Poder, glória e morte do romance

Raimundo Carrero*, Jornal do Brasil

RIO - A publicação recente do livro A cultura do romance (CosacNaify), organizado por Franco Moretti, coloca a ficção no centro dos debates literários e culturais imediatos. Algo que parece antigo e que, no entanto, se renova a todo instante, sobretudo numa época em que a tradição é profundamente desrespeitada. É por isso que se proclama a morte do romance que, aliás, não pode morrer, pelo simples fato de que não existe. O romance não existe? Não, não existe. Faz tempo foi morto e sepultado. Só não viu quem não quis.

Foram tantas as revoluções, tantas as mudanças, tantas as alterações radicais, que o romance precisou morrer para viver; numa espécie de ascetismo que, parece, a própria Igreja Católica agora desconhece. Não foi sem espanto que, no começo do século passado, portanto há um século, Georg Lukács viu esta morte tão próxima posição revista depois. E que Ferenc Fehér tentou restaurar tempos adiante em O romance está morrendo (Paz e Terra, 1977), com brilhante introdução de Leandro Konder. É natural, assim, que a ficção, ao longo de sua vida e sobrevida, tenha enfrentado tantos obituários e profecias. Basta um olhar na história.

O livro A cultura do romance parte ainda menor de um projeto ambicioso que engloba mais quatro volumes aborda várias questões essenciais em artigos assinados por Mario Vargas Llosa, por exemplo cujo trabalho já se tornou clássico; ou, como se dizia antigamente, já nasceu clássico e é dividido em quatro grandes painéis : O romance se faz espaço , Narração e mentalidade , Gente que escreve, gente que lê e Narrar a modernidade , que mostra a dimensão do esforço de Moretti. E, em certo sentido, chega a dividir, em dois, o escritor e o autor de romances, segundo a expressão de Benedetto Croce, registrada no artigo O romance é concebível sem o mundo moderno , de Claudio Magris e já estamos na página 1013. Uma ironia, sem dúvida, uma grave ironia, até porque Croce se referia a Alberto Moravia, um notório vendedor de histórias, descuidando da estética ficcional.

Não é, sem razão, que Magris acentua: Croce não parece um adepto do romance, elegendo a poesia como centro da estética literária. Aí temos o início de um debate que se anuncia, por assim dizer, eterno. Na verdade, Lucáks tinha razão quando procurou e não achou nos romances do século 19 aquela construção artística que moveu a epopeia. Até pelo óbvio: romance é romance, epopeia é epopeia. Dois tipos de literatura essencialmente opostas. A epopeia, pela própria natureza, a reunir poema e prosa, épica, enquanto o romance, sobretudo a partir de Dom Quixote, envolvido no particular, no privado, mais solitário do que qualquer outra manifestação artística. Konder chama a atenção para este detalhe seria mesmo apenas um detalhe? de fundamental importância para a história do romance.

Dom Quixote se movia com base num a priori abstrato diante da vida. Os romances do século 19 prescindem desse a priori e se fundem em outro tipo de adaptação: seus heróis não partem para a ativa correção do mundo. Limitam-se a sofrer em decorrência do fato de que a alma deles é mais ampla do que os destinos que o mundo pode lhes oferecer. Perde-se, então, toda e qualquer simbolização épica, a forma se dissolve em uma sucessão nebulosa de estados d'alma, a fábula cede lugar à análise psicológica. O ponto alto dessa segunda espécie de romances seria segundo o Lukács de 1916 a Educação sentimental, de Flaubert. Vem daí, ironicamente, as expressões escritor e autor de romances , tendo o primeiro um alto grau de afirmação estética, e o segundo um desejo continuada de apenas contar histórias. Entreter.

Mas não é sem sentido dizer que Joyce procurou os caminhos do romance moderno tenho medo sempre das expressões moderno, pós-moderno, contemporâneo tanto na estética literária quanto na épica, tendo, por isso mesmo, retomado a figura do herói epopéico e solitário, sozinho, ao mesmo tempo: Ulisses. Não é por acaso que essas coisas acontecem. Procurava-se filiar à antiga tradição sem deixar de lado e, portanto, sem esquecer, os estados d'alma do homem contemporâneo. Ou não é Ulisses, a seu modo, uma epopeia? Ou não é Ulisses, também a seu modo, um Dom Quixote, tentando derrotar os moinhos de vento do homem solitário e aflito? Sem esquecer, também, que a teologia é um dos temas básicos da obra de Joyce. Deus no centro do destino humano há toda uma teologia em Retrato do artista quando jovem ou até mesmo em Ulisses, cujo início se dá com uma bênção religiosa. No Brasil, a retomada da epopeia sem que o romance perca as contribuições da modernidade estão, por exemplo, em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, com seus heróis Riobaldo, de um lado; e Quaderna, do outro revendo o mundo com seus feitos brilhantes, enquanto mergulham numa luta interior, ainda que não psicológicas, para efeito de análises.

