Macbeth: Uma crítica à fidelidade erudita

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A complexidade de Macbeth está menos em sua trama de trágica poética e nos significados que possam ser atribuídos aos atos de personagens tão cheios de humanidade, do que na forma como o texto de Shakespeare é encenado. Traduzir a compreensão, ou a visão, de como o poder se transforma em um corpo que adquire vida e corrói as veias que fazem circular o sangue da ambição, não deixa de ser um desafio fascinante. Macbeth e seu séquito, gravitando em torno de assassinatos, vilanias e traições, se igualam em seus atos, como antecipam no início as bruxas. Bem e mal se realizam como natureza do humano, e a escalada de Macbeth não termina com o seu desaparecimento. Perpetua-se naqueles que repõem a justiça nos tronos que se sucedem.

Macbeth faz um corte profundo na ambição como um processo transfigurado pelo medo e o remorso, mas que, ao se instalar, adquire razão própria que movimenta a engrenagem de sua perpetuação. Tragédia em que o mal se transforma em fúria e em que o destino do homem, mais do que do rei, se deixa conduzir pelo desdobramento de um ato, penetra zonas de sombra para que se perceba o esfacelamento da máquina do mundo . Macbeth assassina o sono, que se esconde, a princípio, no remorso, mas que se transforma em vigília, para assegurar a conquista. Lady, a artífice do primeiro assassinato, que invoca o mal e investe contra a sua feminilidade, se torna sonâmbula na consciência da sua desumanidade, em contraponto a Macbeth, que, amortecido de culpabilidade, se entrega a escalada de mortes.

Na tragédia de Shakespeare, repleta de imagens manchadas de humanidade sangrenta, o diretor busca estabelecer poética cênica que encontre a voracidade abissal das palavras que tocam as pulsões e impulsos do homem de modo arrebatador. Transpor esse arrebatamento para teatralidade contemporânea, em que novas possibilidades de se debruçar sobre a permanência sejam vitais e arejadas, instiga os encenadores diante da narrativa empanturrada de horrores .

Aderbal Freire-Filho procura, em sua montagem em cartaz no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. trazer Macbeth para sintonia de convergências teatrais e transcrições imagísticas. Na tradução do próprio Aderbal e de João Dantas, se persegue a métrica do fluxo verbal, sem a ameaça da coloquialidade da traição. Na concepção, o ponto de partida é o inesperado estilístico. As bruxas se apresentam, na cena inicial, como caricatas figuras, em pernóstica empostação, durante o chá, com a melodia de Tea for two ao fundo.

Nesta pequena crítica à fidelidade erudita a Shakespeare, o diretor fundamenta as bases de sua encenação. Há indiscutível ajustamento da montagem ao espaço, com soluções cenográficas de Fernando Mello da Costa que fracionam, em quatro tablados, a distribuição da ação. O esgarçamento da área de atuação, com o desmonte das cenas à vista da plateia, deixa visíveis os truques da representação, nos quais a evidência é incorporada, mas o dramático se dispersa. A fluidez da tradução, que serve à vocalização natural dos atores, e a quebra surpreendente da primeira cena, que determina a perspectiva da montagem, impõem ritmo que desvenda em excesso, prejudicando o adensamento. A tragédia é mais contada do que interpretada, e ainda assim a sua trama fica ensombreada, interferida por esse desmonte espacial e esse desnudamento artesanal. A palavra, ao mesmo tempo em que é posta num fluxo mais escorreito, pela tradução e pela fala, quebra o seu substrato, torna-se sonoridade.

Daniel Dantas, como Macbeth, é quem mais sofre com esta formalização da voz poética. Sua interpretação parece monocórdia, de linearidade sonora, como se o ator estivesse à procura do texto, da próxima frase. Renata Sorrah, como Lady, se apropria com maior densidade da essência do verbo, mas a dispersão dos quadros impede que a atriz amplie a contracena. Os demais atores Andrea Dantas, Camilo Bevilacqua, Charles Fricks, Edgar Amorim, Erom Cordeiro, Felipe Martins, Guilherme Siman, Marcelo Flores, Ricardo Conti e Thelmo Fernandes distribuídos por vários personagens, asseguram no coletivo das interpretações o apoio a montagem , que desafia na visão, generosamente voltada para a plateia, a que ela se deixe levar por mais este desejo de descobrir luminosidades na grandeza sombria de Macbeth.