Escritora e cineasta, Rebecca Miller mergulha no universo feminino

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Não se é filha do dramaturgo Arthur Miller, mulher do temperamental ator Daniel Day Lewis impunemente. De outro modo, os livros e filmes de Rebecca Miller não estariam repletos de personagens que lidam com fantasmas do passado, sentimentos de culpa e questões envolvendo a própria identidade. Em A vida íntima de Pippa Lee, que chega ao circuito brasileiro na próxima sexta-feira, tais temas voltam à baila na ainda curta filmografia da realizadora de O tempo de cada um (2002), desta vez sob o ponto de vista de um bando de gente letrada e bem nascida que faz um monte de comentários pomposos sobre arte.

Baseado no livro homônimo escrito por Rebecca (que chega em breve às livrarias, pela Record), o filme é centrado em Pippa Lee (Robin Wright Penn), dona de casa casada com um editor famoso (Alan Arkin) e 30 anos mais velho, que entra em crise depois que o casal decide trocar o agito da cidade grande por um tranquilo condomínio de aposentados. A descoberta da traição do marido a faz repensar os motivos que levaram a ex- adolescente rebelde criada por uma mãe manipuladora (Maria Bello) viciada em pílulas e que fugiu da casa dos pais para morar com a tia lésbica (Robin Weigert) e sua amante (Julianne Moore) a se tornar uma mãe e esposa perfeita.

Há um momento em que Pippa confessa que deixou de ser a protagonista de sua própria vida. Quando jovem, o drama dominava o dia a dia dela e por isso a ideia de ter se afastado daquilo tudo à medida em que crescia lhe agradou por algum tempo conta a diretora ao Jornal do Brasil. Mas ela perdeu o seu eu interior ao longo do processo.

A cineasta afirma que teve sorte de mesmo como mãe e esposa, ter passado grande parte da minha vida escrevendo .

Para muitas mulheres, há muito prazer em ser mãe e dona de casa perfeita mas também muito de auto-anulação também. Há muita tensão e é difícil saber como se sentir a respeito disso tudo.

Assim como Pippa Lee, por muito tempo, Rebecca precisou lutar para não ser sufocada pelas fortes personalidades que gravitaram a sua volta. A diretora é fruto do casamento de Miller com Inge Morath, ex-fotógrafa da agência Magnum. Os dois se conheceram quando esta recebeu a incumbência de fotografar Marilyn Monroe (1926-1962), então casada com o autor de A morte do caixeiro viajante, no set de Os desajustados (1961), o penúltimo filme da estrela. Miller já tinha dois filhos de um casamento anterior e o quarto, Daniel, nascido quatro anos depois de Rebecca, foi diagnosticado com síndrome de Down e entregue ao nascer a uma instituição que cuidava de crianças com problemas mentais. Ao se casar com Daniel Day-Lewis, este filho do poeta Cecil Day-Lewis, Rebecca se viu novamente ofuscada por outras celebridades.

Acho que todos, especialmente nós, americanos, acreditam ser livres para se redefinirem, mudando de carreira ou de endereço... geralmente, para a Califórnia. Mas penso também que sempre estaremos ligados ao nosso passado. Sempre teremos nossos pais conosco. Eles fazem parte de quem somos diz a diretora de 47 anos. E agora aqui estou, mergulhada em minha própria família, cuidado de meus dois filhos, e absolutamente comprometida com essa função. Minha válvula de escape são os meus livros, os meus filmes. É neles que canalizo toda negatividade. Quando se tem uma família e filhos, as obrigações são enormes. Acho que ficaria louca se não tivesse uma vida intelectual.

Mãozinha de Keanu Reeves

A obra de Rebecca descreve visões de mundo do ponto de vista feminino. O tempo de cada um, seu primeiro longa-metragem, acompanha as tentativas de três diferentes mulheres uma operária, uma editora e uma adolescente grávida tentando fugir da prisão existencial criada para elas. Em O mundo de Jack e Rose (2005), seu filme anterior, coprotagonizado por Day-Lewis, fala de um ambientalista que vive com a filha adolescente (Camille Belle) em uma comunidade isolada do mundo. A vida íntima de Pippa Lee amplia essa ambição existencialista para o universo dos bem-nascidos. E talvez ficasse restrito ao circuito independente não tivesse encontrado o apoio de nomes graúdos da indústria, como Keanu Reeves, que interpreta o vizinho problemático de Pippa, por quem virá a se apaixonar, e Blake Lively, a Serena Van der Woodsen da série Gossip girls, que encarna a protagonista quando jovem.

Sempre foi difícil levantar dinheiro para o tipo de filme que faço. Tenho que procurar dinheiro nos lugares mais inesperados afirma Rebecca.

Neste sentido, ser filha de Arthur Miller e mulher de Daniel-Day Lewis, cujas reputações transcendem suas excentricidades, pode ser uma mão na roda. Mas a diretora segue a enumerar suas dificuldades de liquidez:

Particularmente para Pippa, por causa do momento (de crise financeira) que atravessamos. Houve um período, nos anos 70, que os grandes estúdios se interessavam em produzir filmes independentes. Mas essa época de ouro já se foi. Meus filmes são difíceis de imaginar na cabeça quando se lê as páginas do roteiro e isso é um problema. Falo sobre a vida interior de pessoas, o que é raro de se ver nas telas hoje em dia.