Vídeos da artista Anna Bella Geiger são expostos pela primeira vez

Sthephani Dantas, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Apesar de se expressar também por meio de gravuras, pinturas e fotografias, Anna Bella Geiger sempre será reconhecida como pioneira da videoarte brasileira mas até hoje o país não havia assistido a uma retrospectiva de seus trabalhos em vídeo. A exposição Anna Bella Geiger: Vídeos 1974 2009, que abre sábado no Oi Futuro, tem curadoria de Fernando Cocchiarale e cobre a lacuna ao compilar 14 vídeos históricos e quatro vídeoinstalações duas delas inéditas, Circa 3 e 4.

As obras dialogam com um trabalho feito para uma exposição na Fundação Eva Klabin em 2006, Circa 1 e 2, nos quais ela monta a história de um passado remoto, que se passa no Oriente Médio, por meio deesquícios em escalas diversas. O objetivo é representar a memória de uma região marcada pelo nascimento do monoteísmo. Anna Bella afirma, entretanto, que a questão não é a religiosidade:

Não é um trabalho religioso, mas histórico. A ruína está ali pra mostrar que existe memória. O sentido não é o de o passado ter sido arruinado explica.

Já Circa 3 e 4, que serão interligados por uma passarela, são representações da modernidade.

São pedaços de maquetes de projetos de arquitetos da Escola de Bauhaus, dos anos 20 para cá, que é quando se chegou ao ideal moderno de arquitetura diz Anna Bella. E o vídeo da instalação, com trens atravessando vários espaços, mostra a ligação entre essas peças.

Diante da coleção de trabalhos, uma pergunta recorrente pode ser Como essas obras nunca foram expostas em conjunto? . Mais inacreditável ainda é saber que até mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova York chegou na frente do Rio, e por quase 30 anos: em 1981 o MoMA já promovia uma individual com os trabalhos em video da artista. Anna Bella acaba de voltar, aliás, de sua última individual internacional, que fica aberta até o fim de novembro na cidade de Antuérpia, na Bélgica.

A exposição lá vem sendo muito bem recebida. O público considera o que eu fiz nos anos 70 ainda muito atual conta a artista Os acadêmicos brasilianistas, principalmente os europeus, estão estudando o que é arte contemporânea no Brasil, notadamente o que foi produzido na década de 70, e reconhecendo o trabalho.

A carioca, que participa de todas as etapas da montagem, não consegue esconder o nervosismo por expor em sua cidade:

Não é que esteja apavorada, seria até ridículo falar isso na minha idade, mas simplesmente não pode dar errado. As instalações têm que ficar iguais às originais, mas, ao mesmo tempo, elas vão tomando vida própria a medida que você vai fazendo, o que é maravilhoso também.

Os trabalhos de videoarte e de videoinstalação são relativamente recentes em sua trajetória. Até o inicio da década de 70, utilizava desenho e gravura em metal como meios de expressão, acabou incorporando a fotografia e, a partir de 78, ingressou na videoarte. Anna Bella acredita, entretanto, que essas manifestações não são contraditórias:

As questões com que gosto de trabalhar devem ser expressas da melhor maneira possível. Tenho critérios conceituais resolvidos em diferentes meios, sejam vídeos, gravuras, pinturas ou fotos explica.

Há, entretanto, um tema que permeia toda a obra da artista: a utilização da cartografia aludindo a mapas e globos terrestres para se falar de política.

Não é uma questão só de fazer mapas . Na verdade, utilizo a geografia para falar de questões profundas, como a situação do Oriente Médio, que está sempre no limite da catástrofe.

A relação que a artista mantém com o espaço fica clara na exposição, que se espalha pelo Oi Futuro. A concentração maior de obras fica no quarto andar, onde os vídeos são exibidos em monitores as videoinstalações ficam em salas separadas. Ao lado da escada de acesso ao andar, também haverá uma projeção.

A obra, Passagens, se relacionará com o espaço em que estará inserida acredita Anna Bella.

Já na entrada haverá um painel que ocupará uma parede inteira com recortes de trabalhos o que a artista considera, ao mesmo tempo, uma apresentação da exposição e um novo trabalho, pois tem uma carga conceitual inerente.