Em 'Coleções', Intrépida Trupe interfere no Palácio Capanema

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Desde pequena ela coleciona objetos diversos. É fascinada por peças que sejam azuis, e quando os amigos viajam, lembranças aos montes surgem em sua casa. Da mesma forma, acumula em profusão miniaturas de toy art, revistas da Luluznha e Bolinha e originais de valor incalculável de Asterix. Agora, porém, resolveu colecionar grandes obras de arte. E além do prazer da pura contemplação, decidiu interagir, ou melhor, criar em cima das tais instalações.

Faço coleções desde pequena. Gosto muito disso diz a diretora Valéria Martins.

Ela assina o projeto Coleções, que invade o Palácio Gustavo Capanema a partir desta quinta, no terceiro espetáculo inédito da Intrépida Trupe em 2009. Nele, a diretora faz uma ponte entre as artes plásticas e a linguagem teatral-circense característica do grupo, através de quatro intervenções artístico-urbanas uma delas ao ar livre.

Estava mais do que na hora de provocar uma interação mais declarada entre a nossa linguagem corporal, que sempre foi abrangente e híbrida, e as artes plásticas explica Valéria. Integrar essas obras aos movimentos cria um novo modo de apresentação. É um aprofundamento da pesquisa e da nossa inquietação artística. Acho que podemos estabelecer uma outra relação com o nosso público.

Para batizar a novidade, Valéria não encontrou dificuldades.

Chamo de projeto porque é algo que ainda está em experimento, em elaboração. Já Coleções é uma junção de obras.

Uma coleção que apenas se inicia. E que, em breve, deverá se estender, ganhar tamanho e elementos.

É o começo de uma pesquisa de linguagem que poderá englobar outros artistas mais à frente, assim como abre um novo leque para o repertório da Intrépida revela. Acho que posso dividir meu trabalho em antes e depois de Coleções, porque abre-se um novo parâmetro. Continuamos a usar o circo, o teatro e a dança, mas a passagem e a comunicação entre essas linguagens se dá numa fluidez que nunca havíamos conseguido. Não há um momento especifico para cada um.

Símbolo da arquitetura moderna do país, o Palácio Capanema serve de palco para as evoluções do elenco sobre as obras dos artistas Guga Ferraz, Pedro Bernardes, Raul Mourão e Marta Jourdan. Os performers Flávia Costa, Guilherme Lazari, Leonardo Senna, Luciana Medella e Paulo Mazzoni conduzirão o público desde os jardins de Burle Marx, onde estará a Cidade-dormitório composta de ferro e madeira assinada por Ferraz; até a galeria interna, ocupada pelas grades e espaços reprimidos de Drama.mov, de Raul Mourão; as projeções, líquidos e vapores de Marta Jourdan e o objeto incompleto de Bernardes, feita com material asfáltico.

Criamos uma espécie de circuito para direcionar o público, mas cada um escolhe um recorte de olhar. É apenas uma ordem cênica de atuação em universos distintos. O trabalho de Mourão é um universo de fábula, um mundo que não existe, enquanto o da Marta é algo poético, lírico, suave. Não queremos determinar um conceito nem estamos aqui para mandar recados, mas é claro que as questões urbanas estão inseridas. A sensação é de que é uma obra aberta.

No espetáculo de Valéria, a obra de arte deixa de ser um objeto de contemplação e se torna o suporte para a representação e movimentação dos atores /bailarinos/acrobatas. Mesmo acostumado a lidar com materiais de naturezas tão diversas como trapézios, tecidos, liras, cabos e bastões, o elenco precisou desenvolver um intenso trabalho físico para interagir com o novo aparato instalações muitas vezes pesadas e de grandes proporções.

Essa intensa fruição é provocada pelo confronto com as obras de arte. Parte do impacto do espetáculo vem da habilidade e da maneira como o elenco se relaciona com elas. Por mais que tenhamos subvertido há tempos o senso comum de todas essas vertentes artísticas, interagir com essas obras é diferente. Não estamos no nosso universo habitual. No início, olhávamos para as instalações e pensávamos: Como é que eu vou criar movimentos dentro disso ? São objetos de ferro pesado, enferrujados, que machucam o corpo.

Todas as instalações ficarão em exposição durante a temporada do espetáculo, com visitação aberta e gratuita durante o dia. Os visitantes também poderão conferir a videodança sobre o projeto Coleções, concebida pela intrépida Carol Cony. O trabalho, que utiliza técnicas como stop motion, vai ser exibido juntamente com o making of da pesquisa para o projeto.

O legal de tudo é que as obras de arte se transformam num espaço cênico nos fim de semana e num ambiente de visitação livre nos outros dias. Enquanto montávamos, ouvimos reações das mais diferentes. Espero que o público possa dar vazão ao que vier na cabeça.