ABL homenageia o líder abolicionista Joaquim Nabuco, morto há 100 anos

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Personagem decisivo da história brasileira, Joaquim Nabuco também também teve participação fundamental na criação da Academia Brasileira de Letras. No dia exato em que se completa 100 anos da morte do político, diplomata, historiador, jurista, jornalista, a casa inicia as homenagens a um de seus mais importantes membros. A programação começa hoje, às 10h30, com missa comemorativa na Igreja da Candelária, e continua amanhã, com uma sessão especial, às 17h30, no Salão Nobre do Petit Trianon da ABL. Sob o tema As duas vidas de Joaquim Nabuco: o reformador e o diplomata, o evento conta com a presença do Embaixador Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores, como conferencista.

São muitas as razões para a Academia festejar Nabuco afirma Marcos Vinicios Vilaça, atual presidente da instituição. É um vulto da história brasileira, e também um dos fundadores da Casa. Foi o primeiro secretário-geral, e chegou a fazer o discurso inaugural, deixando seu depoimento de que a Academia deveria voltar-se para as humanidades, não apenas no sentido antropológico.

Para dar o devido relevo à data, a instituição pretende fugir da rotina durante as homenagens, que vão se estender ao longo de 2010. Por enquanto, está previsto um ciclo de conferências em março com nomes de grande expressão, além da tradução de uma de suas principais obras escritas em francês, Foi voulue, espécie de diário metáfisico que narra sua reconversão religiosa e pleiteia sua causa perante a razão e a ciência.

Amanhã, logo depois da sessão especial comemorativa, também será inaugurado um painel, doado por Francisco Brennand, artista pernambucano, em homenagem ao líder abolicionista. Intitulado Nabuco gigante, foi elaborado em ladrilhos esmaltados, com 5 metros de comprimento por 2,5 de altura.

Não queremos que as homenagens fiquem nas alegorias e adulações, mas que também imponham uma reflexão do papel de Nabuco explica Vilaça. Ele não foi apenas um agente de mudanças, mas também de transformações no plano social.

Homem à frente de seu tempo, Joaquim Nabuco foi, nas palavras de Vilaça, moderno sem ser modernoso . Como um dos maiores diplomatas do império, conciliou o monarquismo com uma luta incansável contra a escravidão. Excelente orador, expôs suas ideias em ensaios e também nas páginas do Jornal do Brasil, do qual foi correspondente e um dos fundadores.

Na Academia, o abolucionista deixou as bases de uma abertura cultural que permanece até hoje.

Posso dar um exemplo: a casa este ano vai festejar tanto Nabuco quanto Noel Rosa ressalta Vilaça. Estamos sempre atentos a manifestações da chamada cultura popular , apesar de eu não gostar muito deste bordão. Trata-se de uma abertura às humanidades, que nos afastam desta ideia infame da torre de marfim.

Autora de Os mundos de Eufrásia, que narra a relação entre Nabuco e a rica herdeira Eufrásia Teixeira Leite, Claudia Lage acredita que o líder abolicionista foi uma das principais figuras de uma época em que a elite intelectual começa a pensar o país.

Há uma franqueza muito peculiar em seu olhar sobre o país explica. Em Minha formação, conta como emocionou-se ao ver aquelas 5 mil pessoas de todas as cores comemorando o fim da escravidão nas ruas, pensando como aquele seria o futuro do país. Mas depois, no dia seguinte, percebeu que aquelas imagens eram apenas rasuras, que na verdade todos estavam separados, cada um no seu lugar, e que nada seria feito depois da libertação. Ele previu todo o processo de desigualdade que iria se instaurar.

Para Vilaça, a honestidade e integridade de Nabuco é uma referência a ser seguida.

Ainda somos vítimas da obra da escravidão avalia. Não realizamos as inserções sociais, nem resolvemos o problema de quebra de ética na política.