A barreira da tradição

Enquanto Ulisses rompe a barreira da tradição embora com ela e nela em busca da epopeia e junto com o romance de Dostoiévski e Tosltói para citar os mais extraordinários do século 19 reúne-se a Flaubert o Flaubert técnico e revolucionário das formas literárias e a Dujardin o criador do monólogo interior para avançar na proposta de um novo e grande romance do século 20. O homem definitivamente entregue à sua solidão. Portanto, talvez a partir daí e apesar das experiências anteriores, o romance vá se tornar, sem dúvida, o romance mesmo, com suas amplas possibilidades de renovação e, logo em seguida, perdendo algumas características, morto e sepultado, com os caminhos que vão se abrindo ao longo dos séculos. Em Joyce, já com Finnegans Wake, a técnica do romance tradicional desaba completamente, embora nos anos posteriores avance em pontos decisivos e tente o retorno em outros. Sem falar mais tarde no novo romance francês, com Alain Robbe-Grillet e Nathalie Sarraute, entre outros. O romance, na sua feição tradicional, está morto. E para sempre.

Chegamos a um impasse? Não, há um verdadeiro e radical impasse? Não. A pluralidade e a heterogeneidade marcam as veias abertas da ficção. Por exemplo, os bons contadores de histórias, ou autores de romances , têm, é claro, a preferência das editoras, e, em dose ainda maior, dos leitores, enquanto os artífices do romance, da novela e do conto, procuram contribuir para os caminhos que se abrem. Alguns, inclusive, procuram a conciliação. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Chegamos ao que costumo chamar de simplicidade com sofisticação, cujo mestre em absoluto, é preciso dizer, vem do século 19. Chama-se Machado de Assis, o Bruxo. Nessa linhagem, procura-se a sofisticação técnica, o artesanato, a elaboração paciente, sem perder de vista a simplicidade que seduz o leitor comum. Lembre-se, ainda, aqui, o trabalho de Autran Dourado, estratégico e a lançar mão do lugar-comum.

Uma versão da história

Dom Casmurro torna-se um dos romances mais sofisticados da literatura ocidental justo por reunir estas duas qualidades que se dirigem, ao mesmo tempo, ao leitor e ao artista. O interessante é que Dom Casmurro não é sequer um romance cujo rótulo desaparece completamente mas uma versão da história, talvez uma versão do romance, embora sua origem esteja numa peça de teatro de Shakespeare. Todos sabem de cor: Otelo. A história, segundo Machado, não contempla Capitu trata-se de uma personagem ausente, no sentido da sua manifestação como mulher e personagem, aquela que nem pode falar uma verdadeira personagem de criação indireta, conforme analiso no meu livro A preparação do escritor (Iluminuras, 2009). Ou seja, ela só existe na cabeça do personagem Bentinho também narrador e nunca fora dela. Ela é criada por ele. Tão nunca fora dela que o próprio título da obra seduz o leitor, mas não corresponde ao conteúdo literário. Ou seja, chama-se Dom Casmurro apenas para homenagear o poeta que não gostou do narrador, o poeta abusado do trem.

Essa é, sem dúvida, a primeira grande sofisticação de Machado: colocar um título que não tem nada com o romance não existia dom Casmurro algum no momento em que a história se desenvolve seduzindo e driblando o leitor porque, apesar da gravidade da história e da sua personagem, não achei melhor título para a minha narração . Não? E por quê? Tudo por estar cochilando . Não é aí que ele parece dizer que cochilou a vida inteira e que, por isso mesmo, não percebeu com clareza os movimentos de Capitu? E por que cochilou não pode dar ao livro o verdadeiro título depois utilizado por Fernando Sabino: O amor de Capitu. Percebam bem a estratégia: tirar dos olhos do leitor o nome da mulher amada e polêmica, para que o leitor não se fixasse nele, de imediato.

Então, se não há um romance, mas uma versão do romance, porque só é revelado aquilo que interessa a Bentinho, a sofisticação é escondida pela simplicidade. De tamanha simplicidade que o narrador anuncia que vai mentir e o leitor nem se preocupa com a armadilha. E se não há um romance, mas uma versão, fugindo das regras tradicionais da narrativa, pode-se concluir mesmo que o romance morreu. Assim como morreu para Clarice Lispector ou para João Gilberto Noll, ou para Sérgio Sant'Anna, ou para Cristóvão Tezza, por exemplo. Portanto, se considerarmos as técnicas tradicionais, podemos confirmar a morte do romance, embora ele continue vivo conforme a classificação do autor ou dos autores. Sem esquecer a frase popular: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. (Raimundo Carrero).

* Autor de, entre outros, A minha alma é irmã de Deus (Record), que recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, em 2009; e de Somos pedras que se consomem (Iluminuras), Prêmio Jabuti, em 2000.