Saltimbancos: fábula difusa em versão grandiosa

Ricardo Schöpke, Jornal do Brasil

RIO - Os músicos de Bremem dos irmãos Grimm são a fonte de inspiração para a transposição da fábula de Os saltimbancos para o teatro, por Luiz Enríquez Bacalov e Sergio Bardotti, sendo traduzido e adaptado no Brasil por Chico Buarque. A versão original do conto alemão é de extrema conotação política e social e, pela força de sua lenda, há na cidade de Bremem uma estátua de ferro em homenagem aos seus principais personagens. Quatro animais um burro, um cachorro, um gato e um galo cansados de serem maltratados por seus donos, senhores feudais na época, resolvem fugir de suas casas e encontrar a libertação num novo e desconhecido mundo de aventuras mambembes. Sem saberem o que fazer para sobreviver, resolvem montar uma banda após encontrarem uma casa, habitada por ladrões, no meio do caminho de suas andanças. A partir desta premissa, ficas bastante claro o momento em que o espetáculo foi lançado no Brasil e o sucesso que alcançou por aqui. Era o ano de 1977, os fantasmas opressores da ditadura militar ainda faziam-se presentes, e através da metáfora de quatro animais oprimidos pelos seus donos, era possível extravasar através da arte todos os nossos sofrimentos e indignações. Contando na época com uma equipe engajada e de peso artístico, tínhamos no elenco Marieta Severo (que na adaptação transformou-se em gata), Miúcha (a galinha), Grande Otelo (o burro) e Pedro Paulo Rangel (o cachorro).

Passados 33 anos desta histórica encenação no palco do Canecão, foi alardeada uma nova montagem de Os saltimbancos, prometendo novidades e gerando assim uma grande expectativa. Que grandes inovações poderiam ser feitas? Seria uma leitura mais contemporânea da encenação? Contaria a peça com apresentação de um coro infantil? Ou o uso de alguns tímidos efeitos de projeção?

De tudo o que foi prometido, pouco foi visto. A direção, assinada pela premiada Cacá Morthé (reconehcida merecidamente pela realização de ótimos espetáculos, realizados principalmente no Tablado). Para a criação deste novo projeto, contudo, não é possível entender seus propósitos artísticos. Não fica claro se é um espetáculo clássico ou contemporâneo. A dramaturgia se perde diante do caráter espetacular da montagem. Apreende-se muito pouco do contexto onde se passa a encenação e dos principais momentos de transição da história. Não é possível ver em cena claramente as causas e os efeitos que levam os quatro animais a buscarem a sua liberdade, tudo é tratado de uma forma superficial e leve. Não que fosse preciso para isso ser panfletário, porém, a essência da liberdade e da própria analogia com a palavra-título saltimbancos artistas que itineram por praças, ruas e por cidades do interior merecia uma atenção maior da direção na dramaturgia.

A concepção do espetáculo também sub-aproveita o coro infantil, uma vez que suas aparições são muito esquemáticas e óbvias, e suas funções quase nulas. Uma coisa que realmente não se conegue entender é a opção em modernizar o figurino dos animais assinado por Kika Lopes ao mesmo tempo em que a direção se faz valer de códigos mais antigos de caracterização de animais no teatro infantil. A direção é extremamente clássica, com marcações simples e antiquadas um animal aparece, canta; o coro entra, canta junto; o coro sai, e por aí vai). Outra coisa que intriga é o uso de andaimes, igualmente sub-aproveitados. O que eles significam? Urbnanismo? Construção? Abandono? Ou um artifício para preencher o enorme palco do teatro? E onde entra o trapézio de pouco efeito da galinha? De um poleiro? De um circo? Tudo parece ser colocado apenas para ampliar o efeito grandioso de uma superprodução musical, e assim criar uma empatia e encantamento ao público.

A cenografia bem executada é assinada pelo competente Sérgio Marimba. A direção musical de Alexandre Elias não apresenta arranjos sofisticados e a iluminação assinada por Paulo Cesár Medeiros é correta. As coreografias de Sueli Guerra são bastante singelas, mas pouco criativas. A única base de sustentação de todo o espetáculo musical está na qualidade de intérpretes do quarteto protagonista, que se sobressaem principalmente pelos seus talentos musicais e vocais. Alessandra Verney no papel da gata, além de cantar muito bem, imprime mistério e sensualidade a sua atuação. Bianca Byington está excelente como a galinha. No papel do cachorro, José Mauro Brant é um dos que mais investe na ótima composição total do seu personagem. Mauricio Tizumba, o jumento, também canta bem, entretanto a sua composição animal não é tão bem resolvida. Ele usa um grande excesso deslocado de interjeições sonoras, sem que haja nenhuma necessidade para isso.