Robert Zemeckis recriar o surreal universo de Charles Dickens

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Lançado há 166 anos, um clássico da literatura infanto-juvenil do século 19 faz sua entrada no cinema digital do século 21. Já adaptado várias vezes em filmes, montagens teatrais e minisséries de TV, Um conto de Natal, do escritor britânico Charles Dickens (1812-1870), desembarca hoje nas salas de todo o mundo batizado como Os fantasmas de Scrooge, sob as bençãos da técnica 3D desenvolvida pela Disney. À frente da empreitada está Robert Zemeckis, produtor e diretor cujos créditos recentes incluem O Expresso Polar (2004) e A lenda de Beowulf (2007), ambas experiências com novos processos de animação.

Grande entusiasta de técnicas e efeitos especiais cinematográficos, Zemeckis diz que, pela primeira vez em sua história, o cinema conta com instrumentos capazes de traduzir em imagens o mundo criado por Dickens. Aqui, o conto de fadas construído em torno de Ebenezer Scrooge, velho rico e ranzinza, arquétipo da mesquinhez humana, ganha apoio de uma versão mais moderna da técnica do motion capture. Nela, os atores, cobertos por sensores de movimento, atuam em um estúdio vazio, enquanto câmeras digitais registram a performance em 360º. Cenários, roupas e outros detalhes são acrescentados posteriormente por computadores de animação. A projeção em 3D intensifica a sensação de deslocamento.

Um conto de Natal fala de um universo surreal. Só agora temos condições reais para recriar com mais fidelidade o texto de Dickens, assim como ele o criou em sua própria cabeça explicou Zemeckis durante o Festival de Cannes, onde foram exibidas as primeiras imagens finalizadas do longa-metragem. Todas as versões feitas até então pelo cinema enfrentaram diversos tipos de limitação. O Fantasma do Natal Passado, um dos espíritos que aparecem para assustar Scrooge, por exemplo, sempre foi feito por uma mulher vestida numa camisola. Mas, se você for ler o que Dickens realmente escreveu, perceberá que, na verdade, este é descrito como uma criatura bizarra. Isso foi recriado no nosso filme.

Múltiplos personagens

O processo digital permite que um mesmo ator faça vários papéis. O elenco de Os fantasmas de Scrooge é encabeçado por Jim Carrey, que interpreta o personagem-título e mais seis outros. Colin Firth e Gary Oldman reforçam a lista de intérpretes.

Atuar sob essas técnicas é uma situação bem estranha. Muitas pessoas acham que a animação por motion capture é apenas uma outra espécie de dublagem de desenho animado. Mas eu vejo atores em grandes performances observou Carrey em Cannes, ao lado de Zemeckis. E, é claro, é muito mais do que isso. Além de uma performance perfeita dos atores, temos esses artistas maravilhosos e suas técnicas de ponta, que ajudam a aperfeiçoar nosso trabalho e a colocá-lo em um nível superior, em termos de tempo e espaço.

O aparato mudou, mas o enredo continua intacto. Às vésperas do Natal, o rabugento Scrooge recebe a visita dos fantasmas dos Natais do Passado, do Presente e do Futuro os quatro são encarnados por Carrey, em um grande esforço de variação de vozes e sotaques. Cada um desses espíritos natalinos tentará trazer compreensão e bondade ao coração de pedra do protagonista: o do Passado o lembrará do homem que um dia foi, o do Presente mostrará no que o mundo se transformou, e o do Futuro antecipará o que lhe pode acontecer caso não mude de atitude.

Li Um conto de Natal pela primeira vez quando era muito jovem. O que que me fascinou no livro naquela época foi descobrir de que se trata de uma história de viagem no tempo contou Zemeckis, autor da trilogia De volta para o futuro, uma das franquias mais bem-sucedidas dos anos 80 do século passado. Dickens usa elementos de fantasia, mitologia e espíritos para contar uma bela história de redenção. É uma trama de suspense que rapidamente se transformou em um clássico natalino, capaz de atravessar os séculos.

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