Leitores do JB elegem Benjamin Button e Loki os melhores filmes do ano

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Heróis não precisam ter superpoderes ou vestir uniformes vistosos para conquistar o coração do público. Assim deixaram claro os leitores internautas do Jornal do Brasil que apontaram, em eleição online, O curioso caso de Benjamin Button, de David Fincher, centrado na agridoce história de um homem que nasceu com o relógio biológico invertido, interpretado por Brad Pitt, como o melhor filme estrangeiro do ano. O mesmo vale para Loki Arnaldo Baptista, documentário que recupera a conturbada trajetória do fundador da banda Mutantes, de Paulo Henrique Fontenelle que venceu a contagem do melhor lançamento nacional da temporada.

O feito da produção brasileira é particularmente curioso: Loki, que consumiu R$ 120 mil e três anos de pesquisas, encerrou a carreira no cinema com um público que não chega a 16 mil pagantes. Mas o apelo do personagem pode ser medido pela acolhida que a produção, a primeira do Canal Brasil, nos festivais nacionais. Exibido pela primeira vez para o público no Festival do Rio de 2008, onde acabou com o troféu Redentor da votação popular, o filme foi aplaudido por quase 20 minutos, em sessão que contou a presença de Arnaldo Baptista. No mês seguinte, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a organização da maratona teve que organizar uma sessão extra, porque as duas da programação ficaram superlotadas.

Loki também venceu o Festival de Cinema Brasileiro de Miami e 7º Cine Fest Petrobras Brasil, em Nova York:

Depois de todos os prêmios que o filme conquistou, essa vitória na eleição dos leitores me deixa cheio de orgulho. Ainda mais em um ano em que comédias como Se eu fosse você 2, que foi visto por mais de seis milhões de pessoas. A sensação que tenho é de dever cumprido, porque Loki é uma produção de baixo orçamento, feito com uma equipe mínima, de três pessoas comemora Fontenelle. O Arnaldo representa o trágico e o cômico ao mesmo tempo, é a arte em si. Até já me disseram que fizemos um documentário de ficção, sobre um cara que saiu em busca de um sonho, superou inúmeras dificuldades, se apaixonou e conseguiu mudar de vida por causa dessa mulher. É um cara que simboliza a trajetória do herói.

A idéia para o filme surgiu ainda em 2004, quando Fontenelle e o produtor André Saddy desenvolviam um especial com Arnaldo para o programa musical Luz, câmera e canção, do Canal Brasil, época do lançamento do último disco solo de Baptista, Let it bed. O projeto foi crescendo, tomou ambições cinematográficas e culminou numa ida do diretor, do produtor e da co-produtora Isabella Monteiro para assistir ao show que marcou o retorno dos Mutantes à atividade, no Centro Cultural Barbican, em Londres, em maio de 2007. A histórica apresentação foi o primeiro registro do filme.

Eu me correspondi com as comunidades dos Mutantes no Orkut. É, basicamente, um filme feito pelos fãs resume o diretor.

O filme é sobre o Arnaldo, mas os Mutantes permeiam a história. Não daria para falar dele sem falar da banda argumenta Saddy. O rock nacional é o Arnaldo, deve tudo a ele. Nossa idéia foi resgatar sua genialidade. Um lado exposto em Loki é o do Arnaldo pintor. A equipe pediu ao ex-mutante que pintasse um quadro que simbolizasse sua vida. A elaboração da tela aparece no filme.

O documentário resgata grande parte da trajetória pessoal e profissional do músico, desde a ascensão dos Mutantes, nos anos 60. Seus altos e baixos estão lá, até a ameaça das drogas e da depressão e a retomada de seus sonhos, com a ajuda da atual mulher, Lucinha Barbosa, uma ex-fã que lhe deu a mão em uma das fases mais difíceis da vida do músico. O filme não deixa de fora, por exemplo, o surto que levou Baptista a tentar suicídio, em 1982, quando se atirou do quarto andar da ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público de São Paulo. A cinebiografia conta com depoimentos de artistas como Tom Zé, Sérgio Dias, Nelson Motta, Gilberto Gil, Roberto Menescal, Liminha, Sean Lennon (filho do ex-beatle e fã dos Mutantes), Nelson Motta e Lobão, outros.

O Arnaldo baseou toda sua obra em torno do amor. E, até por causa disso, continua vivo até hoje. Talvez o Arnaldo seja o último herói romântico resume Fontenelle.

Benjamin Button é outro herói torto que conseguiu ficar na memória do público brasileiro. Ele é o personagem-título dessa sofisticada adaptação, ao custo de US$ 150 milhões, de um conto de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), que chegou à festa do Oscar desse ano com 13 indicações ao prêmio; levou apenas três: Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Visuais. É uma história de amor incomum entre Daisy (Cate Blanchett) e o protagonista (Pitt), um homem que nasce octogenário e morre como um bebê, que atravessa grande parte do século 20. No Brasil, o longa-metragem encerrou carreira comercial com pouco mais de 2 milhões de espectadores.

O curioso caso de Benjamin Button fala sobre as marcas que uma pessoa deixa na outra, as cicatrizes que os relacionamentos produzem na gente ao longo da vida afirmou o diretor David Fincher à imprensa americana, na época do lançamento do filme nos Estados Unidos.

Autor de obras notórias por sua violência, como Seven Os sete pecados capitais (1995) e O clube da luta (1999), Fincher surpreendeu meio mundo com um quase de contornos poéticos. O roteiro de Eric Roth acompanha o percurso do bizarro personagem, do nascimento, em 1919, como um bebê enfraquecido por doenças associadas à velhice, à sua morte em 2005, numa Nova Orleans prestes a ser arrasada pelo furacão Katrina. Abandonado pelo pai, um rico dono de uma fábrica botões, o recém-nascido é adotado por uma jovem negra (Taraji P Henson).

A medida que cresce, Benjamin ganha uma aparência mais jovem e saudável. A situação se inverte depois que o personagem atinge a meia-idade: a saúde se deteriora à medida em que seu corpo rejuvenesce. Caríssimos programas de computador reproduzem os traços de Pitt envelhecido em bebês e crianças, a maquiagem o envelhecem na fase adulta. A ideia era torna-lo reconhecido durante todo o processo.

No mundo civilizado, a gente não dá 50 passos sem cruzar com uma foto de Brad (Pitt). Começamos com um personagem que, mesmo na forma de um velhinho minúsculo, a platéia pudesse reconhecê-lo. E funcionou comentou o diretor, que pela terceira vez trabalha com o ator, que concorreu ao Oscar por sua performance. Há poucas pessoas na minha vida em que confio plenamente, e uma delas é o Brad.

Embora seja um filme profundamente romântico os dois enamorados se reencontram em diversas fases de suas vidas , O curioso caso de Benjamin Button é marcado por uma certa carga de melancolia. A história é narrada por uma Daisy velha e moribunda, que enquanto aguarda sua hora final em uma cama de hospital, conta a história de Benjamin para sua filha, vivida pela atriz britânica Julia Ormond. Apesar dos elogios da crítica, o filme mal se pagou nos Estados Unidos, onde não chegou a arrecadar US$ 150 milhões.

Benjamin Button foi construído como uma música. A melodia que se sobressai pode ser adorável e ingênua ou desanimadora, mas sob ela há uma batida constante, uma espécie de metrônomo que nos alerta sobre a inevitabilidade de nossa morte explicou Fincher.