarde, que conversou com o cineasta (vencedor do Oscar por O pianista) pelo telefone.

Quem esteve ausente da cerimônia mas foi acordado a tempo de participar da entrevista coletiva com os vencedores, que se seguiu à premiação, foi o ator-mirim Bora Altas, que se transformou na sensação do festival desde a primeira exibição de Honey, na terça-feira passada. No filme de Kaplanoglu, o garoto interpreta o pequeno Yusuf, que enfrenta dificuldades na escola por causa da gagueira, e que passa a maior parte do tempo com seu pai na floresta, aprendendo sobre os segredos da natureza. Quando este desaparece depois que uma misteriosa epidemia ameaça a sobrevivência da família, Yusuf sai em busca do pai até os recantos mais perigosos da mata.

Rodado nas exuberantes florestas das regiões montanhosas do interior da Turquia, o filme centra seu poder no carisma e no desempenho tocante de seu pequeno protagonista. Dispensa, inclusive, o auxílio de trilha sonora na elaboração do clima dramático.

A relação entre pai e filho e a relação que os dois têm com a natureza são os dois elementos mais importantes de Honey explicou Kaplanoglu ao receber seu troféu.

O candidato russo How I ended this summer, de Alexei Popogrebsky, e o romeno If I want to whistle, I whistle, de Florin Serban, saíram de Berlim com dois prêmios cada um. O primeiro, sobre dois homens que trabalham em uma estação meteorológica em um ponto remoto do Círculo Ártico, isolado de tudo e de todos, ganhou o Urso de Prata de melhor atuação masculina, dividido entre seus dois intérpretes, Grigori Dobrygin e Sergei Puskepalis, e o de contribuição artística. O segundo, um drama carcerário que segue os passos de um jovem delinquente prestes a sair da cadeia que entra em desespero quando descobre o plano da mãe para levar seu irmão mais novo com ela para a Itália, levou o Grande Prêmio do Júri e o troféu de melhor inovação cinematográfica.

Fico muito feliz de me ver na companhia de diretores romenos como Cristi Puiu, Corneliu Promboiu e Cristian Mungiu, e vários outros realizadores premiados recentemente em festivais mundo afora disse Serban ao receber seu prêmio. Fiz este filme para os romenos e espero que esses troféus atraiam a atenção deles. Já atraiu a atenção do nosso presidente, que nos ligou para avisar que estará na pré-estreia do filme na Romênia.

O Urso de Prata de melhor roteiro ficou com outra história envolvendo famílias partidas: Apart together, escrito e dirigido pelo chinês Wang Quan'an, que abriu a competição. Conta a historia de um ex-combatente da guerra civil que fundou a República da China em 1949, que retorna a Xangai 50 anos depois de fugir para Taiwan para reencontrar o amor de sua vida, hoje casada com um ex-sargento do Exército comunista chinês.

O prêmio de melhor interpretação feminina foi para Shinobu Terajima, coprotagonista de outra produção asiática, o japonês Caterpillar. Dirigido por Koji Wakamatsu, o filme fala sobre um soldado que voltou da segunda guerra sino-japonesa (anos 40) condecorado, mas mudo e sem os braços e as pernas. Shinobu encarna os dilemas pessoais de sua mulher, na qual são jogadas todas as expectativas sobre o comportamento da mulher japonesa durante os tempos de guerra e paz. Exit throught the gift shop, de Banksy, Greenberg, de Noah Baumbach), Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, The killer inside me, de Michael Winterbottom, produções de língua inglesa que já havia sido exibidas no Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, em janeiro, foram lembradas pelo júri, que tinha a atriz americana Renée Zellweger como membro.

Público elege brasileiro

Os documentários Lixo extraordinário, sobre o trabalho desenvolvido pelo artista plástico Vik Muniz com os catadores de lixo do Lixão de Gramacho, codirigido pelo brasileiro João Jardim, e Brudus, produção americana dirigida pela carioca Julia Bacha, sobre o muro divisório construído por israelenses em território palestino, foram eleitos pelo público como os melhores filmes da mostra Panorama, a seção paralela mais importante do festival. Outras quatro títulos brasileiros participaram da maratona: Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, e Bróder, de Jeferson De, ambos na Panorama, e de Os famosos e os duendes da morte, de Esmir Filho, na mostra Generation14Plus, voltada para as plateias adolescentes e jovens, além do curta Avós, de Michael Wahrnann.