Woodstock à brasileira

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Enquanto o circunspecto e obstinado Roberto Medina organizava cada minúcia de sua mais nova fantasia a realização do maior festival de rock do mundo o assistente de ilustração Cid Castro sonhava tão alto quanto. Guardadas as devidas proporções, é claro, ele esboçava às escondidas a marca do evento, criação que de jeito algum seria feita por alguém com tão pouca experiência nos escritórios da Artplan Promoções. Sobre um fundo preto e um globo azulado, uma guitarra posicionada sobre a América do Sul e centrada no Brasil sintetizava o projeto. Vinte e cinco anos mais tarde, o autor da logomarca decide revisar sua história. Em primeira pessoa, narra com riqueza de detalhes, formas e cores episódios ainda obscuros por trás do primeiro Rock in Rio. Lançado pela editora Tinta Negra, Metendo o pé na lama descreve, com frescor, as sensações de quem viveu intensamente a euforia dos 10 dias seguidos de rock'n' roll, como também de alguém que acompanhou, no olho do furacão, toda a sua infernal produção.

Nada a ver com o rock

Numa prosa solta, escrachada e bem-humorada, o publicitário, que há 21 anos mora em Portugal, destrincha as dificuldades em conseguir patrocinadores para a loucura idealizada por Medina, revela os obstáculos de interesse político travados com o governo e conta os esforços para amainar os endiabrados egos e cachês, além das peculiares exigências dos astros internacionais.

O Medina sempre foi muito arrojado lembra Castro. Ele tinha trazido o Frank Sinatra, o Julio Iglesias, mas rock não tinha nada a ver com ele. Era um sujeito clássico, usava o cabelo para trás. Achavam que ele havia pirado, ou que era só um devaneio. Noventa por cento das pessoas eram contra. O festival ficou perto de não acontecer por muitas vezes. Tivemos muitos problemas. Acabou dando um grande prejuízo, mas foi um verdadeiro marco. A minha história serve para avivar a memória.

De volta à gênese do logotipo do RiR, o então ilustrador iniciante recorda-se que racionalmente, meter-se no trabalho do diretor de arte era uma furada. Mas emocionalmente ecoava outro recado: Vai fundo, bota para f...! , dizia para se encorajar. Começou a labutar paranoicamente. Comprou uma enciclopédia do rock, ilustrada com grandes fotos, rodou a vitrola com uma série de vinis, de Yes a Sex Pistols, e, no mesmo ritmo frenético das guitarras, o bloco de papel-manteiga se enchia de rabiscos. Após uma imersão em livros e uma ousada investida do então redator Nizan Guanaes, uma folha de papel foi arrancada do bloco, viajou pelo elevador e aterrissou na mesa de Roberto Medina.

Mandaram todos os diretores de arte pararem de trabalhar. O Medina me deu os parabéns e disse que eu havia encontrado o logo do Rock in Rio. Todo mundo queria me fuzilar lembra Castro.

Os tais bastidores mostram a banda de metal Whitesnake substituindo a doideira por sucos naturais e flexões, comandados por um personal trainer. Castro testemunhou o piti de Freddie Mercury, que alegava indisposição e se negava a entrar no palco, além de ter presenciado o sufoco da produção em percorrer, às pressas, os motéis da Barra e de Jacarepaguá para satisfazer a uma exigência de última hora de Rod Stewart: 70 toalhas brancas em seu camarim.

Stewart estava absolutamente antissocial, quase destruiu o estúdio usado para os ensaios. Foi um absurdo contornar tudo isso, mas completamente maravilhoso assistir, do palco, a magia desses artistas.