Múltiplas batidas

Taís Toti, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Naná Vasconcelos tem um encontro (às cegas) marcado na próxima terça-feira. Os batuques orgânicos do percussionista pernambucano encontram as batidas eletrônicas do sergipano DJ Dolores, em atração do festival Multiplicidade, no teatro Oi Casa Grande, com interferências visuais do artista plástico Raul Mourão e do diretor Leo Domingues. Chamada Blind Date, a parceria entre Naná Vasconcelos e DJ Dolores já havia sido testada no Recife e em São Paulo, e chega pela primeira vez ao Rio.

O Multiplicidade tem uma relação muito grande com a tecnologia, e o Naná é o contraponto, o oposto do que a gente prega com as pesquisas em arte digital detalha o artista visual e curador do festival Batman Zavareze. A parceria com o DJ Dolores contribuiu para virar um projeto no formato do evento, além de estimular os improvisos musicais do Naná.

Unindo a parceria musical ao trabalho visual de Raul Mourão e Leo Rodrigues, o evento promove um encontro inédito, fato que, segundo Zavareze, está no DNA do Multiplicidade.

Chamamos o Raul Mourão, que tem bastante afinidade com universo urbano e é ligado ao que o Naná constrói. E ganhamos uma adesão de peso com o Maneco Quinderé, convidado para fazer a luz.

O encontro às cegas que dá nome à parceria retrata bem o clima inesperado e de improviso que impera no show da dupla.

É um negócio muito inusitado e inesperado esse encontro para mim. Gosto muito desse desafio garante Naná Vasconcelos. Não sabemos no que vai dar, e isso é bom para sair da mesmice. Vai ser às escuras mesmo, pois chego de viagem da Alemanha no dia e já vou direto para a passagem de som.

O artista plástico Raul Mourão também considera o espetáculo um desafio.

Fizemos tudo ouvindo as músicas. Juntamos alguns trabalhos meus, do Leo Rodrigues, e preparamos outros, inéditos. Mas vai ser editado na hora, então tem improviso, em função do que vai estar rolando ao vivo.

Aos que consideram sua parceria com o DJ Dolores improvável, o percussionista aponta as semelhanças entre as sonoridades.

O DJ Dolores é muito orgânico, apesar de lidar com a eletrônica. Meu trabalho é absolutamente orgânico, mas tem muita coisa que faço que parece eletrônico compara Naná.

O percussionista diz que se sente rejuvenescido ao trabalhar com jovens e ver como eles pensam a música.

Gosto de estar no meio dessas pessoas. Quando eu saí do Brasil muitos não tinham nem nascido. Gosto de ver o que os jovens estão fazendo agora, de estar lá.

Para Naná, a mistura inesperada só pode resultar em coisa boa:

Ele é bom no que faz, eu tenho café no bule nas coisas que faço, pois tem honestidade, sinceridade.