Haiti: a notícia televisiva em meio ao caos

Paulo Ricardo Moreira , Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Os jornalistas das principais emissoras de TV brasileiras que estão em Porto Príncipe, no Haiti, comparam a devastação causada pelo terremoto ao efeito de um bombardeio. O cenário é de guerra, dizem. Em meio à catástrofe, eles trabalham cerca de 20 horas por dia, convivendo com mortes e o drama dos sobreviventes. As condições de trabalho são precárias, já que há dificuldades para transmitir as imagens, para se comunicar com as emissoras e para se locomover na cidade destruída.

Tudo é difícil nessa cobertura. Os corpos estão jogados pelas ruas, as pessoas pedem comida e água o tempo todo conta Lília Teles, correspondente da Globo, uma das primeiras a chegar ao Haiti. A maior tristeza é a sensação de impotência que a gente sente diante da fome e do sofrimento das pessoas.

O trânsito caótico tem sido outro obstáculo ao trabalho. Rodrigo Alvarez, outro correspondente da Globo, relata que, desde segunda passada, os engarrafamentos pararam a cidade, porque quase não há semáforos funcionando. Segundo ele, o mototáxi é o transporte mais usado pelas equipes, por ser mais rápido. Quando dá, eles pegam carona com os militares brasileiros.

A gente topa qualquer veículo sobre rodas que possa nos levar até o destino diz Lília.

Há muita poeira e calor, além do cheiro terrível nas ruas por causa dos corpos em decomposição. Tudo isso dificulta ainda mais o trabalho.

Jamais vou esquecer o que estou vivendo aqui. É uma marca impossível de apagar. É como ir a uma guerra garante Rodrigo Alvarez.

Para chegar ao Haiti, Heloísa Villela, correspondente da Record, percorreu um longo caminho o mesmo feito por outros jornalistas brasileiros. Voou para Santiago, na República Dominicana, de onde seguiu a viagem de carro, por sete longas horas, em estradas esburacadas e sem asfalto. No caso dela, ainda teve um contratempo: um pneu furado. No blog da emissora, Heloísa descreveu o cenário que encontrou na capital como um amontoado de escombros, de gente perdida e de desesperança :

Dentro da cidade, a realidade é de embrulhar o estômago e cortar o coração. Gente andando pra lá e pra cá, com malas, cestas, tinas cheias de coisas. Aparentemente, levando o que sobrou, quem sabe para onde.

Este é o segundo terremoto que Fábio Pannunzio, correspondente da Band, está cobrindo. O primeiro foi no Peru, em 2007. No Haiti, ele ressalta o trabalho do exército brasileiro, que é muito querido e está fazendo tudo que os outros não querem fazer, como recolher corpos e distribuir comida :

A morte e o sofrimento são uma constante, isso aqui é um inferno. O cenário é de uma pobreza gritante, uma miséria aviltante e uma população cordata diante disso tudo. Eles mal se emocionam com a tragédia deles mesmos.

Alojados em tenda do exército

Além dos enormes problemas de comunicação e de envio das imagens para o Brasil, o correspondente Sérgio Utsch, do SBT, destaca outra dificuldade: transmitir com racionalidade uma situação irracional e resumir a história de famílias inteiras que deixaram de existir, de milhões de pessoas que vagam nas ruas à procura de água e comida em algumas linhas de reportagem.

Temos trabalhado de 15 a 20 horas por dia. Dormimos pouco e mal, mas sabemos que para os haitianos a situação é muito pior. Isso torna a nossa responsabilidade ainda maior afirma Utsch.

Os jornalistas brasileiros estão hospedados numa grande tenda montada na base militar brasileira, em Porto Príncipe. Dormem em colchões colocados no chão e forrados apenas com lençóis, tomam banho e comem no bandejão dos soldados. Não há conforto, mas Sérgio Utsch faz questão de frisar:

É como um hotel cinco estrelas se comparado à situação das ruas.

Rodrigo Alvarez revela que a barraca de campanha começou abrigando 12 jornalistas e hoje tem mais de 21 pessoas, incluindo alguns penetras . Enquanto a maioria passa a noite na tenda coletiva, Fábio Pannunzio conta que prefere dormir numa barraca própria, que comprou na República Dominicana. Já as mulheres têm mais conforto e dormem num alojamento. Lília Teles diz que o local é um oásis em meio à tragédia.

Por causa da superlotação da base, não temos toalha, travesseiro ou cobertor conta o jornalista da Globo.

Quase sempre, os correspondentes enviam suas matérias no último minuto, devido às distâncias que percorrem do local da apuração até o centro de geração das imagens. Segundo Rodrigo Alvarez, já há oferta de geração por satélite de várias empresas prestadoras de serviço e a internet da base militar brasileira, que se transformou numa espécie de lan house gratuita, tem uma das melhores conexões que ele já usou:

Nos primeiros dias, a comunicação era só via telefone por satélite. Agora, muitos celulares com roaming internacional já funcionam.

Fazendo coro ao correspondente da Globo, Sérgio Utsch diz que a internet do exército é a única confiável no país:

Temos tido sorte nesse sentido, porque conseguimos enviar material todos os dias pela internet ou pelas agências internacionais que alugam horários em satélites para gerar imagens para o Brasil.