Grupo Tapa volta ao Rio em março, com a montagem de 'O ensaio

Daniel Schenker , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Eduardo Tolentino de Araújo vai transitar com intensidade entre o clássico e o contemporâneo no primeiro semestre de 2010. Grupo que surgiu no Rio de Janeiro, em 1979, o Tapa, conduzido por Tolentino, voltará à terra natal com a montagem de O ensaio, de Jean Anouilh, agendada para estrear na Caixa Cultural entre em 11 de março. O diretor também desembarcará na cidade em maio para começar a ensaiar com Sergio Britto e Suely Franco Recordar é viver, texto de Helio Sussekind, autor com quem mantém contato desde que apresentou por aqui as montagens do Panorama do Teatro Brasileiro Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, e Rasto atrás, de Jorge Andrade.

Sete montagens de volta

Sou amigo da Flora Sussekind, irmã do Helio, há muito tempo. Ele veio assistir a estes espetáculos e escreveu um texto a partir deles. Daí em diante, passou a me mandar suas peças. Mostrei Recordar é viver para Sergio, que ficou fascinado. Quero ainda fazer outro texto dele, Meu pincel quer penetrar no teu coração anuncia Tolentino.

Se no Rio a agenda de Tolentino está agitada, em São Paulo, então, nem se fala. Um outro Panorama do Teatro Brasileiro retorna aos palcos da capital, reunindo sete montagens ligadas ao Tapa, mas não produzidas pelo grupo. Entre elas, apenas uma é assinada por Tolentino: A moratória, de Jorge Andrade. Antiga componente da companhia, Clara Carvalho dirigiu Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues; Brian Penido Ross ficou encarregado de Doroteia, de Nelson, e Pedreira das almas, de Andrade, com seu grupo, o Das Dores; As viúvas, reunião de peças de Arthur Azevedo, é capitaneada por Sandra Corveloni; Mão na luva, de Oduvaldo Vianna Filho, tem direção e interpretação a cargo de Isabella Lemos e Marcelo Pacífico; e Natureza morta, de Mário Viana, ganha concepção de Eric Lenate. Não é tudo. Tolentino está reestreando Cloaca, de Maria Goos, e se preparando para ensaiar Vestir os nus, sua nova incursão no universo de Luigi Pirandello, autor que visitou nos últimos tempos através das encenações de Amargo siciliano e Sonho... ou não.

Pirandello é um autor fascinante, que, na minha opinião, influenciou Nelson Rodrigues. As montagens que venho realizando a partir de textos dele vêm do meu desejo de trabalhar com a dramaturgia da Itália. Há um dado importante: a influência da colônia italiana é forte em São Paulo. Também queria fazer peças de autores como Goldoni e Eduardo de Filippo. Mas uma vida não é suficiente para tudo explica Tolentino.

Desde 2001, os espetáculos do Tapa têm sido mostrados em espaços variados de São Paulo, uma realidade diversa para uma companhia que passou cerca de 15 anos sediada no Teatro da Aliança Francesa.

Hoje há um sucateamento dos teatros. Você tem que dividir espaço com quatro ou cinco produções. Por outro lado, há mais liberdade, porque precisávamos pautar o teatro com antecedência compara Tolentino, lembrando que o Tapa possui um galpão na Barra Funda. Queremos construir uma sala de apresentações para trabalhos de câmara.

Desestabilizações eventuais não inviabilizaram a continuidade do Tapa, que mantém sua proposta de teatro de repertório, mesclando dramaturgia de todos os séculos, brasileira e internacional, em montagens realistas.

O público só pode curtir a desconstrução se conhecer o texto. Gosto de desconstruções, mas elas nunca me deram tanto prazer quanto ver uma Medeia na íntegra avalia Tolentino.

A proposta do Tapa se traduz em corajosa resistência numa época em que encenar grandes textos deixou de ser tão valorizado como em décadas passadas.

Não acho que um povo tenha menos talento do que o outro. O que há são condições diferentes de trabalho. No Brasil temos uma tradição de teatro de protagonista, desde João Caetano. A geração de atores da Fernanda Montenegro rompeu com isto assinala Tolentino.

Foi nos anos 70 que os integrantes do Tapa deram seus primeiros passos, a partir do encontro no curso promovido por Sergio Britto no Teatro dos 4, sociedade firmada por Sergio, Mimina Roveda e Paulo Mamede norteada pela encenação de textos sólidos.

Fizemos Viúva porém honesta e Pinóquio no horário alternativo do Teatro dos 4, que foi uma das influências do Tapa. Entretanto, nosso modelo foi diferente. O Teatro dos 4 estreou como um palco consagrado. Nós seguimos trabalhando com pessoas da nossa geração, que ninguém conhecia diz Tolentino. Os sócios me convidaram para dirigir um texto de Pirandello, mas não me sentia preparado. Era a constatação de que sucumbiria diante do texto e dos atores. Precisava dominar mais o meu ofício.

Aos poucos, o Tapa começou a trabalhar com atrizes mais experientes, como Nathalia Timberg e Beatriz Segall.

Com os atores novos tive que me reinventar para explicar o meu ofício; com os mais velhos agradeço pela paciência de terem esperado eu ficar pronto.

A mudança do Tapa para São Paulo, em 1986, representou uma tomada de posição da companhia em relação à situação do teatro no Rio, apesar de ter ocorrido por acaso, durante uma turnê de O tempo e os Conways, de J. B. Priestley.

Tivemos a chance de fazer uma residência no Teatro da Aliança Francesa, que não era muito ambicionado por ficar numa área decadente da cidade. O espaço era do tamanho ideal para nós recorda.

Mas os integrantes do grupo percebiam que São Paulo seria um terreno mais fértil para o desenvolvimento do trabalho.

Se continuássemos no Rio montaríamos espetáculos para ficar dois ou três meses em cartaz. Os atores provavelmente iriam para a TV. Sucumbiríamos às leis de mercado ou encerraríamos nossas atividades. Em São Paulo mantivemos elenco fixo e com salário afirma.

Pagamos para trabalhar"

Clara Carvalho se mudou junto com o Tapa. Fiel ao grupo, ganhou os prêmios Mambembe (por Ivanov, de Tchecov, em 1998) e Shell (por Os órfãos de Janio, de Millor Fernandes, em 2002).

Adoro trabalhar com Tolentino. Ele dá liberdade ao ator. Nós nos tornamos criadores dentro dos espetáculos elogia Clara.

Passados tantos anos, o Tapa mantém a sintonia com a vocação de amador, termo presente na sigla que intitula a companhia (Teatro Amador Produções Artísticas).

Permanecemos como um grupo amador, no sentido de que muitas vezes pagamos para trabalhar ao encenarmos textos que consideramos importantes e desafiadores. Ganho mais no mercado do que dentro do Tapa, ainda que seja mais valorizado por causa da companhia. E somos amadores no sentido de não nos burocratizarmos, de não deixarmos de amar o que fazemos resume Tolentino.