Artistas franceses lançam folhetim gráfico sobre estudante parisiense

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A empreitada parece heróica ou no mínimo, atlética. A partir do próximo de 1º de março, um roteirista e 14 ilustradores franceses vão atualizar, diariamente, uma novela em quadrinhos disponibilizada na internet para um grupo de assinantes, e que poderá ser lida em qualquer suporte, seja no computador do trabalho (se o chefe deixar), na tela do telefone durante uma pausa na reunião, ou até mesmo no iPod-touch em meio ao cooper matinal.

Intitulada Les autres gens ( As outras pessoas www.lesautresgens.com), colocará em cena diversos personagens, e será dividida em temporadas. O assunto? Um pouco de tudo , anuncia o trailer oficial do projeto, que já circula em streaming no YouTube: Vida, amor, metereologia, política, sacanagem... ahãn... E grana, também. Velhos, jovens, vida profissional... Reformulando: uma história com a UMP (tradicional partido francês), sexo, família, dinheiro, amizade e amor, traições, ação, viagens e Paris... Com personagens como você e eu, só que diferentes .

Trata-se, afinal, de um projeto com a amplitude da vida: uma história contendo diversas outras, transitando pelos mais variados temas. Como se passará em tempo (quase) real, promete repercutir fatos da atualidade, sejam eles políticos, culturais ou esportivos. O certo é que ainda não se viu nada igual nos quadrinhos e na internet.

A ideia é explorar a vida dos personagens a partir do percurso de uma jovem esclarece o roteirista e criador do projeto, Thomas Cadène. Trata-se de uma ficção mais ou menos sociológica, desenhado por autores diferentes, e que nos permite tratar de vários assuntos.

Todo dia, um novo episódio de três a cinco páginas será colocado no ar, podendo ser acessado mediante uma assinatura mensal de 3 euros (cerca de R$ 7,5). A protagonista é Mathilde, uma estudante parisiense. A novela começa quando a jovem ganha na loteria, quase sem querer, e se vê subitamente diante de uma pequena fortuna. A riqueza inesperada começa a embaralhar a sua vida e a de todos os personagens que gravitam em torno dela, família e amigos da universidade.

O traço dos desenhos será variado, já que 14 quadrinistas, todos saídos da nova geração francesa da chamada nona arte, irão se revezar na feitura de cada capítulo (ao longo da novela, é possível que também participem alguns autores convidados). Um mesmo personagem pode assumir diferentes características gráficas. Para não confundir o leitor, foi bolado um sistema para acompanhar a novela, que funcionará como uma espécie de ficha técnica, introduzindo os tipos (recorrentes ou não) presentes no episódio. Assim, o leitor pode assimilar quase automaticamente o universo gráfico do episódio que lerá, sem ficar se perguntando que tipo de cara cada personagem vai ter.

Ao chamar os ilustradores que iriam colaborar, fiz questão que todos tivessem um estilo realista o suficiente para que se pudesse retomar os personagens e os cenários sem provocar uma ruptura explica Cadène. Todos, aliás, tiveram que se conformar com a característica física dos tipos. Tirando esta única exigência, cada estilo é um acréscimo, uma riqueza a mais. Acima de tudo, não atrapalham em nenhum momento a leitura, creio eu.

Para manter a harmonia, é preciso organização e controle sobre o trabalho dos colaboradores. Cabe ao quadrinista Erwann Surcouf verificar se os episódios (desenhados ao mesmo tempo por todos) estão bem encadeados, sem erros de transição (visual, cenários atitudes, etc), podendo inclusive propor modificações aos seus colegas.

Na verdade, a nossa maior dificuldade não são os diferentes estilos gráficos, e sim de ser coerente na mise en scène de cada personagem avalia o quadrinista e colaborador Bastien Vivès. É por isso que fazemos sempre releituras e que alguns autores revisarão o trabalho de todos, buscando problemas nesse sentido. Todos os personagens já estão definidos. O que é complicado é harmonizar e tornar coerente a interação entre eles.

A possibilidade de interagir com os fatos da atualidade em tempo (quase) real é sedutora. Mesmo que com alguns limites, já que os episódios são concebidos com um mês de antecedência.

Se a atualidade tem relação com a história, é certo que o roteirista vai incorporá-la diz Vivès. Espero que possamos fazer um especial Copa do Mundo, ou Volta da França... Quem sabe até um especial Tougeki 2010 (torneio anual de jogo de lutas em video game)... mas enfim, vai depender da boa vontade do roteirista.

Seu colega Vincent Sorel completa:

Acho muito interessante falar do mundo real, do mundo ao nosso redor, com conflitos e debates do dia a dia. No momento, o fato de desenharmos com muita antecedência nos impede de estar realmente no coração da atualidade, de poder repercutir uma frase de Nicolas Sarkozy, por exemplo. Mas queremos encontrar meios de ir nessa direção, porque permite ao leitor de se reconhecer na vida dos personagens.

Apesar das dificuldades técnicas, iniciativas como a dos autores de Les autres gens podem começar a se multiplicar na internet, que se tornou um terreno fértil de experimentação para os quadrinistas, cada vez mais livres das limitações impostas pelas editoras. Mais do que nunca, novos paradigmas artísticos e comerciais começam a se desenhar no horizonte.

Na equipe de Les autres gens, há pessoas que estão experimentando coisas realmente interessantes na web, como Erwann Surcouf ou Bastien Vivès aponta Cadène. Acredito que há muita coisa a ser feita, mas claro que ainda existe a dificuldade no aspecto econômico de tudo isso. É um pouco a aposta do nosso projeto. Esperamos que os leitores nos sigam diariamente, aceitando pagar por nosso trabalho mesmo nesse universo da web, onda há tanta coisa gratuita. Para isso, colocamos um sistema que nos permite oferecer uma verdadeira quantidade e qualidade, além do aspecto folhetinesco do conjunto.

Para Erwann Surcouf, o universo online ainda mal começou a ser desbravado.

Como autor, acho que a web é uma ferramenta incrível de difusão, e que oferece uma espontaneidade super estimulante exulta. No meu blog (Doubleplusbon), eu me divirto com experimentações de toda espécie, gráficas e narrativas. Agora, qualquer leitor pode não apenas ter acesso, como também discutir com seus amigos no outro lado do mundo. Por enquanto, ainda é um faroeste: blogs e projetos espontâneos nascem e morrem todos os dias, mas pouco a pouco estruturas acham seu lugar e juntam as pessoas. Les autres gens é apenas uma das primeiras etapas desta mutação. Muita coisa ainda está para ser descoberta.